Reflexões Crónicas – A Quinta de São Lourenço

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Em 1651, Tomás de Pórras Pereira, o capitão-mor do Faial, e a sua mulher, Maxência de Lucena, fundaram a Ermida de São Lourenço, numa “sua quinta plantada de arvores e faial sita na freguesia da Ribeira dos Flamengos”. A quinta, que a partir daí tomou o nome do padroeiro da capela (nome que se mantém até hoje), era uma propriedade de recreio, nos arredores da então vila de Orta, onde a família se retirava durante certos períodos, sobretudo no Verão.
A quinta foi depois herdada pelos Brum, descendentes do casal fundador, provavelmente a família mais importante no Faial do século XVIII, no qual sucessivas gerações desta linhagem ocuparam também o cargo de capitão-mor da ilha.
A residência da família era numa casa “apalaçada”, das mais imponentes da vila, mesmo em frente ao Colégio dos Jesuítas. Por cima da porta principal estava um brasão esculpido em pedra com a heráldica dos Brum; a casa era recheada com mobiliário feito com madeiras do Brasil, porcelanas chinesas, objectos indianos e de outras proveniências, e até havia uma sala com um tecto pintado com os brasões dos ramos da família (Brum – Pórras – Carreiro – Teive – Frias – Silveira). Salvou-se grande parte deste recheio, que existe hoje disperso, mas a casa acabou por ser demolida, para no lugar ser construído o actual edifício dos CTT…
Voltando à Quinta de São Lourenço. Apesar de ser usada com frequência pela família, que nela costumava “abittar alguma parte de cada hum anno”, não temos notícia da casa primitiva e sabemos que a ermida foi deixada ao abandono. Em 1784 uma testemunha afirma mesmo que “nam deixam ver vestigios da ditta ermida, antes está aque-lle lugar inteiramente profanado”. Por isso mesmo, um ano depois, Jerónimo Sebastião Brum da Silveira, então filho do proprietário, inicia a sua reconstrução.
É deste período, da década de 1780, que data a construção ainda hoje existente em São Lourenço. Temos apenas informação sobre a ermida, mas é possível que a casa actual tenha sido construída na mesma fase. No entanto, o final do século XVIII e o início do XIX correspondem a grandes alterações sociais, que ditaram a decadência de espaços como este, coincidindo também com a saída dos Brum em definitivo do Faial. Desconhecemos a data em que a família deixou a posse da quinta (continuaram a ter propriedades no Faial até ao século XX), mas o certo é que entrou novamente num período de abandono.
Quando Marcelino Lima publicou pela primeira vez a imagem que aqui se reproduz, em 1922, ia acompanhada da legenda “Ruínas da ermida de S. Lourenço”, a qual atesta o seu estado. Em 1967 foi alvo de uma intervenção de recuperação, mas acabou por entrar novamente em declínio, até ao estado em que se encontra hoje.
Em boa hora a Secretaria Regional da Agricultura e Florestas, que tutela o espaço, decidiu restaurar a antiga casa de S. Lourenço, que será agora transformada em espaço para actividades culturais, servindo de apoio e complemento aos restantes equipamentos já existentes na Quinta de S. Lourenço. Esperemos que seja também uma forma de valorizar o único exemplar que nos chegou das casas de recreio do Faial setecentista.

Marcelino Lima, Anais do Município da Horta, p. 268.
Referências: Marcelino Lima, Famílias Faialenses, pp. 501-504; id., Anais do Município da Horta, pp. 267-268; Horta. Faial. Inventário do Património Imóvel dos Açores, pp. 208-209; Faial. Guia do Património Cultural, p. 125.
Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

 

cham.tss@gmail.com

 

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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