Retalhos da nossa história – CXCII – Pintor-dourador Nunes Sobrinho

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Nascido e formado em terras brasileiras, José Inácio Nunes Sobrinho era ainda jovem quando escolheu vir residir na ilha de onde eram oriundos os seus progenitores.

Natural da cidade de Campinas, estado de São Paulo no Brasil, a 8 de Dezembro de 1854, era filho de Mateus José da Rosa e de Ana do Rosário do Coração de Jesus que da freguesia faialense da Ribeirinha haviam emigrado para aquele grande país sul-americano. 

No Rio de Janeiro, cursou o “Liceu de Artes e Ofícios” e a “Academia de Belas Artes”, e frequentou os ateliers de pintura e escultura dos irmãos Bernardelli (Rodolfo e Henrique) e de François d’ Esteill. Artista hábil e consciencioso, logo “deu as mais brilhantes provas em trabalhos de pintura e douramento de que foi encarregado em diversas igrejas, como as do Santíssimo Sacramento e Lapa dos Mercadores”, executando também algumas tarefas de “decoração e paisagem em casas e palacetes particulares”1. 

Em 1875 veio para o Faial, onde, três anos depois – precisamente a 17 de Novembro de 1878 – constituíu família, consorciando-se na paroquial de Castelo Branco com Madalena Augusta Nunes. Após uma breve permanência na Ribeirinha, fixou residência naquela freguesia e dali foi espalhando o seu talento e o seu trabalho, como pintor e decorador de inquestionável mérito. 

Ao percorrermos as páginas dos jornais faialenses do último quartel de Oitocentos e do primeiro decénio do século XX encontramos inúmeras notícias que nos dão ideia do muito trabalho que desenvolveu em quase todas as ilhas dos Açores, especialmente na pintura e  no douramento de altares, de púlpitos e de imagens nas mais diversas igrejas. 

No próprio ano da sua chegada ao Faial (1875), é o semanário “O Fayalense” a registar, após uma visita à Ermida da Boa Viagem que então existia na cidade da Horta, o muito agrado pelos melhoramentos que ali se faziam, especificando que “os trabalhos de moldura, pintura e douramento” haviam sido confiados “aos artistas José Inácio Nunes Sobrinho, natural do Brasil, e Manuel Brum da Rosa, natural do Pico, que os têm desempenhado com perfeição, revelando neles bastante habilidade artística”2. 

Nos anos subsequentes são inúmeras as notícias da sua incessante actividade que, incidindo sobretudo nas igrejas do Faial (v.g. Conceição, S. Francisco, Feteira, Castelo Branco, Praia do Almoxarife, Pedro Miguel, Ribeirinha) e do Pico (v.g. Criação Velha, Silveira, S. Mateus, Santa Margarida, S. João, S. Caetano, Santo António) se estendiam a outras ilhas açorianas. Apenas três exemplos retirados de O Telégrafo:

– a 2 de Dezembro de 1896, regressou de Angra, “onde esteve trabalhando com grande aceitação o hábil artista, escultor e pintor sr. José Inácio Nunes Sobrinho”; 

 – a 13 de Outubro de 1897 veio “de Ponta Delgada, onde [tinha] estado procedendo à pintura de várias igrejas”;

– e a 30 de Outubro de 1899 chegou das Flores, após pintar e dourar alguns templos. 

Já então a figura artística de Nunes Sobrinho havia alcançado lugar de realce. Dedicando-se sobretudo – e naturalmente – à decoração e ao restauro dos templos sagrados, não abandonou, porém, outros géneros de pintura, a ele se devendo, por exemplo, a figuração das armas reais do escaler da Alfândega especialmente preparado para a visita de D. Carlos e D. Amélia em 1901 ou pinturas de paisagens, oleografias e, inclusivamente, um “excelente cliché, intitulado ‘arreando o barco da Areia Larga, ilha do Pico”3.

Além da valia dos seus trabalhos, ficaram também os testemunhos de alguns contemporâneos que enalteceram os seus inegáveis méritos, tendo merecido referência especial no famoso Álbum Açoriano, obra monumental dirigida por António Baptista e Raposo de Oliveira, num artigo da autoria de Euclides Costa.

Também o vigário de Castelo Branco, padre António Augusto da Silveira, deixou-nos um testemunho escrito, intitulado “Preito ao Mérito” que é uma extensa e pública homenagem ao seu “comparoquiano e especial amigo” José Inácio Nunes Sobrinho, “pela maneira primorosa com que executou a restauração, douramento e pintura dos retábulos da capela-mor (em 1903) e altares laterais (1904) da igreja paroquial a meu cargo”. Nunes Sobrinho, acrescentava aquele pároco, “não é um simples artífice que se limite à cópia de qualquer modelo com defeitos e deformidades de plano de execução; mas sim, é um verdadeiro artista que sabe inventar e modificar, corrigir, restringir ou ampliar, para atingir o belo do seu ideal e cuja estética compreende”. Na verdade, “se da sua paleta e pincel saem as mais bem combinadas cores, os mais belos tons, os mais suaves cambiantes, do seu lápis, saem, com indizível facilidade, os mais nítidos e compreensíveis riscos e esboços”. Este artista de esmerada educação estética complementava ainda a sua competência com grande dedicação e extrema generosidade. É isso que escreve aquele vigário, ao revelar que “desde há vinte anos, sempre me tem coadjuvado, com os seus conselhos e acertados planos, nos trabalhos e modificações que tenho empreendido no frontispício e torre da igreja a meu cargo, bem como na reparação e estofamento de várias imagens, pintura de cimalhas e vários nichos e quadros, despendendo muitos dias de trabalho e os respectivos materiais, sem nunca exigir nem querer aceitar remuneração alguma”4. 

Esta magnânima disponibilidade de Nunes Sobrinho para com a terra que adoptara como sua, ficou bem patenteada aquando do seu falecimento em 23 de Novembro de 1910, tinha ele apenas 56 anos de idade. O funeral e as manifestações de pesar – que a família publicamente agradeceu a 23 de Abril de 1911 – mostram o apreço que lhe dispensavam, não só “o médico que gratuitamente o tratou”[ Dr. Neves] e vários sacerdotes que participaram nas cerimónias exequiais, mas também muitos amigos e diversos artistas, com especial destaque para uma delegação Associação de Socorros Mútuos Artista Fayalense  de que o extinto era sócio, e das “dignas irmandades da Coroa Velha e Coroa Nova da freguesia de Castelo Branco que espontaneamente e como manifestação de muita simpatia e estima pelo extinto se incorporaram no cortejo fúnebre”5.

Do seu casamento com Madalena Augusta Nunes teve 12 filhos: José (nascido em 1880), Adelina (1883), Maria (1885), Álvaro (1887), Florentina (1889), Eduino (1891), Aníbal (1893), Alice (1895), Aníbal (2.º de nome, 1897), Otília (1900), Maria (2.ª de nome, 1903) e Emelina (1905). Sabemos que, pelo menos dois deles, seguiram a carreira do pai, destacando-se como pintores-douradores: o primogénito José Augusto Nunes, triunfou nos Estados Unidos para onde emigrou ainda jovem e Eduino Nunes (aquele que muitos conheceram por sr. “Eduino da Quinta”) que aprendeu na “escola paterna”, que sempre viveu em Castelo Branco e que espalhou a sua arte – na companhia de seus filhos e de outros artistas que ajudou a formar – por todas as ilhas dos Açores, especialmente pelas que então formavam o distrito da Horta. 

 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 O Telégrafo, 9 Dezembro 1909

2 O Fayalense, 12 Setembro 1875

3 O Telégrafo, 1 Março 1904

4 Idem, 23 Junho 1904

5Idem, 5 Maio 1911