Início Artigos de opinião Fernando Faria Retalhos da nossa história – 290 – Escritora Hermenegilda Teles de Lacerda

Retalhos da nossa história – 290 – Escritora Hermenegilda Teles de Lacerda

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Foi há 123 anos, precisamente a 9 de Agosto de 1895, que faleceu Hermenegilda Teles Barcelos de Lacerda, “na casa número dez da rua do Colégio” da freguesia da Matriz da Horta.
Tinha a “idade de cinquenta e quatro anos, (…) era viúva de Augusto Carlos Teles de Lacerda, e filha legítima de José Alexandre Barcelos Merens, natural da freguesia da Sé Catedral de Angra do Heroísmo e de Dona Bárbara Guilhermina Teles de Merens, natural desta freguesia Matriz, a qual não fez testamento, deixou cinco filhos e foi sepultada no cemitério público”1. Nascida a 30 de Janeiro de 1841, Hermenegilda de Lacerda revelou-se, desde muito nova, uma escritora de valor e de extrema fecundidade, tendo cultivado além da poesia romântica, “todos os géneros de ficção em prosa, a crítica literária e artística, a crónica de costumes, e escreveu ainda para os jornais numerosos artigos sobre as mais diversas matérias”2.
Neta da poetisa Francisca Cordélia de Sousa e bisneta do poeta Manuel Inácio de Sousa, (ambos perpetuados na toponímia da cidade da Horta) colaborou largamente na imprensa açoriana, continental e brasileira entre 1858 – ano em que debutou como poetisa – e 1884, “quando, havendo enviuvado, se remeteu a um recolhimento e a um silêncio literário até ao fim da vida quase totais”3. Os seus 26 anos de produção literária revelaram-se, no entanto, extremamente férteis, havendo escrito poesias, dramas, romances, discursos, folhetins e artigos que se encontram devidamente listados por Ernesto Rebelo, conceituado escritor faialense seu contemporâneo4.
No século XIX e num meio pequeno marcado por fortíssima insularidade como era o da cidade da Horta, Hermenegilda de Lacerda foi um caso raro de semiprofissionalismo literário, auferindo remuneração dos artigos que escrevia para a imprensa.
Da sua extensa obra poética, dispersa pelos jornais, não há certezas de ter sido editado, no Brasil, como estava previsto em 1884, um volume com as suas melhores composições líricas que receberia o título de Horas Crepusculares.
Editada foi a sua peça de teatro, em 3 actos, Entre Dois Deveres, representada no Teatro União Faialense em 1878. Inéditos ficaram os dramas A Verdadeira Nobreza, em 3 actos, O Apóstolo, também em 3 actos, Deus existe, ainda em 3 actos, e Heroísmo de Mulher, drama histórico em 4 actos.
Hermenegilda de Lacerda foi igualmente autora dos seguintes romances: A Mariquinhas da Gruta, cenas açorianas com factos históricos em 2 volumes (inédito); O Eremita do Faial (inédito); Uma narrativa ao ar livre, publicado no Almanaque do Fayalense em 1873 e no jornal de Campinas, em São Paulo, Brasil; Uma recordação dos 14 anos (dedicado a seu irmão Henrique de Barcelos e publicado no Almanaque do Fayalense de 1874); Da fatalidade à felicidade (Almanaque do Fayalense, 1885); A voz da natureza e Faz bem não olhes a quem (publicados em folhetins no jornal “O Fayalense”); O Vale da feiticeira na ilha do Faial (dedicado a sua prima Ana Teles Machado de Vasconcelos e publicado no periódico micaelense “A Persuasão”).
Em 25 de Março de 1877, estava ela no auge da sua carreira literária, escreveu uma carta ao Duque de Ávila felicitando-o pelos seus 70 anos e por haver sido empossado no cargo de Chefe do Governo. Diz ela: “Tenho a honra de vir juntar as minhas vozes e de meu esposo às de minha sogra e tia, para felicitar V. Ex.ª pelo belo dia do seu aniversário natalício, dia de verdadeira festa para os corações onde V. Ex.ª habita, cercado do maior afecto, veneração e reconhecimento. Os nossos, Exmo. Sr., são deste ditoso número, pelo que vimos demonstrar a V. Ex.ª nossa exuberante satisfação. Neste ensejo temos também a honra de apresentar a V. Ex.ª nossos parabéns pelo elevado lugar de Presidente de Ministros que V. Ex.ª novamente ocupa e que V. Ex.ª vai sempre engrandecer e ilustrar (…)”5. Apesar do formalismo da missiva, sabe-se que houve entre a escritora e o político uma relação de consideração e respeito, até porque o Duque de Ávila era padrinho de um cunhado de Hermenegilda de Lacerda. Com a prematura morte do marido em 1884, teve de se dedicar à educação dos seus cinco filhos – Maria Teles de Lacerda, Raquel Teles de Lacerda, Angélica Teles de Lacerda, António Teles de Lacerda e Gaspar Teles de Lacerda – o que a terá forçado ao afastamento definitivo do campo literário. Ficaram, porém, algumas das suas muitas produções para ainda hoje atestarem a invulgar cultura intelectual e o elevado talento dessa meritória escritora faialense que se chamou Hermenegilda Teles de Lacerda. 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1B.P.A.R.H. Livro 19 de Óbitos da Matriz da Horta, 1895, assento n.º 46, fls. 13-v. e 14
2Pedro da Silveira, Antologia da Poesia Açoriana do século XVIII a 1975, Ed. Sá da Costa, Lisboa, 1977, p. 141
3Idem, Ibidem
4Vd. Ernesto Rebelo, Arquivo dos Açores, volume IX, pp. 24-28
5ANTT/APAB, antiga caixa 4, n.º 13

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