Reflexões Crónicas – Um pedido Arqueológico

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Em 1851, durante umas obras no Governo Civil, foi encontrada a pedra tumular do segundo capitão-do-donatário do Faial, Joz de Utra. Tinha sido sepultado no local três séculos antes, na ermida de Santiago, que existia junto da sua moradia. A pedra tumular, dividida em duas partes e incluindo o brasão dos Dutra, andou perdida durante meio século, até que foi novamente localizada (a servir de lajeamento no adro da Conceição!). Pelo meio perdeu-se a parte com o brasão, mas a maioria da inscrição salvou-se e pode hoje ser vista no Museu da Horta, por coincidência instalado no local onde a pedra foi encontrada.
Este é provavelmente o mais antigo achado arqueológico documentado na ilha do Faial. No entanto, numa ilha com 550 anos de presença humana, o património passível de estudo arqueológico é considerável. Desde o achado da pedra tumular de Joz Dutra, episódio cuidadosamente relatado pelo padre Manuel José de Ávila, têm sido feitos outros achados fortuitos, de maior ou menor importância, que na maioria dos casos acabaram destruídos e esquecidos.
Podemos citar, por exemplo, as ossadas encontradas na década de 1930 durante uma obra feita no local da primitiva igreja de São Francisco. É muito provável que pertencesse a essa igreja a base de um portal manuelino encontrado anos depois. Já na década de 1960, Santos Simões, ao fazer o inventário da azulejaria nos Açores, regista a existência de fragmentos de azulejos hispano-mouriscos (do século XVI) no terreno em redor da igreja dos Cedros. Mais recentemente foram encontrados vestígios do Convento de São João, demolido em 1836. Outros vestígios há à superfície, mais ou menos óbvios. No Jardim Eduardo Bulcão existem pedras talhadas provenientes de antigas construções, tal como as que se conservam no Museu da Horta, nas igrejas de São Francisco, Matriz e Castelo Branco; em várias partes da Avenida Marginal vêem-se ainda troços da antiga muralha da cidade; e existem ainda vestígios da igreja da Misericórdia nas construções que hoje ocupam o seu lugar. Além destes e de outros casos, um pouco por toda a cidade é fácil encontrarem-se no solo fragmentos de faiança ou outros materiais, como é comum num centro histórico.
Apesar de tudo isto, só nos últimos anos foi possível realizarem-se intervenções arqueológicas no Faial, sobretudo a nível subaquático e, mais recentemente, em terra, a partir do estudo do adro das Angústias.
O objectivo destas breves linhas é de evidenciar como o património arqueológico existe à nossa volta, se estivermos atentos para o ver. E de deixar um pedido aos leitores, com vista a contribuir para futuros trabalhos de investigação, que nos façam chegar informações sobre achados arqueológicos que tenham sido feitos no Faial, para que se possam compilar esses dados (independentemente de serem relatos antigos ou ocorrências recentes, e de os achados ainda existirem ou não, apenas para se ficar com a referência).
Desde já o nosso obrigado, e aconselhamos a leitura da obra que vai abaixo, para saber mais sobre a Arqueologia nos Açores.

 

cham.tss@gmail.com

 

Leia-se: José Luís Neto, Arqueologia nos Açores: uma breve história, Angra do Heroísmo, IAC, 2018.

 

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

 

DR

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