
De fins de Dezembro de 1919 até 10 de Janeiro de 1920 grassou na vila da Madalena do Pico um perigoso surto de gripe pneumónica – sempre qualificada de “peste bubónica” pela imprensa da época – que causou 11 mortes.
Numa altura em que não havia médico naquela vila e o estado sanitário das populações era bastante precário, o governador civil Dr. António Xavier de Mesquita tomou uma série de medidas visando debelar uma situação que se tornaria trágica.
Vários ofícios existentes no arquivo do Governo Civil atestam as diligências realizadas pela autoridade superior do distrito.
Assim, e considerando que “em vista da estação invernosa o tratamento da grave doença carece ser tratado daqui, o que exige comunicações telegráficas permanentes” o governador requisitou à autoridade competente, em 27 de Dezembro, e “a bem da saúde pública” que “o serviço da estação telegráfica da Madalena seja mandado fazer permanentemente, ou pelo menos, prestado até às 23 horas, enquanto durar esta crise”.
Na mesma data e tendo em conta os “assuntos graves de saúde pública” convocou em ofício circular para uma reunião da Junta Distrital de Higiene a realizar no dia 28, os seis médicos radicados no Faial: Drs. João Pereira de Lacerda Forjaz, Manuel Francisco das Neves Júnior, Nestor A. Xavier de Mesquita, José de Freitas Pimentel, José Estêvão da Silva Azevedo e Alberto Goulart de Medeiros. Por se encontrarem ilegíveis as folhas onde certamente estariam registados os resultados desta reunião, apenas podemos presumir que o jovem Dr. Freitas Pimentel se voluntariou para seguir para a Madalena impulsionado por generoso e indeclinável dever profissional. Pela correspondência do governador civil – toda datada de 30 de Dezembro de 1919 – constatamos que Freitas Pimentel logo requisitou uma série de produtos necessários à sua acção (desinfectantes, alimentos, medicamentos, sacos de milho exótico), ao mesmo tempo que ia tratando os doentes, isolando “as casas onde se deram casos fatais de gripe”1.
Todas estas diligências mostram que, ao contrário do que já se escreveu, não corresponde inteiramente à verdade afirmar-se que “os serviços de saúde do distrito se haviam desinteressado” daquele problema. É certo que o Dr. Freitas Pimentel seguiu para a Madalena já depois de se haverem registado os primeiros casos fatais, mas as medidas por ele tomadas terão circunscrito a epidemia a pessoas de apenas duas habitações. Apresen-tando os sintomas de uma pneumonia gripal ela seria fatal para o corajoso médico que foi contagiado mortalmente ao tratar de um doente.
Após isso, logo seguiram para a Madalena, por decisão da Junta Distrital de Higiene os Drs. Lacerda Forjaz e Silva Azevedo, o enfermeiro Bento Cordeiro e o desinfestador Manuel César Espínola, “acompanhando-os o material necessário, soros, desinfectantes, roupas, etc”. e sendo aquele “pessoal competentemente preparado” pelo Dr. Neves “que pediu para ter notícias telegráficas amiudadas das ocorrências a fim de, tornando-se necessário seguir também para aquela vila”2.
Só após a tragédia da Madalena ter prostrado definitivamente o Dr. Freitas Pimentel que, “morreu no seu posto, cumprindo a sua elevada missão, (…) como um combatente heróico que tombou no vivo da batalha, na luta pela defesa da vida dos seus semelhantes”3, é que alguma opinião pública e publicada ousou questionar a sua generosa abnegação e coragem argumentando que a sua juventude não lhe dera a indispensável experiência que o teria levado a alguma imprudência no contacto com os doentes que tratou. Os jornais faialenses O Telégrafo e A Democracia relataram e comentaram a tragédia da Madalena nem sempre de forma objectiva e independente. No primeiro daqueles diários surgem mesmo artigos de opinião – nomeadamente os subscritos pelos escritores Manuel Greaves e Emerson Ferreira – que, sem abertamente culparem o Dr. José de Freitas Pimentel, não hesitam em apontar-lhe um certo voluntarismo que, em vão, lhe teria sacrificado a própria vida, e “involuntariamente arriscado a vida dos que, devido a contágio imprudente e desnecessário, a perderam”4.
Todavia, a esmagadora maioria das notícias e dos comentários dos mesmos jornais são unânimes em louvar a coragem e o humanismo deste notável florentino. Escritores e articulistas de nomeada não deixaram de enaltecer a sua determinação em “atirar-se para a fornalha ardente da Madalena” sabendo que ia sozinho defrontar-se com uma doença de carácter grave que se alastrava rapidamente e ceifava a vida de todos os que por ela eram atingidos. Logo após a sua morte os jornais faialenses – com destaque para a edição especial de A Democracia de 7 de Janeiro de 1920 – inserem muitos artigos qua não regateiam louvores à caridosa acção do Dr. Pimentel, como sejam os de Marcelino Lima, Manuel da Câmara, Serra Frazão, Manuel Joaquim Dias, Dr. António Xavier de Mesquita, Florêncio Terra, Ana Adelina da Costa Nunes, José da Roas Martins, alunos seus de vários anos da Escola Primária Superior da Horta, Osório Goulart, Delfim Braga, Dr. Machado de Serpa e Carlos Pinheiro. Também na mesma altura aquele jornal abriu uma subscrição para a construção de um jazigo em sua memória e como homenagem dos povos do Faial e Pico que de imediato mereceu largo acolhimento e que foi complementada pelos semanários República das Lajes do Pico e pelo Jornal-Radio de Santa Cruz das Flores.
Os muitos louvores e algumas críticas ao desempenho do Dr. José de Freitas Pimentel devem, em nossa opinião, situar-se também na conflitualidade política que caracterizou a Primeira República e que no distrito da Horta se encontrava bastante acesa, sendo que O Telégrafo acompanhava o partido do poderoso médico Dr. Neves, ao passo que A Democracia alinhava com os republicanos do deputado Manuel José da Silva, onde militavam alguns dos que publicamente exaltaram as qualidades daquele malogrado clínico, casos do governador Dr. António Xavier de Mesquita e do farmacêutico Carlos Pinheiro que também viria a ser chefe do distrito da Horta.
O Dr. José de Freitas Pimentel nasceu a 4 de Fevereiro de 1894 na Fazenda, concelho de Lajes das Flores e era filho de António de Freitas Pimentel, comerciante e de Maria do Rosário Pimentel, doméstica. “Invulgarmente inteligente, armado de poderosa vontade e raras faculdades de trabalho, em quatro anos completou o curso secundário e em cinco, incluindo preparatórios, o curso de medicina, em 1917. Prestou serviço militar no Continente, instalou consultório na terra natal, mas não conseguindo a nomeação de médico municipal, deslocou-se em Setembro de 1919 para a Horta a fim de leccionar na Escola Primária Superior onde fora colocado por despacho de Julho anterior. Abriu consultório no Largo da Matriz onde dava “consultas das 8 ao meio dia e das 2 às 4 da tarde”.
A sua morte prematura e inesperada em 1 de Janeiro de 1920 provocou enorme tristeza e consternação. Mártir do dever, a Câmara Municipal da Madalena deliberou, em 13 de Janeiro de 1920, “inaugurar na sua sala nobre o retrato do Dr. José de Freitas Pimentel, bem como dar o seu nome à rua da casa onde faleceu, como reconhecimento para com o distinto extinto”5. Também por despacho ministerial e a instâncias do senador Machado Serpa o estabelecimento de ensino onde era professor passou a designar-se “Escola Primária Superior Dr. Freitas Pimentel” e ainda em 1920 no cemitério da Madalena, o seu jazigo e o da sua benemérita auxiliar Maria da Glória Duarte, também vítima da terrível epidemia, ostenta esta inscrição: “Dr. José de Freitas Pimentel/ Pobre de bens, rico de talento, mártir do dever/ falecido em 1.1.1920. Maria da Glória Duarte, sua desvelada enfermeira exemplo de altruísmo vítima da sua abnegação falecida em 8.1.1920. Os seus amigos do Faial, Flores e Pico”.
O Dr. José de Freitas Pimentel era irmão do médico Dr. António de Freitas Pimentel (1901-1981) que foi presidente da Câmara Municipal da Horta e durante 20 anos destacado Governador Civil do Distrito.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
1AGCH, Lº n.º 379 (provisório) fls. 40 a 44
2O Telégrafo, 2 Janeiro 1920
3Florêncio Terra, A Democracia 7 Janeiro 1920
4Manuel Greaves, O Telégrafo 14 Janeiro 1920
5O Telégrafo, 16 Janeiro 1920












