Raul Xavier A cabeça mais bem organizada…

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… e o Ilustre Intelectual terceirense concluía: Que alguma vez encontrei.

Sentença proferida pelo Dr. Baptista Lima, presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, no seguimento de longa conversa com Raul Xavier na Biblioteca da Horta aquando de visita à nossa Cidade…

Estaríamos então em princípios da década 60 do século XX, altura que a agora Cidade Património Mundial era, e é, tida como a Capital da Cultura Açórica.

E o ilustrado picoense, nas Lajes nascido em 15 de Setembro de 1909 (fazia agora 104 anos) mas nas Angústias baptizado, encontrava-se como funcionário municipal, destacado na Biblioteca a compilar elementos com vista à actualização dos Anais Faialenses, de Marcelino Lima.

Quanto à sentença atrás referida, tratou-se de judiciosa opinião que até terá causado alguma estranheza, nanja porém, a quem, como eu, conhecia de perto Raul Xavier; terei sido, aliás, o faialense que com ele mais conviveu.

Passei a vê-lo nos primeiros dias de Outubro de 1932 quando, como caloiro, atravessei a corcunda ponte para entrar no Liceu, instalado no Palacete do Barão da Ribeirinha (Castelo Branco).

Era ainda tradição, da sessão solene de abertura de novo ano escolar, os alunos mais velhos usarem também da palavra, embora alguns abusassem, conquanto muito aplaudidos pelos colegas de calças compridas, já que os de curtas, ainda usando, se limitassem às palmas, sem qualquer eco na Reitoria.

Por estas e por outras, incluindo escritos na “Mocidade Académica”, as consequências surgiriam, o caso de o Xavier que nem completou o 5º.Ano, nanja por ser pêra doce; começou por perder no exame, depois não conseguiu média, e por fim acabou por desistir…

E nada o fazia perder o bom humor: formou com o António Cunha Correia (Tanger) e Manuel Lucas um trio que muito gozo dava à malta quando se passeava, cá fora ou nos corredores, de capa e batina, bengala e ostentando na cabeça bivaque de soldado, tinto de preto…

Mas já apenas de boina e também de bengala, aliás dois objectos que o acompanharam vida inteira, passámos a ver Raul Xavier na redacção do “Correio da Horta”, jornal a que deu prestimosa colaboração durante quatro décadas.

Se bem que terá sido por meados do século findo que passei a ter um contacto quase diário, dando-me até a oportunidade de melhor admirar os dons de Deus recebidos, embora nem sempre apreciados pelos conterrâneos, adentro da máxima evangélica de que na sua terra ninguém é profeta.

Possuía uma cultura geral consequente de perspicaz inteligência, aliada a memória privilegiada, o que pude constatar durante os longos anos em que tive praticamente a responsabilidade do diário da tarde, e com quem muito aprendi.

Tive ocasião de o ver fazer, duma assentada, quinze notas para o “Dia a Dia”, já que ia gozar duas semanas de férias na sua Vila baleeira. Recorde-se que se tratava de coluna da última página, nascida com o Jornal.

Recordo também que os noticiários nacionais e internacionais eram feitos à base dos emitidos pela Rádio, o que ele resolvia com uns gatafunhos: a memória auditiva e a pena faziam o resto,..

Todavia, a primeira lição terá começado nas três crónicas sobre excursão faialense às Flores, a bordo do “Cedros”, promovida pela Bensaude sob a orientação de João Quaresma.

Mais preocupado com pormenores, terei ido ao ponto de mencionar os minutos nas partidas e chegadas das visitas pela “Ilha encantada” (título da segunda), não escapando a delicada observação.

Talvez por não haver minutos nos tópicos prometidos para crónica relativa a acontecimento comercial em fim de semana na Madalena, por lhe ser impossível deslocar-se à Vila fronteiriça, aproveitou-os na íntegra, com e sem virgulas, só tendo que arranjar titulo, o que nem seria a primeira vez.

Não era muito afeito a tais reportagens, o que não sucedia quando se tratava de festividades religiosas, esclarecendo-me do motivo de sua preocupação: ficarem registadas para a posterioridade.

Como jornalista que se preze, também gostava de levar a dianteira ao matutino, o que não era coisa fácil para um vespertino.

Mas sempre que surgia oportunidade nunca a deixava fugir.

Foi a visita em fim de semana ao Corvo e Flores do Governador Freitas Pimentel, acompanhado de numerosa comitiva.

Como calhasse em manhã de sábado a passagem pela primeira, deixou a reportagem para publicação na 2ª.feira, escrita à base do programa, apenas sujeita a confirmação telefónica.

Tratou-se até duma viagem que fez com interesse, pois os problemas das quatro ilhas do Distrito sempre muito o interessaram, já que era também um apologista da unidade destas ilhas, aliás testemunhada em passagem de um dos seus apreciados “Mirante”: “Os Açorianos, sem detença de lonjura, unem-se em espírito para comemorarem o Augusto Mistério do Natal”.

A propósito, não lhe deixou de causar preocupação saber de desentendimento, desta feita mais acentuado, entre os presidentes dos municípios florentinos.

E, sabendo-os na Horta, bem como o do Corvo, sugeriu na redacção um convite aos ditos para passeio pela Ilha, o que teve bom acolhimento do Director Dr. Raposo de Oliveira e do Administrador Branco Cordeiro.

Aceite com visível agrado pelos ilustres autarcas, Fajã da Praia do Norte foi local de paragem para almoço regional na famosa Cerca, não faltando inhames, linguiça, pão de milho, vinho tinto em canjirão e, ainda para aperitivo, lapinhas acabadas de apanhar.

Estava aberto o caminho para a desejada paz que, mesmo sem cachimbo, foi “fumada” à noite na redacção, em volta de ampla mesa oval.

Não foi, porém, a primeira de outras iniciativas a merecerem aplauso geral.

Entre elas, ficou também para a história do “Correio da Horta”, a ida ao Pico no dia em que embarcavam no Cais os insignes Príncipes da Igreja: Cardeal Costa Nunes e D. José Alvernaz, Patriarca das Índias, a quem o Director e Redactores apresentaram cumprimentos.

E como era 2ª.Feira de Espírito Santo, e de impérios, seguimos para as Ribeiras, correspondendo a convite para as tradicionais Sopas, tendo o Dr. Raposo de Oliveira brindado os numerosos convivas com a sua fala fluente e sempre interessadamente ouvida.

Criação Velha, de festa também famosa, surpreendeu-nos por extensa mesa de rosquilhas no alongado adro da Igreja, coberto por frondosas árvores.

Voltando ao Raul Xavier, será de salientar ainda as várias peças jornalísticas que se foram sucedendo, sendo, porém, “Mirante” a que mais me ficou gravada na mente e que já referi mesmo num “Tópico” por nome ligado a esse encantador espaço junto à sua quinta “Salvaterra”, sobranceiro à zona norte da Conceição, tendo em primeiro plano, a ribeira, atravessada por três pontes: uma em madeira e estreita, outra em frente à Igreja à custa da destruição de obra d`arte que era a corcunda em alvenaria, a última na continuação da Avenida que será sempre marginal por mais nomes que políticos tentem impingir, e ao fundo, o Canal e o Pico.

A propósito, achamos que deveria ser ali colocada uma Placa em metal com o nome da dita série de escritos de elevado valor literário que bem merecia também compilação em Livro, aliás digno dos melhores escritores faialenses.

Natural pois que seus escritos fossem imbuídos de cunho poético, como autêntico poema era a entrada sul, ornamentada com um sem fim de fragmentos de louças antigas a fazerem um sugestivo friso entre os dois pisos em terra, apenas separados por três ou quatro degraus em pedra.

Na verdade, bela antecâmara para mansão, nem pequena, nem grande, antes a medida do amor dedicado a Dona Celeste e ao seu filho Raul Pedro, e onde livros e jornais transbordavam.

Chegou mesmo a possuir a maior colecção de primeiras edições de jornais açorianos, incluindo naturalmente os publicados no Distrito da Horta, e que se encontram hoje na Biblioteca João José da Graça, o inesquecível introdutor da imprensa no Faial.

Pelo que pudemos constatar, suas mini produções, de cunho poético e humorístico, eram destinadas a uso doméstico, particularmente para amigos, em cujo número me incluía, pelo que não posso deixar de registar a seguinte quadra:

“Passou-se, hoje, no Banco,

Uma letra sem fiador;

Aos quatro anos de vista

Armando Amaral, Vereador.”

Porém, sua Coroa de glória, como jornalista, terá sido o facto de ter contribuído a cem por cento para o Prémio atribuído pelo “Rádio Clube de Angra” ao “Correio da Horta” como o periódico açoriano que, em determinado ano, proporcionou o maior número de transcrições à “Voz da Terceira.

Justo foi pois sua escolha para se deslocar à Capital da Cultura Açórica para receber a distinção.

Pudemos mesmo ver, quiçá pela primeira vez, um ar de agrado ao tão famoso como humilde jornalista que foi Raul Xavier, gesto repetido quando o Director lhe ofereceu o artístico Troféu.

* O autor não escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

 

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