Retalhos da nossa história – CLXXXIV – Os voos da Pan American pela baía da Horta (4)

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Depois da inauguração do serviço postal aéreo entre os Estados Unidos e a Europa em maio de 1939, a Pan American prosseguiu com as suas carreiras transatlânticas utilizando o Faial como ponto de escala dos seus hidroaviões. Além do “Yankee Clipper” que, na viagem de regresso, amarou na Horta a 26 daquele mês, conduzindo o primeiro correio no sentido Europa-América – com imediatos e “benéficos efeitos duma rápida comunicação de Lisboa, nas centenas de cartas distribuídas na nossa cidade”1 – também o “Atlantic Clipper”, apenas transportando mala postal, escalou a capital faialense ainda no mês de maio e nos dias 9, 12 e 16 de junho.

Seria àquele avião que caberia a primazia no transporte de passageiros entre o Novo e o Velho Mundo, numa inteligente e bem planeada viagem promocional. Vindo de Port Washington, o “Atlantic Clipper”, depois de uma viagem de 17 horas, amarou na baía da Horta na manhã de 18 de junho. Tinha 12 tripulantes, era comandado pelo capitão W. C. Culbertson e trazia um grupo de 18 viajantes – enviados especiais de grandes jornais, de destacadas agências de informação e de emissoras de rádio – que a Pan American Airways gentilmente convidara para o voo preliminar de passageiros à Europa. A receber esta influente comitiva, estiveram no cais de Santa Cruz muitas pessoas e alguns membros da Câmara Municipal, Junta Geral e Associação Comercial que, constituídos em informal comissão de turismo, lhes dariam as boas vindas. Afinal, e porque o tempo de escala do “Atlantic Clipper” teve de ser reduzido, aqueles 18 passageiros não puderam desembarcar, ficando a visita ao Faial adiada para a viagem de regresso que ocorreu a 24 de junho.

 

Nesse festivo dia de São João aqueles profissionais da comunicação social americana foram carinhosamente acolhidos pela população, com a filarmónica “União Faialense”, a bordo da lancha “Maria Lígia”, executando “algumas peças de música em volta do aparelho à chegada e ao desembarque” no cais de Santa Cruz. Aqui estavam, além de muitos populares, as entidades que formavam a comissão de receção, que proporcionaram aos visitantes um passeio turístico à Estrada da Caldeira – dali puderam desfrutar a beleza do aprazível vale dos Flamengos e apreciar as chamarritas e os bailes que dominavam a grande romaria de São João – seguindo-se a Estrada da Espalamaca, com o espectacular panorama constituído pela cidade da Horta e pela vista das ilhas do Pico, de São Jorge e da Graciosa. Porque era de curta duração a permanência do “Atlantic Clipper” houve que rapidamente descer até à sociedade “Amor da Pátria” onde decorreu um “Pico de Honra”, marcado por expressiva saudação de Moisés Benarus (antigo vice-cônsul dos Estados Unidos) e pela oferta de recordações do artesanato regional, designadamente obras em miolo de figueira, trabalhos de croché, bordados, rendas de bilro, bonés e chapéus de palha. Pela delicadeza que transmitem e pelo sentido premonitório que revelam, retiramos das palavras de Moisés Benarus proferidas nesse dia 24 de junho de 1939 quando a Europa e o Mundo estavam já a caminho da enorme tragédia que foi a 2.ª Grande Guerra, apenas estas passagens:

“(…) Desejamos afirmar-vos que muito apreciamos a grande importância que dais ao Faial com esta vossa visita, na alta missão intelectual que viestes representar à Europa como membros da grande imprensa. A vossa missão de escritores e jornalistas é nobilíssima e, certamente, a que guia os destinos dos países e do mundo. A vossa vinda de um grande país como a América dá-nos a afirmação de que sois pela paz, pelo progresso e pelo avanço de todos os ramos da ciência (….) Como percursores das viagens através do grande Atlântico, sob os mais seguros auspícios e mais garantidos meios de tráfego, viestes amarar na baía da Horta. Antecipamos as vantagens e prosperidades que estais iniciando para todos nós, nesta pequena ilha, e como lembrança do Faial e prova da nossa gratidão, pedimos licença para vos oferecer algumas das nossa mais lindas lembranças e flores, acompanhadas dos nossos mais vivos e sinceros agradecimentos”2.

Foi já de bordo do “Atlantic Clipper”, de regresso aos Estados Unidos que, por intermédio do comandante Culbertson, aqueles membros da comunicação social americana reiteraram à “Associação Comercial, Sociedade Amor da Pátria, Imprensa e população” o seu profundo apreço pela “esplêndida hospitalidade que todos lhes dispensaram e de lhes afirmar a grata e perdurável recordação que trouxeram da linda ilha do Faial e da generosidade dos seus habitantes”3

Enquanto decorria esta viagem preliminar dos profissionais da informação, o presidente da Pan American Airways, Juan Terry Trippe, promovia uma conferência de imprensa em Nova Iorque onde divulgava que o serviço aéreo de passageiros entre a América e a Europa seria inaugurado pela sua companhia no dia 28 de Junho, ligando os Estados Unidos a Portugal e França, via Açores, pela linha transatlântica do serviço de mala aérea que havia começado a 21 de maio. E foi isso que, de facto, aconteceu. Naquele dia saiu de Port Washington o novo “Dixie Clipper” que, às 9 horas e 45 minutos de 29 de Junho, amarou tranquilamente nas águas da baía da Horta, sob o comando de Ronald Sullivan. Juntamente com os seus 11 tripulantes, vinham 22 privilegiados passageiros, entre os quais seis senhoras, sendo uma delas Elizabeth Trippe, esposa do presidente da Pan Am. Desembarcaram no cais de Santa Cruz, foram ovacionados e, à semelhança do que dias antes sucedera com os profissionais da comunicação social, também eles tomaram automóveis que os conduziram em visita rápida à Estrada da Caldeira e ao Miradouro da Espalamaca. No regresso à Horta houve esmerada receção na Sociedade Amor da Pátria que “os surpreendeu pela sua grandiosidade”, tendo partido para Lisboa “encantados com as belezas e hospitalidade da Ilha Azul”4.

O “Dixie Clipper” completou a ligação Nova Iorque/Lisboa – via Horta, onde foi reabastecido com cerca de 7 mil litros de gasolina – em 23 horas e 53 minutos. Cada passageiro pagou 309 dólares pela viagem até Lisboa e 375 dólares até Marselha, tendo direito a todos os requintes proporcionados por um serviço de primeira classe. Voar num Clipper era então o expoente máximo do ‘glamour’ e da distinção social, razão porque milhares de pessoas assistiam às partidas e às chegadas daquelas aeronaves, principalmente para verem quem nelas viajava. Se isso acontecia nas grandes cidades – Nova Iorque, Lisboa, Londres ou Marselha – não admira que o mesmo se verificasse na capital faialense, com as multidões que se concentravam para receber os tripulantes e os passageiros dos aviões da Pan American.  

1 O Telégrafo, 26 maio 2014

2 Correio da Horta, 26 junho 1939

3 O Telégrafo, 30 junho 1939

4 Idem, Ibidem

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