Retalhos da nossa história – CCLXX – Os deputados Melo e Simas eleitos pelo distrito da Horta (2)

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Militar, astrónomo e político Manuel Soares de Melo e Simas foi – tal como já o havia sido seu pai, o Dr. Manuel Maria de Melo e Simas – deputado às Cortes, em 1906 e, já na República, senador pelo círculo da Horta eleito em 1915 pelo Partido Democrático. Membro e dirigente da Federação Nacional Republicana desde 1919 viria a ser ministro da Instrução Pública em 1923 no Governo de Ginestal Machado.

Figura destacada na vida pública portuguesa, que se distinguiu “como homem duma grande modéstia, carácter duma grande probidade e cientista de elevada reputação”1, Manuel Soares de Melo e Simas é natural da Horta, ao contrário do que erradamente se tem escrito em obras de referência2. O registo do seu baptismo é, a este propósito, esclarecedor, como se pode verificar – no respectivo Livro da Paróquia da Matriz nº16, no termo exarado sob o nº 88, a folhas 41 v. – que “aos seis dias do mês de Novembro do ano de mil oitocentos e setenta nesta igreja paroquial Matriz do Santíssimo Salvador, concelho da Horta e diocese de Angra, o presbítero Tomás César da Silva (…) impôs solenemente os Santos Óleos a um indivíduo do sexo masculino a quem deu o nome de Manuel, baptizado em casa por se achar em perigo de vida (…) e que nasceu nesta freguesia às cinco horas da manhã do dia dez do mês de Julho do corrente ano, filho legítimo primeiro de nome do doutor Manuel Maria de Melo e Simas3 administrador deste Concelho, e advogado, e de Dona Luísa Adelaide Soares de Simas, sem profissão, naturais da Matriz do Concelho de São Roque do Pico, onde foram recebidos e paroquianos desta Matriz do Santíssimo Salvador, moradores na rua de São Francisco (…)”.
Matriculou-se pela primeira vez no Liceu da Horta em 1881 e de cá partiu para Coimbra a prosseguir estudos. Concluiu os preparatórios na respectiva Universidade, frequentou depois a Escola Militar, em Lisboa, (Arma de Artilharia) e, em seguida, a Escola Politécnica, onde tirou a cadeira de Astronomia. Tendo ingressado no Exército em 27 de Novembro de 1889 – tinha, portanto, 19 anos – foi promovido ao posto de 2.º tenente em 1893, 1.º tenente em 1895, 2.º capitão em 1907, 1º capitão em 1908, capitão em 1911, major em 1917, tenente-coronel em 1918 e coronel em 1922. Fez parte do Corpo Expedicionário Português, tendo combatido na I Grande Guerra Mundial. Pela sua actuação conquistou, além da medalha das campanhas de França, a Medalha da Vitória e a Comenda da Ordem Inglesa do British Empire. Ao longo da vida recebeu ainda outras condecorações, designadamente o grande oficialato da Ordem de Avis, a comenda da Ordem de Cristo, a Legião de Honra e a Cruz de São Jorge da Inglaterra.
Era coronel graduado de artilharia quando passou à reserva em 27 de Fevereiro de 19294.

Concomitantemente com a carreira militar, cedo se dedicou à sua grande paixão pela ciência. Um testemunho disso está na carta, por ele dirigida ao Marquês de Ávila e de Bolama a 30 de Abril de 1910, “unicamente com o fim de não incorrer novamente na censura de V. Ex.ª”, e na qual tem “a honra de lhe comunicar que na próxima 3.ª feira, pelas 8.30, n.[noite], farei uma modestíssima conferência sobre o Cometa Halley e suas influências sobre a Terra, na Sociedade de Geografia, promovida pela Academia de Ciências de Portugal. E para não ficar sem dever favor, pedia a V. Ex.ª o obséquio de obter que a respectiva notícia fosse inserida no jornal do nosso partido – As Novidades – de 2.ª feira próxima (…)”5. Por aqui se vê que o então capitão Melo e Simas era já um conceituado cientista e que, não obstante a modéstia que lhe era atribuída e que seria certamente genuína, não deixava de se “empenhar” para que a dita conferência tivesse a devida e antecipada divulgação. Conjugando a vida militar com a sua ascensional carreira científica, passou a ser, a partir de 1911, meteorologista no Observatório Astronómico de Lisboa, de que viria a ser sub-director em 1931. Dedicou-se preferencialmente “à observação de cometas e à determinação dos elementos das suas órbitas, e em seguida à observação das ocultações e de estrelas fundamentais”. Também a teoria da relatividade de Albert Einstein lhe mereceu porfiados estudos, sendo um destacado vulgarizador dos seus princípios essenciais, quer publicando trabalhos nas mais conceituadas revistas científicas portuguesas e estrangeiras, quer proferindo múltiplas conferências, na Academia das Ciências, de que foi eleito sócio efectivo em 1931, ou na Universidade Livre de Lisboa, de que foi docente em 1912. O membro da Academia de Ciências, Pedro José da Cunha, em 11 de Julho de 1931, salientou, em Melo e Simas “a sua notória competência e a sua conhecida actividade científica” que “lhe têm aberto as portas de várias sociedades astronómicas, sendo até sócio fundador da Sociedade Astronómica de França”6.
Como representante eleito pelo círculo da Horta, foi meteórica a sua passagem pela Câmara de Deputados em 1906. No acto eleitoral de Abril desse ano destinado a “legitimar” o governo de Hintze Ribeiro, os regeneradores disputavam as maiorias e os progressistas as minorias. Assim, no círculo da Horta – e de acordo com os entendimentos entre os chefes dos respectivos partidos, os governamentais indicavam dois candidatos (os regeneradores Eduardo Schwalbach Luci e D. Alberto Bramão) ao passo que os progressistas apresentavam também outro continental, o major António José Garcia Guerreiro.

Foi, porém, aqui que, “acima de todos esses candidatos, indicados pelos chefes supremos da política [Hintze Ribeiro e José Luciano de Castro] e não escolhidos por nós” que se impôs “à nossa razão e ao nosso espírito, tanto pelo talento como pelo coração, o tenente Melo e Simas – que é nosso patrício, nosso amigo, nosso irmão”. A sua candidatura pela minoria progressista e à revelia das orientações dos dirigentes nacionais e locais daquele partido era, segundo o diário “O Fayalense” – agora na 3.ª série e dirigido pelo vigoroso e competente António Baptista – “genuinamente local, pela sua origem, pelos seus intuitos e pelo nome que apresenta”. A verdade é que feitas as eleições, o candidato Melo e Simas, apresentado pelos “faialenses e picoenses dignos” que antepunha “aos interesses pessoais dependentes da política, o interesse geral, o interesse sagrado destes formosos torrões que, como nós, ele muito ama”7, foi eleito com 2.210 votos, enquanto o candidato progressista saía derrotado, ficando apenas pelos 1.521 votos.
Estas eleições de Abril de 1906 foram o último fôlego do rotativismo pois a maioria regeneradora obtida por Hintze Ribeiro teve curtíssima duração. Logo em Maio se viu forçado a pedir a demissão, tendo o regenerador-liberal João Franco, com o indispensável assentimento do rei, formado um governo franquista com o apoio dos progressistas. Deu-se, portanto, a inevitável dissolução da Câmara dos Deputados que esteve apenas cinco dias em funções. A instabilidade política então vivida “explica” esta meteórica legislatura parlamentar – que decorreu de 1 a 5 de Junho de 1906 – e na qual participou o deputado Manuel Soares de Melo e Simas e certamente será a sua brevidade que explica o facto de este distinto faialense não figurar no exaustivo “Dicionário Biográfico Parlamentar – 1834 a 1910”, uma obra notável coordenada por Maria Filomena Mónica.
Faleceu na freguesia da Ajuda, em Lisboa, no dia 10 de Agosto de 1934, aos 64 anos de idade. Deixou viúva D. Laura Augusta Sarmento de Morais, com quem casara em 4 de Novembro de 1895, tendo nascido desse consórcio D. Luísa Sarmento de Morais de Melo e Simas e D. Maria Sarmento de Morais de Melo e Simas. 
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
1 Correio da Horta, 28 Setembro 1834
2A “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, vol. XXIX, p.34 ao dá-lo como ”nascido em Ponta Delgada”, não só errou como levou ao engano conceituados historiadores, casos de Oliveira Marques ou de J. G. Reis Leite. Marcelino Lima, na p. 573 dos “Anais do Município da Horta”, ao corrigir Gervásio Lima que escreveu ser Melo e Simas natural da Graciosa, cometeu também um lapso ao datar o seu nascimento em 10 de Julho de 1869.
3 Está perpetuado na toponímia da Horta, por decisão da Câmara Municipal de 16 de Janeiro de 1902, só efectivada em 5 de Janeiro de 1905 (Vd. Lv. de Vereações da CMH, n.º 52, fls. 12-v. e ss., na B.P.A.R.H.
4 Arquivo Histórico Militar, Cx.2268, 3.ª Divisão, 7.ª secção, Proc.º individual
5 Carta de 30-4-1910, antiga Cx.10, nº 35 ANTT/APAB
6 Correio da Horta, 1931, Novembro 19 (143) p.1
7 O Fayalense, 26 Abril 1906

 

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