
Faialense ilustre, destacou-se em várias actividades, nomeadamente na fotografia, na vitivinicultura, na política e na imprensa.
Filho de José António Laranjo e de Maria Rita Feliciano Laranjo, nasceu a 7 de Novembro de 1857 na freguesia da Conceição, sendo baptizado na respectiva paroquial a 2 4 de Julho do ano seguinte.
Fez estudos liceais a partir de 1870 e, completados estes, dedicou-se à fotografia, uma arte ainda incipiente e com poucos praticantes nas ilhas açorianas. Em 1876, João Augusto Laranjo, então um jovem de 19 anos, já era fotógrafo que produzia retratos esmaltados ou sem esmalte, em lâmina de aço, bem como reproduções de grupo e paisagens. Esses trabalhos, admirados por Domingos Mendes de Faria, director da “Gazeta Judicial” e ele também amante da fotografia, seriam “muito perfeitos”, tendo sido “devidamente apreciados, não só pelos seus patrícios, como também por grande número de estrangeiros que têm visitado o seu atelier fotográfico”1. Localizava-se este estúdio na rua de São João nº 45 e ainda existia em 1902, ano em que, definitivamente desapareceu da imprensa local o anúncio em que regularmente publicitava os seus “retratos em grande variedade de processos, sendo trabalho garantido” e a grande redução nos preços de todos eles.
Entretanto, e em plena monarquia, aderira aos princípios republicanos, sendo um dos fundadores, em 1879, do centro republicano da Horta e, a fazer fé no testemunho de Osório Goulart, foi conjuntamente com José Augusto de Sequeira, um dos responsáveis iniciais do semanário “O Democrata” que abertamente defendia aqueles ideais. Curiosamente este jornal, que surgiu a 4 de Janeiro de 1885 e terminou em Novembro de 1887, esteve instalado no mesmo local do “Atelier Photographico” de João Augusto Laranjo, ou seja na rua de São João nº 45.
Aliás, o jornalismo seria outra das suas grandes paixões. Além de “O Democrata”, fundou e dirigiu “A Discussão”, outro semanário republicano surgido em 15 de Abril de 1894. Nessa altura ainda era assumidamente republicano, como o demonstra o facto de ser um dos subscritores de um comunicado dirigido aos seus correligionários do distrito da Horta, onde a propósito das eleições de deputados realizadas a 29 desse mês, eles se confessam “cônscios de que nada podem fazer contra os manejos das facções monárquicas (ou seja contra os candidatos dos partidos do poder, o regenerador e o progressista) que, dispondo na actualidade dos dinheiros públicos e das graças régias, usam uns e outras na aliciação de eleitores”, motivo por que “os republicanos da Horta resolveram abster-se por completo da luta”2. Além de João Augusto Laranjo, assinam aquela informação António Gonçalves Viana da Silva, Caetano Moniz de Vasconcelos, José Augusto de Sequeira, Vicente Silveira Bettencourt, Manuel Francisco Ribeiro e Domingos Homem Garcia.
Já em pleno século XX, João Augusto Laranjo continua a dedicar-se com esmero e competência às lides jornalísticas, fazendo incidir os seus trabalhos mais em temas económicos, históricos e sociais do que em pugnas políticas e partidárias. Estamos mesmo convictos de que após a queda da monarquia em 1910 – que jamais defendeu! – cedo ficou desiludido com o regime republicano que tanto desejara. É ele próprio que o diz, num dos muitos artigos que publicou quase no fim da vida e onde historia o que foi o rotativismo, o governo de João Franco, o crescimento do partido republicano e do poder da maçonaria o que levou a que a política do país assumisse um carácter revolucionário até se praticar “o nefando crime do assassínio do monarca e do príncipe herdeiro em plena rua!” O interregno de dois anos (1908-1910) não impediu a proclamação da República, “que ficou sendo uma realidade, mas se a República é um governo de ordem com cidadãos, uma República sem republicanos é a anarquia”. E, para mais acentuar a sua discordância, vai questionando: “o que foi a nossa governança e a intolerância dos primeiros que açambarcaram o poder, os seus processos de administração? O que foram os primeiros governos da República no nosso país, a sua moralidade, o seu espírito de justiça, todos nós o sentimos, todos nós nos lembramos muito bem; e ao fim de quatro longos anos acabaram pela aventura de lançar o país, esgotado e sem recursos, nos horrores de uma guerra que da nossa parte poderíamos ter evitado”3.
Encontramos esta enorme frustração em um dos quinze artigos que, sob o título genérico de Vida Económica do Distrito da Horta publicados desde 18 de Abril até 10 de Outubro de 1931 no jovem diário faialense “Correio da Horta”. Foi este o último dos muitos e apreciáveis trabalhos que no decurso da sua vida, divulgou na imprensa das ilhas e do continente.
Aliás, seria em 1927 no “número especial sobre Agricultura, na festiva comemoração do vigésimo quinto aniversário da revista “Brotéria”, editada em Caminha, que João Augusto Laranjo publicaria uma verdadeira monografia da vitivinicultura intitulada “O PICO” e que ainda hoje se lê com prazer e proveito. Grande vinhateiro, porque detentor de extensas propriedades no Pocinho, nos Toledos e no Calhau, ele deixou-nos, na abalizada opinião de Tomaz Duarte, “um inestimável testemunho, em que abordou, com mestria, praticamente todas as facetas da complicada e exigente vitivinicultura, desde a caracterização física e geológica do solo até aos atributos e subtilezas do decantado néctar que do mesmo se extraía”4.
João Augusto Laranjo foi pai de José António Laranjo, um dos fundadores do Fayal Sport Club, nascido do seu casamento com Maria Etelvina Garcia, realizado na igreja da Conceição a 30 de Julho de 1888.
Faleceu no dia 31 de janeiro de 1932 vitimado por uma “endocardite crónica”, na sua casa da rua Miguel da Silveira, freguesia da Matriz da cidade da Horta5.
1 O Recreio, 20 Agosto 1882
2 O Açoriano, 13 Maio 1894
3 Correio da Horta, 27 Agosto 1931
4 Tomaz Duarte Jr., O Vinho do Pico, 2001, p.266
5 Livro de Óbitos da Conservatória do Registo Civil da Horta de 1932
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)













