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Retalhos da nossa história – 289 – Domingos Machado Soares, notário, jornalista e músico

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Ao longo dos tempos muitas foram as figuras açorianas que se destacaram nos mais variados sectores de actividade. Várias delas alcançaram, pela sua vida e obra, dimensão nacional, enquanto outras se projectaram a nível internacional.
Nesta rubrica, que já conta alguns anos, temos procurado divulgar, juntamente com acontecimentos e instituições que marcaram a nossa vida colectiva, vários dos nossos antecessores cujas memórias são credoras de respeito e admiração, apesar de em larga maioria serem vultos da nossa história local.
Como tantas vezes tem acontecido neste espaço, o esboço biográfico de hoje respeita a um picoense que se tendo fixado ainda novo na Horta, fez dele um verdadeiro cidadão do Canal.
Trata-se de Domingos Machado Soares, nascido em São Roque do Pico a 22 de Julho de 1865, filho de Domingos Machado e de Henriqueta Luísa. Casou com D. Maria Dias de Lima em São Roque a 2 de Julho de 1892, sendo já então notário e tabelião do juízo de direito da comarca da Horta.
Ao terminar a escola primária entrou como praticante numa tipografia, onde pouco tempo depois era impressor e director do Boletim Judicial, fundado em 1879 por Manuel Maria de Melo (pai do coronel Álvaro Soares de Melo, cuja biografia foi aqui publicada na edição de 13 deste mês de Julho) e pelo Dr. Arsénio Leonel de Medeiros, guarda-mor de saúde.
Em 17 de Maio de 1885 Domingos Machado Soares instituiu, também na vila de São Roque, “O Pico” de que era redactor conjuntamente com o malogrado poeta Manuel Henrique Dias (1867-1902). A divisa inscrita no cabeçalho deste semanário dizia-o “consagrado aos interesses da ilha” e, num texto sem título que hoje seria o editorial, afirmava-se que a “ideia da criação de um periódico nesta vila que advogasse os interesses morais e materiais dela, assim como os da ilha em geral, sempre em nós predominou e hoje é posta em prática”. “O Pico vem hoje, embora sem galas de estilo nem programas pomposos, apresentar-se humilde e despretensioso na arena da imprensa, aonde, se não conquistar um nome que o distinga no vasto mundo jornalístico (…) há-de deixar, pelo menos, assinalado a sua vida com actos de verdadeiro afecto pelos interesses do povo, advogando-os como merecem, se um dia um caso fortuito obstar à sua publicação”.
Não conseguimos apurar quando e porquê deixou de publicar-se, apesar da colecção que consultámos terminar a 7 de Julho de 1890. Durou, portanto, quatro anos ininterruptos, com 208 edições, sempre sob a responsabilidade de Domingos Machado Soares seu proprietário e, desde 12 de Julho de 1885, seu único redactor, já que Manuel Henrique Dias cessou as funções que nele desempenhava para fundar e dirigir o Independente surgido em São Roque a 28 de Fevereiro de 1886.
Foi também um apreciado amador musical, tendo prestado valiosos serviços na sua terra natal e sobretudo na Horta (aqui viveu 44 anos) sendo um dos “25 rapazes da melhor sociedade faialense” que em 8 de Junho de 1896 estiveram na formação da filarmónica União Musical. Como muitos desses jovens eram na maioria desconhecedores “do que fosse uma nota de música” tornou-se necessário “primeiro que tudo convidar um mestre que leccionasse e regesse, tendo a escolha – que não podia recair em pessoa mais digna e competente – favorecido o sr. Francisco Xavier Symaria, que chegara de Lisboa com a companhia de Santos Júnior, na qualidade de maestro e que depois de muito instado, aceitou a nova situação”. Decorridos quatro meses de campanhas de angariação de fundos para a compra de instrumental, de lições e de ensaios, “a nova filarmónica percorria as ruas da cidade, tocando o passo dobrado “O soldado português”1. Como já tive ocasião de assinalar, bastaria o facto de haver sido ela que fixou o maestro Symaria nesta ilha, onde constituiu família e contribuiu decisivamente para o desenvolvimento do sentido artístico do povo faialense – “educando a mocidade no Liceu, a plebe nas filarmónicas e a nobreza nos teatros à frente da sua orquestra” – para que se esquecesse a existência da União Musical e de um dos seus mais dinâmicos elementos, precisamente Domin-gos Machado Soares. Foi este que três anos depois da fundação, com a saída do maestro Symaria para a Nova Artista Flamenguense, se empenhou na sua sobrevivência, sendo simultaneamente director, executante e regente. Em 25 de Março de 1900, “O Fayalense” informava, na primeira página, que “depois de reorganizada, sob a direcção do seu actual regente o sr. Domingos Machado Soares foi segunda-feira o primeiro dia em que apareceu a tocar publicamente a banda União Musical”, com “alguns tocadores novos de manifesta habilidade, de forma que o conjunto é dos mais agradáveis, havendo merecido o aplauso geral”.
Profissionalmente Domingos Machado Soares optou pela área jurídica, a que dedicou sempre permanente estudo, sendo durante 38 anos (1892-1930) notário e escrivão da comarca da Horta, cargos que exerceu “com elevada correcção, saber e honestidade, pelo que mereceu sempre a consideração e estima” dos seus superiores como também da população das ilhas Faial e Pico.
Vítima de uma cardiopatia, faleceu a 10 de Maio de 1936 na sua residência à rua D. Pedro IV. Tinha 70 anos, era viúvo e o seu funeral, na descrição de O Telégrafo de 11 daquele mês e ano “foi um dos mais concorridos que nesta cidade se tem observado, assistindo a ele centenares de pessoas de todas as classes sociais, o que constituiu uma espontânea manifestação, não só do pesar causado, mas ainda de gratidão e amizade que todos justamente lhe prestavam”. 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1O Globo, 25 Outubro 1897

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