Quem se está a enganar?

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A moção de censura do PS foi um episódio particularmente triste da vida política portuguesa. Primeiro era para ser, sem se saber quando e depois sempre foi sem se saber para quê.

A única consequência da moção de censura do PS ao governo, desde a origem votada ao fracasso no que assiste à sua finalidade real de derrubar o governo, foi minar o capital de confiança que nós havíamos conquistado no estrangeiro. E o “nós” não é o Governo, nem tão pouco os partidos que constituem a maioria; o “nós” são todos os portugueses, do Minho ao Algarve, Açores e Madeira, que, com os cortes sucessivos de ordenados e de regalias sociais, com os aumentos sucessivos dos impostos e de bens essenciais, se têm mantido firmes na certeza de que jamais recuperaremos a nossa independência ou conquistaremos a sustentabilidade como nação enquanto não equilibrarmos o nosso grave deficit. Os sacrifícios têm um objectivo e esse objectivo é nacional.

Depois de termos passado anos a fio a gastarmos mais do que produzíamos, tivemos de pedir ajuda para pagarmos as nossas dívidas e até, com carácter de urgência para pagarmos salários e mantermos as instituições públicas abertas, como sejam hospitais ou escolas. A memória é frequentemente selectiva e convenientemente curta, mas foi assim que a troika entrou em Portugal.

Desde então, mergulhados numa penosa austeridade, o que o país conseguiu, para além de qualquer dúvida, foi a admiração, o respeito e a credibilidade exterior, o que lhe permitiu regressar aos mercados, quando poucos acreditaram que fosse capaz e o PS denunciava ser impossível ainda durante este ano. Eis o que, por sua vez, vem permitir o financiamento das empresas que assim podem começar a recuperar, a desenvolverem-se, a finalmente criar emprego e fazer renascer a “luz ao fundo do túnel” que tão desesperadamente procuramos. A moção de censura do PS encurtou ou facilitou este processo…?

Não. A única consequência da moção de censura do PS ao governo – repito – não foi cumprir o objectivo a que se destinaria e que se sabia estar condenado ao insucesso. Quanto muito, dirão os socialistas, a enviar uma mensagem. Mas para quem?

Tenho para mim que se tratou de um episódio infeliz mais para consumo interno do que externo. Internamente, entre os socialistas, terá constituído um tossir sonoro de um líder que desde o início das suas funções tem sido empurrado para onde o vento sopra. E é verdade que o dito “regresso de Sócrates” causou uma forte ventania, mesmo até redemoinhos em algumas frentes, que originaram movimentos frenéticos e incoerentes como é próprio do que mexe com o vento.

Externamente, num plano nacional, tudo se passou como se não tivesse existido. Nem mesmo os níveis de audiência acusaram qualquer entusiamo perante um fracasso anunciado e apenas artificialmente animado por empolgados discursos de argumentos francamente estafados. 

Externamente, no plano internacional, tornou-se óbvio que se rompeu todo e qualquer entendimento político nacional, que se abriu a guerrilha política, que a governabilidade do país ficou ameaçada, assim como as reformas e todo o investimento e sacrifícios feitos nos últimos dois anos. Tanto dano, tão irrecuperável, a troco de quê?! De um efémero momento de glória de um líder que ninguém reconhece?! Da ilusão de alternativa de poder de um partido que, se chegasse agora ao governo, teria de praticar exactamente a mesma austeridade que vivemos no presente?! Não há qualquer benefício nacional, nenhum mesmo remoto que a imaginação alcance. O benefício é então partidário. Sacrifica-se assim, gratuitamente, o interesse nacional em função de jogos políticos de um partido?! E se o governo tivesse efectivamente caído, quais os custos para o país em termos económicos e sociais de um período sem governação e de um ano de eleições (legislativas, autárquicas, europeias). Como se estaria a contribuir para a recuperação do país? Que crédito ganharíamos perante aqueles cujo financiamento mantém o país a funcionar? Quem se está a enganar? 

 

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