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Retalhos da nossa história – CLXXIV – Herói italiano da aviação no porto da Horta

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Os anos 20 e 30 do século XX foram extremamente férteis em experiências que visavam aperfeiçoar a aviação comercial. Os Açores, dada a sua importância estratégica, não estiveram alheios a tais feitos, ficando inclusivamente ligados – como já aqui registámos – à primeira e histórica travessia aérea do Atlântico realizada pelo hidroavião americano NC4 pilotado pelo comandante Albert Read que amarou na Horta a 16 de maio de 1919. A ânsia de tornar mais rápidas as comunicações, diminuindo a distância entre os povos e os continentes, tornou-se então, para os ases da aviação da maioria dos países evoluídos, o maior desígnio daquela centúria. Coube também aos portugueses darem um inestimável contributo para o desenvolvimento das comunicações aéreas, com especial destaque para a primeira travessia aérea do Atlântico Sul em 1922, realizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Esse marco histórico da aviação mundial, iniciado com a saída de Lisboa a 30 de Março de 1922 e que só findou a 17 de Junho quando aqueles heroicos aviadores chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do “Santa Cruz”– o terceiro avião que tiveram de utilizar, já que os dois primeiros, “Lusitânia” e “República” se haviam perdido – teve imensa repercussão em todo o mundo e a Horta, sempre atenta e informada do que se passava no domínio das comunicações, não deixou de o assinalar condignamente. Ainda hoje se pode consultar a edição especial do jornal O Telégrafo que se juntava à “Homenagem nacional aos sábios e arrojados dominadores do ar que heroicamente ligaram pelo espaço as nações irmãs, Portugal e Brasil! Honra a Portugal! Glória à aviação! Viva o Brasil!”1 À semelhança do que acontecera um pouco por todo o País, também no Faial, segundo informa aquele periódico “a notícia da chegada ao Rio de Janeiro dos dois heroicos aviadores correu veloz, de boca em boca, por ser a conversa obrigatória do dia”. O extraordinário acontecimento foi assinalado por 21 salvas do castelo de Santa Cruz, por girândolas de foguetes lançadas pelos jornais O Telégrafo e A Democracia, pelo repicar dos sinos das igrejas, pelo incessante buzinar da Central Eléctrica e por grande cortejo cívico animado pelas filarmónicas Artista e União que entusiasticamente percorreu as ruas da cidade. Decorridos dois dias surgia aquela edição especial de O Telégrafo no qual colaboraram o aviador Adolfo Trindade – companheiro de Sacadura Cabral – e os jornalistas e escritores Florêncio Terra, Emerson Ferreira, Eurico Marques de Oliveira, José de la Cerda, J. Mota, Manuel Greaves, Marcelino Lima, Nunes da Rosa e Osório Goulart. Todos eles celebraram, na feliz expressão de Nunes da Rosa, “a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral por ares nunca dantes navegados e o comovido desvanecimento da alma nacional neste momento de glória”, desejando Marcelino Lima que depressa surgisse “outro cantor sublime a eternizar os alados navegadores numa nova apoteose humana”2.

Em 1927 voltaria a Horta a celebrar outro feito aeronáutico, agora protagonizado pelo já consagrado herói italiano coronel marquês Francesco de Pinedo. Após uma forçada permanência de vários dias no Faial, onde reparara as avarias que havia sofrido o seu hidroavião “Santa Maria II”, ele descolou da baía da Horta com destino à capital italiana concluindo assim mais uma longa viagem pelo mundo ocidental que o levara à Argentina, ao Brasil, à América Central e à América do Norte. No regresso à Europa, a passagem pelos Açores era obrigatória e, tal como sucedera ao comandante Read em 1919, também a Horta foi ponto de escala no voo do marquês Francesco de Pinedo, que contava 39 anos de idade. Tendo como companheiros de viagem o co-piloto capitão Carlo del Prete, de 29 anos, e o engenheiro mecânico Vitale Zachetti, de 43 anos, o coronel Pinedo levantou voo de Trepassey, na Terra Nova, na madrugada de 23 de maio de 1927, abastecido com combustível suficiente para chegar à Horta. Todavia, poucas horas depois encontrou denso nevoeiro e teve de enfrentar ventos contrários o que implicou uma diminuição da velocidade inicial de 160 quilómetros por hora para cerca de 90/100 e maior consumo de combustível. Sabendo que este se esgotaria antes de chegar à Horta, Pinedo optou por uma amaragem de emergência quando se encontrava a cerca de 200 quilómetros das Flores. Salvou-o o cargueiro italiano “Superga” que o rebocou para o porto faialense, com bastante dificuldade devido às péssimas condições atmosféricas, onde chegou a 30 de maio. Porque tinha algumas avarias causadas pelo mar durante o reboque, que necessitavam de urgente reparação, aquele moderno hidroavião foi içado, no dia seguinte, pelo guindaste “Titan” para o molhe da doca. Além da imprensa da época – O Telégrafo e A Democracia – que dá grande destaque ao acontecimento e ao seu famoso protagonista, também encontramos elementos precisos nos Serviços de Pilotagem do Porto da Horta. Assim, ali se registou que a “30 de Maio de 1927”, pelas “7H00 (a.m.) deu entrada no ancoradouro exterior, sob a direcção do piloto Herculano, o vapor italiano ‘Superga’ (…) que trazia a reboque “o hidroavião italiano ‘Santa Maria’, o qual depois do vapor fundear, foi rebocado para o porto artificial pela lancha a gasolina ‘Elite’, que amarou de proa à boia n.º 2” E, no dia 31 de maio, também se assinalava que às 3H00 (p.m) largou da boia n.º2 a reboque da ‘Elite’ o hidroavião ‘Santa Maria II’ e depois foi içado pelo ‘Titan’ sobre o molhe da doca”. Ali esteve em reparações, até que no mesmo livro de registo dos Serviços de Pilotagem se anotava a 9 de Junho de 1927 “às 2 h 30 (p.m.) foi retirado do molhe da doca para a água o hidroavião italiano ‘Santa Maria’, amarrou ao sul da boia n.º 2 com um ferro e um cabo fornecido pela Casa Bensaúde” e no dia 10 de Junho se registava “às 6h30 (a.m.)” a sua saída “do porto artificial para o ancoradouro exterior, levantando pouco depois e seguiu para o W”, para se escrever que “às 12h30m (p.m.), vindo do norte fez uma volta sobre a cidade e baía seguindo depois para S.E.”3.  

É evidente que a secura destes registos contrasta com as reportagens e os elogios que abundam nos jornais e que descrevem as homenagens prestadas a Pinedo, ao Governo italiano, e ao seu chefe Mussolini e, por ele, aos “fascistas” que, seguindo o Duce, pretendiam fazer da Itália uma grande potência. Devidamente reparado,  o ‘Santa Maria II’ largou da Horta no simbólico 10 de Junho. Relatam os cronistas da época que o “tempo estava magnífico, leve aragem e mar estanhado”, que muitas foram as embarcações que, transportando entidades oficiais, fotógrafos amadores e correspondentes de jornais nacionais e estrangeiros que haviam ido ao cais despedir-se do marquês de Pinedo, acompanharam a gasolina que rebocou o hidroavião até ao ancoradouro exterior de onde levantou voo. Foram “milhares de pessoas que assistiram, no molhe da doca, na muralha da cortina da cidade, nas janelas dos prédios que deitam para a baía e em todos os pontos altos, ao surpreendente espectáculo das evoluções do hidroplano”. Dirigiu-se ele para o local, a 200 quilómetros das Flores, onde amarara a 23 de maio para aí reiniciar a sua viagem de regresso a Roma. Pouco depois do meio-dia, Francesco de Pinedo, já em viagem para Ponta Delgada, “meteu-se à terra na altura da freguesia da Ribeirinha, veio sempre em direcção à Horta, passou por sobre a Lomba do Pilar e atravessou a cidade de norte a sul, deu a volta sobre a baía, baixou um pouco, e atravessando novamente a cidade de um extremo ao outro, foi passar por detrás do Monte da Guia e seguiu na direcção leste, desaparecendo para além do Pico”. Estas inéditas e “belas evoluções do hidroplano”, foram presenciadas pela “população da cidade e arredores, atraída pelo ruído dos motores do aparelho”4  e significaram a gratidão do marquês de Pinedo pelas muitas atenções e homenagens que lhe haviam proporcionado.

 

 

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