Retalhos da nossa história – CCXXX – Professor Ramiro de Sousa Pereira

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Foram as vicissitudes da II Guerra Mundial que, em 1940, trouxeram o jovem professor Ramiro de Sousa Pereira até ao Faial, a prestar serviço militar como furriel da arma de Engenharia, cujo destacamento estava sediado na freguesia da Feteira. Tinha 23 anos quando casou com Luísa Lurdes Contente, a 18 de Novembro de 1944 na igreja paroquial de Castelo Branco. Professor na escola masculina da Carreira, dessa freguesia, residiu durante largos anos no sítio da Lombega e mais tarde na Matriz da Horta quando foi colocado na Direcção Escolar como encarregado da missão cultural do distrito da Horta. Desde então e até ao seu falecimento em 21 de Junho de 1994, a ilha Faial foi a sua terra, embora não esquecesse as origens em São Tiago de Litém do concelho de Pombal, onde nasceu em 1921, filho de José Pereira e de Maria de Sousa. O professor Ramiro de Sousa Pereira, tendo vivido nesta ilha mais de 50 anos, exerceu uma actividade assinalável e multifacetada que se estendeu do ensino e do jornalismo ao desporto e à cultura. Foi durante anos colaborador do jornal O Telégrafo, onde, sucedendo a Frei Pedro (Professor Manuel Ávila Coelho), continuou a apreciada Gazetilha dominical sob o pseudónimo de Frei Paulo. Anos antes fora correspondente do Correio da Horta, jornal em que publicou, a partir de 1946, vários poemas que assinou como Nuno d’Além Mar. Lembramo-nos dele, quando jovem, a actuar na equipa de futebol da Tuna Liberdade de Castelo Branco, onde foi presidente da Junta de Freguesia e do Centro de Recreio Popular da Lombega, além de dirigente de instituições culturais e recreativas. Dedicou-se intensamente ao teatro, ao folclore e à música. Se toda a ilha lhe é devedora, a “sua” freguesia de Castelo Branco tem para com ele um débito enorme. Dos ranchos de Natal aos grupos folclóricos, das peças de teatro às tunas e banda de música, aí estava participando o professor Ramiro, fosse como letrista e compositor, fosse como executante e encenador. O seu vasto espólio pessoal desapareceu, mas, documentação esparsa, testemunha quanto ele fez em prol da cultura na ilha do Faial. Foi regente da Euterpe durante sete anos, de 1965 a 1972 e um dos que mais denodadamente se esforçou para que ela possuísse edifício próprio, sendo o principal dinamizador da Comissão Pró-Sede que, constituída em 1966, iria concretizar a grande aspiração daquela filarmónica fundada em 12 de Maio de 1912. Compunham a dita Comissão o pároco Padre José Eduardo da Silva, o presidente da Junta de Freguesia Manuel Dutra da Silva, o regedor Manuel Francisco Ribeiro, o lavrador José Augusto de Vargas, os comerciantes José Gonçalves e António de Vargas Bulcão e os directores da Euterpe José Nunes Caldeira, Manuel Humberto de Freitas, António Augusto da Rosa, Manuel Dutra Caldeira e, claro, o seu regente Ramiro de Sousa Pereira. “É ele que redige e assina ofícios e circulares pedindo auxílio a diversas entidades – presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Dr. Azeredo Perdigão, ministro e subsecretário das Obras Públicas, respectivamente Eng.º Arantes e Oliveira e Eng.º Rui Sanches e governador do distrito da Horta, Dr. Freitas Pimentel – e aos albicastrenses radicados nos Estados Unidos e no Canadá”1. E quando, após seis anos de trabalhos extenuantes e atribulados a nova sede foi inaugurada a 20 de Agosto de 1972, é ainda o professor Ramiro de Sousa Pereira que, como regente da Euterpe, fez de anfitrião, saudando o titular das Obras Públicas, já então o Eng.º Rui Sanches, pondo em relevo todo o seu apoio e auxílio para a concretização da desejada obra e entregando-lhe, como testemunho de gratidão, o diploma de sócio honorário daquela agremiação musical. No período compreendido entre 1980 e 1985 foi também regente da União Faialense, que atravessava um período bastante difícil, ao ponto de Hildeberto Serpa – dirigente e tocador dessa época – haver afirmado uns anos mais tarde que “a actual manutenção [da União] se deve ao professor Ramiro Pereira”2. Era, simultaneamente, presidente da assembleia-geral e foi, nessa dupla qualidade, que a 20 de Março de 1984, discursou na cerimónia da entrega de 28 instrumentos feita pelo Governo Regional integrada no programa de apoio às filarmónicas açorianas. Essa cerimónia contou com a presença dos presidentes da Assembleia e do Governo dos Açores, respectivamente Dr. Álvaro Monjardino e Dr. Mota Amaral, outras autoridades regionais e locais, imprensa e convidados. No extenso discurso de agradecimento e de satisfação, o professor Ramiro de Sousa Pereira, historiou a longa vida da “União Faialense”, apontou os períodos difíceis e as carências principais – a maior delas a falta de uma sede própria – exaltou a dedicação dos 45 executantes, orgulhando-se da “presença de 12 elementos femininos que exercem uma dupla missão na colectividade: o aspecto sociocultural que desempenham, como fautor de uma correcta e salutar coeducação, e o frescor, a delicadeza, a graça que emprestam à apresentação e execuções da filarmónica”. Em Outubro de 1985 cessou as funções de regente da União Faialense, que, em sinal de gratidão, lhe ofertou um estojo “Crose”3. Após a morte do jornalista Rogério Gonçalves (14.12.1984), director de “O Telégrafo”, o professor Ramiro Pereira passou a integrar o respectivo quadro redactorial, culminando um período de vasta colaboração com aquele jornal. Paroquiano da Matriz da Horta, pertencia à Confraria do Santíssimo Sacramento, era leitor e acólito, assíduo nas celebrações litúrgicas e um cristão disponível para servir a comunidade. Com 73 anos de idade, faleceu no Hospital da Horta, a 21 de Junho de 1994. A Assembleia Municipal, reunida em 30 desse mesmo mês, aprovou por unanimidade um voto de pesar apresentado pelos deputados do PS, em que, registando o óbito, salientava “o trabalho realizado pelo professor Ramiro de Sousa Pereira ao serviço da comunidade faialense no campo teatral, musical, folclórico e jornalístico”. Decorridos 22 anos é a Câmara Municipal que, fazendo tábua rasa da deliberação da Assembleia e assumindo o parecer da comissão de toponímia, não dá provimento à oportuna pretensão da Junta de Freguesia de Castelo Branco que decidira homenagear aquele prestante cidadão, dando o seu nome à rua que confere acesso à escola EBI/JI daquela localidade, com o discutível e inconsequente argumento “de que não devem ser homenageadas pessoas que desenvolveram ligações com o regime anterior”. Em nome da justiça e sem pretender polemizar com quem quer que seja, repito hoje o que escrevi neste espaço em 15 de Julho de 2016: “Há, na verdade, decisões surpreendentes e inesperadas que, vagas ou falhas de fundamento, merecem melhor explicação ou, então, rápida revogação”. 8.08.2016 (O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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