Reflexões Crónicas – Em defesa das Angústias

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Há coisa de uns seis anos, andava a fazer um levantamento em registos paroquiais no Faial e comentei com uma amiga de Lisboa que estava no momento a trabalhar com registos de óbito das Angústias. A conversa ficou por aí, até que, passados meses, não sei já a respeito de quê, referi a freguesia das Angústias e tive em reacção um ataque de riso por parte dos meus ouvintes. Fiquei então a saber que quando referi “os óbitos das Angústias” quem ouviu pensou que estava a falar “nas angústias das pessoas por causa dos óbitos”, de modo que, quando se aperceberam tratar-se do nome da freguesia, a reacção imediata foi o riso. Foi aí que me apercebi, pela primeira vez, no nome estranho da minha freguesia.

Creio que todos teremos já visto listas que por aí circulam de terras com nomes estranhos, como Venda da Gaita, Vale da Rata ou Rio Cabrão. Ou a entrevista àquele senhor desta última que, quando confrontado com a possibilidade de a aldeia mudar de nome, afirmou:

Jornalista: “O senhor nasceu aqui, é um cabrão?”
Entrevistado: “Sou sim.”
Jornalista: “Tem muito orgulho em ser um cabrão?”
Entrevistado: “Sinto o maior orgulho, sou de nascença. E os outros que não querem ser, porque vieram para cá e não querem ser cabrões, rua!”
E eu, que até já me tinha rido com esta entrevista e outras parecidas, nunca me tinha apercebido que tinha nascido numa freguesia cujo nome pode provocar semelhantes reacções, até ser confrontado com a situação relatada e, pouco depois, com um texto intitulado “As terras com os nomes mais estranhos de Portugal”, cuja lista é encabeçada precisamente por um sítio chamado Angústias, uma localidade do concelho de Paredes de Coura (mais ou menos a meio caminho entre Parada e Porreiras). Mais recentemente, há coisa de uns meses, numa apresentação na universidade, a referência às investigações sobre as Angústias foram motivo para interromper momentaneamente a sessão, para que quem a coordenava pudesse sentar-se a chorar de tanto rir, pela graça que achou ao nome.
Ultimamente, por via da campanha eleitoral, choveram de todo o país os já tradicionais “tesourinhos autárquicos”, entre eles lemas de candidatura como “Infias tem futuro”, “Com Cano no coração” ou “Manteigas para todos”. Lá pelo meio, quem se ocupou de compilar estas coisas deu com “Acreditar nas Angústias” e “Lealdade e Compromisso com as Angústias”, o primeiro dos quais com grande sucesso entre a audiência. Pois bem, se para nós é tão normal o nome da freguesia como as tantas “Marias das Angústias” que nela há, temos de ver a coisa do ponto de vista externo. Dizer “acreditar nas angústias”, em termos de significado, é o mesmo que dizer “acreditar nas dores” ou “na agonia”, e da mesma forma o outro lema é o mesmo que dizer “lealdade e compromisso com o sofrimento” ou com a tristeza ou algo parecido, o que, convenhamos, não são propriamente lemas muito bons de campanha, pelo menos vistos de fora. Estarão talvez ao nível de “Uma Chula diferente”, “Connosco uma Palhaça de futuro” ou “Sempre mais pelo Rego” (todos com possíveis segundas interpretações, que evidentemente me abstenho de explicar).
O que se tira disto tudo é percebermos que “Angústias” é, para todos os efeitos, um nome estranho, mas só nos apercebemos disso se nos conseguirmos afastar e ver com uma certa distância (quase impossível para quem lá cresceu e viveu ou vive). No caso do nome é algo inócuo, mas em muitas outras coisas é importante esta distância, até na tomada de decisões, para termos noção minimamente da imagem que transmitimos para o exterior (por exemplo, quando a Junta de Freguesia se candidatou às “Aldeias de Portugal”, muita gente achou bem para a promoção da freguesia, mas o resultado, para quem viu de fora a candidatura, foi uma péssima imagem transmitida, devido ao facto simples de esta não ser de todo uma aldeia, é até uma freguesia urbana, pelo que tal candidatura foi vista de fora como algo quase ridículo, para irritação de muitos fregueses, que não souberam lidar com as críticas e continuaram a defender que o importante era ter publicidade a todo o custo, mesmo que fosse negativa).
Em todo o caso, o importante é sermos como os cabrões: termos orgulho na nossa terra, independentemente do riso ou das angústias que ela nos provoque de vez em quando.

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