No primeiro pavimento do cemitério do Carmo, na cidade da Horta, existe, desde 1940, o “Jazigo do Patriarca das Índias D. José da Costa Nunes e Família” onde repousam os restos mortais dos pais e da irmã daquele ilustre purpurado, nascido e baptizado na freguesia da Candelária da ilha do Pico a 15 de Março de 1880 e falecido em Roma em 29 de Novembro de 1976.
O cardeal Costa Nunes – indubitavelmente um grande português e um dos mais prestigiados açorianos – está perpetuado em alguns locais da cidade da Horta, em especial na igreja Matriz do Santíssimo Salvador. Quem entra neste majestoso templo vê uma lápide, colocada na parede do transepto do lado do Evangelho, com esta inscrição: “Pelo Exmo. e Revmo. Sr. Bispo de Angra / D. Manuel Damasceno da Costa/Foi nesta Matriz sagrado Bispo de Macau/O Exmo. e Revmo. Sr./D. José da Costa Nunes/A 20 – 11 – 1921”. Vivendo-se em plena I República que, como se sabe, adoptara uma política anti-religiosa que mutilou gravemente a obra missionária portuguesa, a sagração episcopal do distinto picoense na Matriz da Horta – ela que poderia ter sido feita em Macau onde fora ordenado sacerdote em 1903 e eleito bispo em 1920 e onde, desde então, desenvolvia toda a sua fecunda actividade pastoral – significa que já estavam ultrapassados os tempos persecutórios e que nas ilhas açorianas se vivia em franca “confraternização dos poderes religiosos e civis”. A ordenação episcopal de D. José da Costa Nunes foi, como previamente sublinhou a imprensa “um acontecimento de importância social, religiosa e histórica a que a hospitalidade cívica e o sentimento religioso da terra faialense”, soube “imprimir o mais solene relevo”1.
À imponente e invulgar cerimónia religiosa seguiram-se, nesse dia e nos subsequentes, diversas manifestações sociais – em especial a recepção oferecida pelo novo bispo no salão nobre da Câmara Municipal da Horta – que serviram para estreitar ainda mais os laços de estima, veneração e respeito da sociedade faialense para com D. José da Costa Nunes. Antes da cerimónia da ordenação episcopal, já a Horta tributara merecidas homenagens àquele que viria a ser, pela sua extraordinária obra missionária e pastoral, o maior filho da ilha do Pico, um grande Bispo e um grande Português. Assim, em sessão ordinária de 8 de Setembro de 1921, a comissão executiva da Câmara Municipal presidida por Jaime Maria Soares de Melo deliberara, numa “demonstração de apreço ao distinto açoriano Exmo. Sr. D. José da Costa Nunes que na cidade de Macau, onde reside há muitos anos tem prestado relevantes serviços à pátria”, dar “o nome de ‘Largo Bispo de Macau’ ao largo acima da Ermida do Pilar” [hoje, ‘Largo Cardeal Costa Nunes’]. Também o jornal “O Telégrafo” dedicara toda a sua edição de 19 de Novembro de 1921 em “Homenagem ao Bispo de Macau”, inserindo artigos de destacadas personalidades destas duas ilhas gémeas, destacando-se Nunes da Rosa, Osório Goulart, Marcelino Lima, Aragão e Brito, Visconde de Leite Perry e Emerson Ferreira. Todos eles, em naturais e compreensíveis panegíricos, realçavam o “sacerdote liberal e austero”, o “consagrado orador” e o “heróico missionário” e, ao enfatizarem a cerimónia da sagração episcopal, colocavam a par dela, como assinalou Marcelino Lima, uma outra “não menos dedicada e envaidecida: é a que espontaneamente preita toda a população do Faial e Pico ao seu insigne conterrâneo, o novo prelado – insigne pelas suas virtudes, pela sua ilustração”.
Decorrida quase uma década após a sua ordenação episcopal, D. José da Costa Nunes regressou à terra natal. E foi durante essa estadia na Candelária do Pico que aceitou o convite para vir à Horta sagrar a igreja Matriz que, tendo ficado bastante danificada pelo terramoto de 1926, fora devidamente reparada e embelezada. Uma lápide, colocada na parede do transepto, à direita do observador e em simetria com a que recorda a sua ordenação episcopal, tem estes dizeres: “Pelo Exmo. e Revmo. Sr. Bispo de Macau/D. José da Costa Nunes / Foi sagrada/Esta Matriz do Santíssimo Salvador/Na Festa do Corpo de Deus/A 4 – 6 -1931”. Os jornais faialenses, “O Telégrafo” e “Correio da Horta”, consideram, em pormenorizadas e abundantes notícias, que a data de 4 de Junho de 1931 – quinta-feira do Corpo de Deus – ficou na história faialense gravada a letras de ouro, tendo participado naquelas cerimónias religiosas milhares de fiéis e, segundo se pode ler no Auto de Sagração, 20 padres, sendo 13 do Faial e 7 do Pico, incluindo o secretário do venerando Bispo sagrante e que, anos depois, seria o primeiro Bispo de Timor, D. Jaime Garcia Goulart.
Intimamente ligado à cidade da Horta, D. José da Costa Nunes – que foi, sucessivamente Bispo de Macau (1920-1940), Arcebispo de Goa e Damão, Primaz do Oriente e Patriarca das Índias Orientais (1940-1953), Vice-Camarlengo da Santa Sé (1953) e Cardeal (1962, no pontificado de João XXIII) – morreu em Roma a 29 de Novembro de 1976. Com 96 anos de idade terminava a sua caminhada terrena, uma vida dedicada ao serviço da Igreja, que o mesmo é dizer, ao serviço de Deus e dos irmãos. Foi uma longa e preciosa existência que pode ser avaliada e apreciada nos sete volumes de “Textos do Cardeal Costa Nunes” editados pela Fundação Macau em meritório trabalho de recolha e coordenação do Padre Tomás Bettencourt Cardoso, ou lendo alguns dos valiosos estudos que relatam o que foi a sua vida e obra, como sejam “Cardeal D. José da Costa Nunes: In Memoriam no Centenário do Nascimento 1880-1980”, Braga, Editorial A.O. 1980, ou “Evangelização a partir dos Açores”, Separata da Revista Atlântida, 1985, pp. 47-120, da autoria de Tomás da Rosa.

No seu impressionante “Testamento Espiritual”, escrito em Roma a 16 de Março de 1970 já com 90 anos feitos, recorda a sua longa peregrinação na Terra, as Dioceses do Oriente de que foi bispo, confessa a sua paixão pelas “Missões, pelas obras de tantos Operários da Vinha” e manifesta especial carinho pela Casa de S. José, que fundou na sua terra natal, perpetuando assim “a memória de meus Saudosos Pais, que tantos exemplos de virtude deram em toda a sua vida”; porque não tinha “outros bens a deixar” legou esta instituição à gente da terra onde nasceu, “esperando que todos a amparem como obra de grande utilidade sobretudo para as gerações novas”; deseja, no fim desse edificante documento, “ser sepultado na Igreja de Santo António, em Roma, se falecer na Itália; no cemitério da Horta, junto de meus Pais, se morrer em Portugal”2.
Esta última vontade, a verificar-se, havia sido por ele preparada já em 1940, quando a 13 de Fevereiro desse ano, procedera à trasladação dos “restos mortais da sua estremecida mãe, da sepultura para o jazigo daquela ilustre família”, o qual foi também por ele benzido nessa ocasião3.
Decorridos 28 anos, precisamente a 7 de Maio de 1968, aquele mesmo jazigo recebeu os restos mortais de sua irmã Francisca Felizarda da Costa Nunes que havia falecido em Roma no dia 26 de Fevereiro do mesmo ano. Esse funeral, que constituiu acontecimento invulgar na cidade da Horta, está ainda na memória de muitos que nele participaram e ficou pormenorizadamente registado no diário “O Telégrafo que, a certa altura, escreve: (…) ”O vetusto templo da Matriz que em Novembro de 1921 vestiu as suas mais garridas galas para a sagração do Bispo de Macau, senhor D. José da Costa Nunes, conquanto repleto de tudo o que a Horta tem de mais selecto, apresentava ontem um aspecto solene e grave, associando-se assim ao pesar que agora, em cerimónia tão diferente, ensombrava o coração do ilustre purpurado. No cruzeiro, ladeado por tocheiros, o ataúde da irmã do senhor D. José da Costa Nunes, vindo de Roma, tinha a homenagem de lindas flores da Terra Açoriana. A missa foi celebrada pelo senhor Patriarca D. José Vieira Alvernaz, que presidiu aos responsos. Na capela-mor viam-se o cardeal Costa Nunes e o Bispo D. Jaime, o Chefe do Distrito, o Presidente da Câmara e ainda a maioria do clero do Faial e do Pico. Terminadas as cerimónias religiosas a urna foi colocada numa viatura dos Bombeiros Voluntários cujos elementos, a pé, a ladeavam. Na frente seguia o Patriarca das Índias e, logo atrás, no automóvel do Governo Civil, o senhor cardeal Costa Nunes, o senhor D. Jaime Garcia Goulart e o Chefe do Distrito. Um cortejo de automóveis, certamente o mais longo até hoje visto nesta cidade, acompanhou a urna até ao cemitério, onde ficou depositada em jazigo de família (…) ”.
Estes acontecimentos, ocorridos em 1940 e 1968, conjugados com as disposições testamentárias do próprio cardeal Costa Nunes, eram claro indício de que, caso ele falecesse em Portugal, seria sepultado no cemitério da Horta junto de seus Pais. Como o óbito aconteceu em Roma acabou sepultado, após cerimónias exequiais na Basílica de S. Pedro, na igreja nacional de Santo António dos Portugueses, em túmulo próprio onde distintamente se vêem as suas armas cardinalícias, a sua efígie e a inscrição “Cardeal / Dom José da Costa Nunes / 1880-1976”. Tudo assim se manteve inalterável até que, passados anos, os seus restos mortais foram trasladados para o Pico em 27 de Junho de 1997 e jazem na paroquial da Candelária, em local condigno próximo da Pia Baptismal, aí, onde em 15 de Março de 1880, se tornou filho de Deus e membro da Santa Igreja de Cristo de que foi servidor, durante muitos anos, em benemérita e exaltada acção apostólica e missionária.
Não discutimos os méritos desta trasladação, que tem lógica e é enaltecedora, especialmente para o povo da Candelária, no meio do qual sentia “orgulho de ter nascido”.
Quem tomou a decisão dessa transferência, que aparentemente não programou, nem desejou no seu Testamento? As notícias são contraditórias: uma, diz que a trasladação se “cumpre a pedido expresso de outro prelado açoriano, também natural da Candelária, D. Jaime Garcia Goulart, falecido recentemente em Ponta Delgada”4; outra explicita que a “Presidência do Governo Regional dos Açores recebeu das competentes entidades italianas a autorização para a trasladação dos restos mortais de Sua Eminência o Cardeal Costa Nunes (…) até agora depositados, em túmulo na igreja de Santo António dos Portugueses, naquela cidade, dando-se, assim, cumprimento a um desejo manifestado pelo Cardeal, para que os seus restos mortais viessem para a freguesia da Candelária, na ilha do Pico (…) ”5. As dúvidas são legítimas, enquanto não for tornado público, caso exista, a alteração feita ao seu Testamento Espiritual.
Até lá, pensamos que a sua vontade era ter ficado em Roma onde faleceu. E, pensamos também, que em sinal de respeito e de homenagem ao eminente picoense, grande vulto açoriano e português ilustre, alguém ou alguma entidade devia acorrer à sua capela-jazigo do cemitério da Horta que se encontra abandonado e em lastimável degradação!
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)











