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Retalhos da nossa história – CLIX – O largo e as estátuas do Infante D. Henrique na cidade da Horta

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À semelhança do que se verificou em inúmeras localidades portuguesas, também a cidade da Horta homenageou algumas vezes o Infante D. Henrique que foi, como se sabe, o grande impulsionador dos descobrimentos portugueses. 

A primeira distinção que a edilidade faialense conferiu àquele membro da Ínclita Geração ocorreu a 4 de Março de 1894 aquando das festas do 5.º centenário do seu nascimento. Com efeito, a Câmara Municipal da Horta reunida em 21 de Fevereiro desse ano deliberou realizar uma sessão solene especial no dia do aniversário na qual se narrariam “os actos da vida do Infante que o tornaram admirado do mundo civilizado e uma das glórias” de Portugal e “dar ao largo de Neptuno desta cidade o nome do Infante” , sendo a respectiva lápide com a inscrição de ‘Largo do Infante D. Henrique’ lá colocada depois daquela sessão. A partir daí este espaço público foi alvo de sucessivos melhoramentos que o tornaram bastante atractivo, a ponto de ser, no século XX, a verdadeira “sala de estar” da cidade da Horta.

Ainda na primeira metade dessa centúria aquele local seria, em 1940 e na ilha do Faial, um especial protagonista das comemorações do Duplo Centenário – celebração das efemérides de 1140 e de 1640, a primeira evocando a data da fundação de Portugal e a segunda a da restauração da independência nacional. Esta iniciativa do Governo do Estado Novo visava não só fazer a apologia do regime, mas também redobrar o fervor patriótico dos portugueses que viviam em paz numa altura em que os europeus sofriam já os horrores e os dramas da 2.ª Guerra Mundial. E porque – assim proclamava Salazar – “os centenários, como grande festa de família, não interessam só à capital”, pelo que “a província, as ilhas e todos os domínios” tinham “de participar nela”, também o Faial se esmerou na celebração das solenidades centenárias que, simbolicamente, tiveram momento alto no dia 1 de Dezembro de 1940 com cerimónias cívicas e religiosas, das quais se destaca a inauguração da estátua de D. Henrique, no Largo do Infante. Escreve a imprensa faialense que “pelas 15 horas estavam postas numa aparatosa parada uma força do aviso ‘João de Lisboa’, uma companhia do Batalhão 66, Bataria, Guarda Fiscal, uma lança da Legião Portuguesa, Escoteiros e mocidade académica do Liceu e das escolas da cidade”, levando as crianças “lindos ramos de flores” que “depuseram sobre as pedras que simbolizam o promontório de Sagres, procedendo-se em seguida à inauguração do monumento que se encontrava coberto com a bandeira nacional” (…) Era uma estátua da autoria do escultor Costa Mota (tio), de consideráveis dimensões, com seis toneladas de peso, e que havia sido cedida pelo Município de Lisboa ao da Horta devido à influência do coronel Henrique Linhares de Lima, destacado político nascido no Pico e que era membro da comissão executiva das comemorações do Duplo Centenário da Fundação e da Restauração de Portugal. Depois de descerrado o imponente monumento pelo governador civil do distrito, capitão Moreira de Carvalho, “um terno de clarins do 66 tocou em continência e as vozes de comando” puseram “todas as forças em movimentos rápidos na mais alta saudação militar, enquanto a filarmónica ‘Artista Faialense’ executava o lindo hino da Restauração” . O povo que, em grande número, participava na cerimónia, bem como as autoridades civis e oficiais do Exército e da Armada que tomaram lugar na tribuna colocada em frente da estátua ouviram o breve discurso do presidente da Câmara, coronel Álvaro Soares de Melo, e o orador oficial Dr. Gomes Belo, reitor do Liceu Provincial Dr. Manuel de Arriaga que “apresentou um primoroso discurso em que o brilho da frase e a elevação dos conceitos se harmonizavam admiravelmente” . No local em que foi erguido o monumento estava a ser construída a base do que seria um coreto que, jamais foi concretizado, ao invés do que sucedeu no Jardim Público e na Praça da República. Certo é que aquele conjunto escultórico, colocada no centro da praça, foi durante vários anos um verdadeiro ex-libris da cidade da Horta. 

Com a celebração, em 16 de Julho de 1960, do 5.º centenário da morte do Infante D. Henrique, o “seu” largo voltou a ser palco de grandes festejos que, infelizmente, implicaram a retirada da imponente e artística estátua, a qual foi substituída por um busto do mesmo Príncipe, da autoria do escultor Numídico Bessone. Feito em bronze, com apenas 90 centímetros, está assente num pedestal de pedra lavrada e fica enquadrado, do lado sul, por um muro de basalto trabalhado que suporta a divisa de sua casa “talent de bien faire”, e do lado norte, por um bonita “calçada portuguesa” de basalto negro e calcário branco representando as ondas do mar alto. Os espaços relvados, as árvores, os candeeiros de pé em betão e os bonitos e confortáveis bancos de ferro fundido e travejamento de madeira pintados a vermelho, completavam aquele jardim e faziam dele um local verdadeiramente aprazível. 

Foi, portanto, neste ambiente que decorreram as comemorações henriquinas de 16 de Julho de 1960 que tiveram como um dos momentos altos a inauguração do busto do Infante, tendo essa cerimónia sido presidida pelo ministro da Marinha, contra-almirante Mendonça Dias que havia chegado à Horta na manhã desse dia. Festivamente recebido pela população e sempre acompanhado pelo governador do distrito, Dr. Freitas Pimentel, foi saudado no salão nobre da Câmara Municipal pelo presidente Dr. Sebastião Goulart, dirigindo-se de seguida para a desde então denominada “Praça do Infante”. Uma deputação da Armada ladeava o busto do ínclito filho de D. João I e de D.ª Filipa de Lencastre, “vendo-se também ali delegações da Bataria, cujos clarins fizeram ouvir o toque de continência, da Legião Portuguesa, da Polícia, da Guarda Fiscal, dos Bombeiros, da Mocidade Portuguesa, dos Sindicatos Nacionais e dos Clubes com seus estandartes”. E, “além das entidades oficiais e demais convidados, entre os quais se viam muitas senhoras, centenas e centenas de faialenses enchiam por completo o vasto recinto” . O orador oficial foi o Dr. Raposo de Oliveira – membro da Comissão Distrital das Comemorações Henriquinas conjuntamente com o coronel Álvaro Soares de Melo, Padre Júlio da Rosa e Drs. Luís Carlos Decq Motta e Tomás da Rosa Pereira – que dissertou longamente, proferindo de improviso um patriótico discurso sobre o Infante e a sua obra, cabendo ao ministro Mendonça Dias   pronunciar as palavras de encerramento daquela cerimónia.

Afora os habituais arranjos de manutenção e de aformoseamento, a “Praça do Infante” manteve o mesmo aspecto, que só seria alterado em 2005 quando a Câmara Municipal fez substituir o pavimento existente por uma insólita e indefinida calçada portuguesa, os confortáveis e tradicionais bancos pintados de cor vermelha por outros de cor negra, e de pouca ou nenhuma beleza, além da criação de uma pretensa “fonte luminosa” no muro que suporta a divisa do Infante e que já há muito deixou de ter luz… e até água!

 

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