Reflexões Crónicas – Sobre as Jornadas de reflexão de Animação Turística

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Decorreu entre os passados dias 15 e 17 de Março, na Praia da Vitória, a quinta edição das Jornadas de Reflexão de Animação Turística, subordinada ao tema “Turismo Cultural nos Açores”.
Durante os dois dias de trabalhos (o terceiro foi dedicado ao programa social) sucederam-se no palco conferencistas regionais, nacionais e estrangeiros, que partilharam as suas experiências e estratégias de acção. Houve também espaço para apresentar novas ideias, para debater os temas apresentados e, na última tarde, várias oficinas para formações práticas mais específicas.
Ainda há um mês, sem saber que estaria presente neste evento, escrevi neste espaço sobre a questão dos voos low cost e da evolução que o nosso Turismo está a ter. Pouco depois, decorreu também o segundo Encontro Nacional de Estudantes Açorianos, este em Lisboa, que se centrou nas questões do empreendedorismo e no qual, como não podia deixar de ser, o Turismo teve o protagonismo.
Realmente parece que o Turismo é a nova galinha dos ovos de ouro, causando excitação e deslumbramento, sobretudo em quem está em posição de poder lucrar com isso, mesmo sem ter de pensar muito nas consequências ou no custo desse lucro.
O mérito que podemos atribuir a estas jornadas é precisamente de se centrarem no tema da Cultura, pondo a tónica no facto de que o Turismo só poderá ser sustentável (a todos os níveis) e útil (a todos e não só a uma minoria) se se apostar na qualidade e no respeito pela História e pela identidade de cada local. Falar de Turismo e falar de Património, nos tempos que correm, pelo menos no nosso contexto, é quase falar de duas faces da mesma moeda: de um lado, temos património em risco que é urgente preservar (ou salvar), muitas vezes deixando-se desaparecer ou perdendo-se por “não ter interesse” ou “não haver recursos”, do outro, temos um sector em franco crescimento, quantas vezes à custa da destruição de património, que precisa dele para poder criar riqueza de forma sustentável e para manter o nível de qualidade (para quem visita e para quem vive nos locais visitados). A História repete-se, sempre diferente, mas sempre com a mesma estrutura, e este ciclo que agora cresce desmedidamente, tal como os anteriores, vai gerar riqueza (e enriquecer muita gente), mas vai também ter consequências negativas e vai acabar um dia, deixando o bom e o mau para as gerações futuras, por isso cabe-nos a nós, hoje, pensar que modelo queremos e medir as consequências que terá para o futuro.
Outra das questões que me deixou a pensar na sequência dos debates foi o facto de este tema, que acho obviamente muito pertinente, se ter construído por oposição a outro: o do Turismo (e do Património) de Natureza. É que a Natureza nos Açores, aquela que estamos habituados a ter à nossa volta e que nos é “vendida” como sendo “natural”, é, na realidade, uma construção humana. As ilhas não eram nada do que são hoje quando foram povoadas, há quase seis séculos, e aquilo que hoje têm de natural é uma construção histórico-cultural, por isso para perceber a Natureza dos Açores é preciso perceber a sua História e a sua Cultura, ou seja, fazer Turismo de Natureza sem pelo menos uma componente cultural é, no mínimo, algo incompleto.
Fica a reflexão. 

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Veja-se: https://jrat.eventos.artazores.com/

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).