QUO VADIS PORTUGAL?

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1. A cada dia que passa avolumam-se os receios sobre aonde conduzirá Portugal a dupla António Costa/Carlos César.
Embora não conheça o primeiro, estes tempos de governo têm demonstrado que é uma alma gémea do segundo, para quem os fins justificam os meios e a política se resume a um jogo amoral onde tudo vale e onde os princípios e os valores são coisas meramente instrumentais.
Foi assim com a formação de um governo, em desprezo ostensivo pelos resultados eleitorais. Foi assim com o patético “concurso” a que temos vindo a assistir entre o BE, o PCP e o PS, a ver quem mais regressões propõe, esquecendo-se a realidade do País e a sua capacidade em as suportar. E foi assim com as negociações com a Comissão Europeia, sobre o Orçamento de Estado, onde ou se era a favor da estratégia suicidária do Governo ou era-se “traidor” e “servo” dos interesses estrangeiros.
E o resultado do primeiro embate com a realidade está já à vista: o Orçamento de Estado para 2016 impõe, como escreveu o economista Francisco Sarsfield Cabral, “a maior carga fiscal de sempre. Tornou-se, assim, patético dizer que a austeridade acabou. Agora é uma “austeridade de esquerda”, argumenta-se. É verdade, em parte: a reposição dos rendimentos das famílias beneficia os mais pobres, o que é de saudar. Mas caiu a baixa da TSU para cerca de um milhão de trabalhadores com salário até 600 euros. E não é socialmente justo nem “de esquerda” carregar nos impostos indiretos, que ricos e pobres pagam por igual.
Sacrifica-se a classe média, a alta e a baixa, que o PS acusou o governo anterior de massacrar. Vejam-se os impostos sobre combustíveis e carros, por exemplo. Ou a subida do imposto de selo no crédito ao consumo e nas operações com cartões de débito e de crédito.”
Aqui entre nós, José António Martins Goulart, sintetizou, com notável perspicácia, a situação, afirmando que “ser patriota, para alguns, implica o dever de apoiar incondicionalmente o Governo da República, mesmo quando aprova e impõe aos cidadãos portugueses, com a desculpa da culpa residir em Bruxelas, um Orçamento do Estado para 2016 arquitetado sobre a estrutura perfeita de um produto salvífico ora designado por “austeridade de esquerda”.
Ser patriota neste tempo destemperado, significa ainda, para esse entusiasmado grupo de apoiantes, acreditar que a desejada “austeridade de esquerda” é um modo de expressão de justiça social, certamente porque a consideram equivalente a uma estafada palavra de ordem gritada em manifs de outrora.
Porque os ricos nunca pagam a crise, já sabemos quem suportará os custos da nova austeridade.”
2. António Costa e Carlos César comungam, também, dos tiques indisfarçáveis do autoritarismo e da prepotência. E o primeiro, que não conhecíamos, revela-os cada vez mais. José Manuel Fernandes nota, numa escrita particular e sintomaticamente dura que “o registo adotado pelo primeiro-ministro e pela maioria que o apoia no último debate quinzenal teve mesmo o condão de nos reconduzir aos tempos de José Sócrates, mas em pior: a mistificação foi moeda corrente, a verdade um detalhe sacrificada ao argumento de ocasião, a desvergonha só comparável à ausência de memória, tudo coisas que eram habituais no grande timoneiro da bancarrota, só que agora em versão degradada, género filme série B, pois o antigo PM ainda estudava os dossiers e Costa não se dá a esse trabalho, sendo que Teixeira dos Santos ao lado de Mário Centeno até lembra um Príncipe da Renascença”.
3. A estratégia é, pois, político-pessoal e destina-se a salvar a pele da dupla que conquistou o poder no PS, mesmo que isso signifique afundar de novo o País e impor aos Portugueses novos e maiores sacrifícios. E essa estratégia é conhecida e muito similar à do Syrisa na Grécia, como nota Alexandre Homem de Cristo: “Tsipras assumiu o papel de herói patriótico, prometeu o fim da austeridade, enfrentou Bruxelas, cedeu à Comissão Europeia, apresentou um duríssimo pacote de austeridade que favorecia os funcionários públicos, libertou-se da ala mais radical entre os seus apoiantes, assegurou elevados níveis de popularidade, forçou novas eleições legislativas e venceu-as. Costa também prometeu, também enfrentou, também cedeu, também acusou os adversários de traição à pátria e também apresentou um OE 2016 que eleva a carga fiscal mas beneficia os funcionários públicos. Falta-lhe o resto: libertar-se da ala mais radical (o PCP), subir nos índices de popularidade, forçar eleições e ganhá-las. O roteiro está escrito.
De facto, se há lição que Tsipras ensinou é que as derrotas contra Bruxelas são um excelente ponto de partida para alcançar vitórias eleitorais e estabelecer um projeto de poder. António Costa agarrou-se à possibilidade. O problema, obviamente, não é se o seu plano será (ou não) bem-sucedido. O problema é que, com ou sem sucesso, esse plano arrisca a recuperação do país – tanto no equilíbrio orçamental e económico como na credibilidade externa. Tsipras teve de sacrificar a Grécia para permanecer primeiro-ministro. Em Portugal, António Costa parece disposto a seguir-lhe as pisadas.”
É, pois, com preocupação, que todos nós nos temos de perguntar Quo vadis Portugal, na mão de tais líderes?

08.02.2016

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