
Deve ser caso único na história faialense, este que envolve a nossa ilha e o catalão Santo António Maria Claret.
O facto relata-se em poucas palavras. Decorria o ano de 1857 quando, na manhã de 9 de Maio, ancorou na baía da Horta para receber carvão o vapor de guerra espanhol “Pizarro”. Trazia a bordo o arcebispo de Cuba D. António Maria Claret que vinha a Madrid chamado pela rainha Isabel II.
A sua estada na Horta durou três dias e está pormenorizadamente relatada em documentos coevos, nomeadamente no jovem semanário “O Fayalense”, nos livros de registos e de actas da Câmara Municipal e nas “Notas Açorianas” de Ernesto Rebelo.
Cumprimentado a bordo pelo governador civil Luís Teixeira de Sampaio Júnior acompanhado pelo secretário geral Miguel Street de Arriaga (que era também o director daquele jornal), o arcebispo, em gesto de gratidão, logo lhes comunicou a intenção de visitar a Horta na manhã do dia seguinte. Esse evento festivo, ficaria, porém, ensombrado, por um fatídico acidente. Aconteceu que o comandante do “Pizarro”, correspondendo às saudações do forte de Santa Cruz, mandou dar uma salva aquando do desembarque do arcebispo tendo ela originado uma catástrofe quando “dois artilheiros foram mortos” no momento em que “estavam carregando a peça que devia dar o último tiro”. Apesar da tragédia, o arcebispo desembarcou “com pouca diferença da hora que se marcara” e “rodeado das autoridades e principais pessoas da terra e de um imenso povo que encheu todas as ruas” visitou as igrejas Matriz, S. Francisco, Carmo, Convento da Glória e Conceição “aonde tinha acorrido grande quantidade de povo”. Esteve também no Hospital da Misericórdia e no Asilo da Mendicidade, retribuiu os cumprimentos do governador civil e, após a chegada dos cadáveres dos dois marinheiros falecidos presidiu às cerimónias fúnebres na igreja de S. Francisco “que estava apinhada de gente” e ao funeral para o cemitério do Carmo.
A circunstanciada notícia de “O Fayalense” sublinha “que por toda a parte, por onde S. Ex.ª passava, nas igrejas e nas ruas, o povo apinhava-se e corria em turbilhão para lhe beijar o anel”, também por que “na nossa ilha vai já em 50 anos, se não passa, que se não vê uma autoridade eclesiástica desta categoria”1.
Também a Câmara Municipal, “possuída do maior júbilo e da mais viva satisfação” comunicou-lhe ter deliberado “depositar nas [suas] sagradas mãos as sinceras homenagens de sua profunda veneração e elevado acatamento” agradecendo-lhe “a mui distinta honra que se dignou fazer a esta cidade visitando-a ontem e aos seus augustos e santos templos” e confiando que, por intermédio das orações e preces daquele destacado eclesiástico “a bem destes povos”, a “Divina Providência se dignará olhar para eles com vistas de misericórdia, arredando de sobre suas cabeças os males e flagelos, com que por vezes lhe apraz castigar nossas iniquidades”2.
O “Pizarro” largou da Horta a 12 de Maio de 1857 – mais um “ano de fome” devido à falta de subsistências que muito flagelou as populações – e o arcebispo de Cuba foi para Madrid ocupar o lugar de confessor de Isabel II, sem jamais abandonar os trabalhos da Congregação dos Missionários do Coração de Maria, conhecidos popularmente como Claretianos que ele fundara em 16 de Julho de 1849.
No decurso da sua vida (1807 – 1870) sofreu atentados físicos e muitas contradições que soube suportar com grande visão sobrenatural. Na síntese da sua vida exemplar feita pelo Papa Pio XII, António Maria Claret foi catequista, missionário, formador de clero, director de almas, fundador de congregações, pedagogo, anjo tutelar da família real, mas sobretudo eminentemente santo”. Foi, em suma, “um dos grandes esteios da Santa Igreja no seu tempo”. Tendo falecido em 24 de Outubro de 1870, foi beatificado por Pio XI em 1934 e canonizado em 7 de Maio de 1950 por Pio XII.
Decorridos 11 anos sobre a sua elevação aos altares, a sua imagem – bem como a da jovem mártir da pureza Santa Maria Goreti – foi colocada à veneração dos fiéis na igreja de Castelo Branco. Ambas as esculturas foram oferecidas pelo ilustre faialense Pe. Augusto Leal Furtado à paróquia da sua terra natal. Foram benzidas a 15 de Agosto de 1961 e, como se vê na fotografia anexa, integraram já a procissão de N. S. de Lourdes, sendo levado por jovens daquela freguesia3.
Assim se regista este singular acontecimento: Santo António Maria Claret, que em vida esteve na Horta, voltou – passados 104 anos – para nós em imagem destinada ao culto público, por iniciativa de um generoso e dinâmico albicastrense e com total apoio do bondoso pároco Pe. José Eduardo da Silva.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)
1O Fayalense, 13 Maio
2Livro Registos n.º 30 e Actas nº 31 da CMH, fls. 113 e 10 de 1857
3Cf. O Telégrafo















