Refundar a nossa Identidade

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Mal saímos das Festas de Nossa Senhora das Angústias, padroeira da nossa ilha, e já estamos a chegar ao Espírito Santo. 

É, pois, tempo de celebrar a primavera, a dádiva, a partilha, a alegria de viver, depois de pedir ajuda para as angústias que nos oprimem e as tristezas que nos batem mas fazem parte da vida tal como a beleza e o entendimento.

Maria confortou os nossos corações; o Espírito Santo inspira o Homem pleno, cumpridor de todas as promessas de fraternidade e universalismo antevistas pelos visionários do Quinto Império.

Precisamos destes rituais e das nossas tradições para consolidarmos o nosso sentido de pertença e para refundarmos a nossa identidade. De pouco mais consta a nossa herança, tão consumida nos dias de hoje pela adversidade de conjunturas bizarras.  

Estamos todos cansados de insulamentos patológicos, de tecnologias que já não nos fazem felizes – terão feito algum dia? -, de invernos prolongados e de notícias inquietantes. Há uns anos despertar inquietações era um dever cívico saudável; hoje lembrar inquietações é um sadismo doentio, porque elas devastam, quotidianamente, as nossas vidas e a nossa confiança no amanhã. Precisamos de curar as nossas existências apinhadas de pulsões estranhas que produzimos inadvertidamente e agora nos arrasam a esperança. Precisamos de resgatar os filamentos da nossa identidade perdida. 

As festividades religiosas podem não constituir oportunidades para os não crentes, mas as Festas em honra do Divino Espírito Santo, com o seu cortejo de simbologias culturais, serão certamente um momento para, se não nos acertarmos com a nossa humanidade, pelo menos refletirmos sobre a herança que queremos deixar aos vindouros.

Luminosos pareciam ser os laços que nos uniam nestas ilhas quando se aproximavam estas celebrações. As pessoas juntavam-se para decidir os detalhes, distribuir tarefas, amassar o pão, enfeitar com flores e verduras.

No domingo passado, na procissão da padroeira, apenas o caminho em frente à Santa Casa da Misericórdia tinha um tapete, por sinal bem adornado e figurativo. Nas outras ruas já nem umas verduras dispersas… As colchas também assomam às janelas cada vez em menor número e mais timidamente. 

Estaremos tão ocupados que já não arranjamos tempo para recuperarmos o que antes nos fazia sorrir, brincar e conviver preenchendo as nossas necessidades afetivas e identificando as nossas pertenças culturais? A cultura não é feita apenas de teatro e de música, de cinema e de literatura. A cultura é um património local que não pode fenecer sob pena de nos desenraizarmos.

O investigador Paulo Alexandre Loução escreveu assim, a propósito do Espírito Santo: “o culto permanece vivo, dinâmico, alegre, paraclético e luminoso em muitas localidades. Mesmo não sendo aprovado pela UNESCO, faz parte, por direito próprio, do património imaterial da humanidade. Pudemos confirmá-lo pessoalmente.” 

E nós estamos disponíveis para sentir e compreender uma parte importante da nossa história de portugueses, da nossa condição de açorianos, do nosso imaginário, das nossas idiossincrasias?  

alziraserpasilva@gmail.com

 

  

 

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