Se a vida é um milagre que se reproduz e prolonga insistentemente, a morte é a nossa única certeza. Não fatalidade. Mas destino. A morte precoce dum ser humano parece uma ofensa grave à natureza e ao dom que Deus deu. Sentimo-nos por vezes mergulhados num mar de insensatez.
Confesso sinceramente que considero a morte um nojo. Ninguém merece . Ela chega, sorrateira, descarada, pezinhos de lã, sem explicações. Sem mais senão. Umas vezes, repentinamente, qual abutre. Outras, de mansinho, camuflada, arzinho de ironia, num deixa p´ra lá, que venho e volto, rodeando a vítima de sofrimento e esperança e… num ápice, quando lhe dá na real gana, zás! Ponto final.
Entretanto, quantas vezes o doente teve que suportar os olhares caridosos duns e doutros, os coitadinhos, os Deus te ajude, o vai ficar curado, o está com bom aspecto, enfim! Tudo isto será mesmo uma visão do inferno, porque, curioso, segundo os outros, não há ninguém que não morra curado. E de bom aspecto. Como também não há nenhum morto que não vire santo após morrer. Às vezes até dói!
Olhando o doente, fico magicando o que se passará no coração daquela criatura, lembrando o pânico que sentirá ouvindo palavras absurdas, ditas à toa. O terror sentido ao perceber a partida. E, como se olhasse através dos seus olhos, sinto a saudade que vai encharcando a sua alma, a chegada do crepúsculo.
E a pessoa morre. Desaparece na curva da vida, carregando anseios que não conseguiu traduzir, qual borboleta, rompeu o casulo e voou. Desapareceu. O casulo vazio é uma coisa feia, que para ali fica, sem valor, sem qualidade. Assim a morte. Assim nós. Naquele dia final, rompemos nosso casulo e vamos… restou o corpo. Foi o fim. E nada que chegue ao fim tem graça, nem deixa de ter. Findou. Acabou. Foi-se. Zerou. Ponto final. Morreu. Jamais desmorrerá.
A parte que se libertou, desapareceu. Libertou-se de problemas, trabalhos, dores, incompreensões, traições, malquerenças, deslealdades, porque a vida é estranha, extrapola, atira absurdos constantemente.
Possivelmente serei criticada, mas é o que penso. Peço desculpa. Mas a minha verdade é nua e crua. Sei que é difícil engolir certas verdades. E porquê encapotar as evidências?
Acho estranho, esquisito, tecer elogios a um morto. Endeusando a imagem. Homenageando – o . Se o não fizeram em vida, porquê agora? É tarde! Ele não ouve.Embrulhe tudo isso e guarde no fundo da gaveta. Os amores, os carinhos, as palavras não ditas, os abraços não dados, os beijos esquecidos, tanta coisa que ficou por fazer, por não se ter entendido anseios, amor, tempo. E, quanta insensibilidade!
E, vencendo etapas, criando anti-corpos, um dia talvez se consiga resgatar esses guardados. Com coragem. Com delicadeza. Com silêncio. Sentir-se-á então que aquela pessoa que se amou, com quem se chorou e riu, com quem se repartiu alegrias e tristezas, com quem se viveu, viveu e viveu, partiu de verdade tal como nós um dia qualquer. E o nada sempre e o sempre nada!











