Manuel de Ávila Coelho foi um dos professores mais cultos do seu tempo. Ao longo de meio século ensinou várias gerações de crianças e jovens e prestou significativo contributo na promoção cultural e social das comunidades onde viveu.
Formado na Escola Normal da Horta, com a classificação de 17 valores, em 13 de julho de 1912, o professor Ávila Coelho exerceu a sua profissão na Ribeirinha da ilha do Pico e, sucessivamente, na Lombega, Praia do Norte, Salão, Cedros e Angústias da ilha do Faial.
Nascido na freguesia da Piedade, concelho de Lajes do Pico, em 28 de março de 1891, filho de António de Ávila Coelho, comerciante e chefe da estação telefónico-postal da Piedade e de Mariana Emília, cedo aprendeu, a par da primeiras letras, a arte musical, integrando o grupo coral da sua terra e, posteriormente, sendo regente das capelas de localidades onde lecionou, nomeadamente do “Grupo Musical Santa Bárbara dos Cedros” que abrilhantava as principais festividades não só daquela freguesia, mas também de outras freguesias faialenses. Tal como vários colegas de profissão seus contemporâneos, o professor Manuel de Ávila Coelho revelou-se, além de apaixonado amador musical, jornalista de rija têmpera, poeta satírico perpetuado nas suas famosas “gazetilhas” e investigador competente que nos legou interessantes trabalhos etnográficos.
Era ainda professor na Praia do Norte quando, em outubro de 1928, fixou residência nos Cedros. Já aí lecionava sua esposa, a professora D. Maria Noémia de Faria Coelho, que lá morava com os dois filhos do casal, Manuel Coelho e Mário de Faria Coelho, e onde nasceria o terceiro filho, António de Faria Coelho.
Desde a primeira hora esteve ligado ao quinzenário “O Eco Cedrense”, fundado em 19 de março de 1928. O diretor e editor era o padre Francisco Vieira Soares, tendo como redatores o padre José da Rosa Dutra e os professores Constantino Magno do Amaral Jr. e João Pereira Dutra Jr. e sendo composto e impresso em tipografia própria situada no lugar da Praça. Com a saída da paróquia do padre Vieira Soares, assumiu a direção daquela revista o padre José da Rosa Dutra, surgindo no cabeçalho como administrador o professor Manuel de Ávila Coelho e como redatores Helena Graça, padre Rosa Dutra, professores Dutra Jr., Ávila Coelho e Constantino Amaral Jr. Alguns destes sacerdotes e professores foram os principais dinamizadores da Associação Educativa União e Progresso Cedrense, da filarmónica Lira e Progresso Cedrense, do Grupo de Teatro e, até, da modernização da indústria de lacticínios.
No começo da década de trinta do século XX, o professor Manuel de Ávila Coelho, sendo politicamente adepto do Partido Regionalista liderado pelo médico cedrense Dr. Manuel Francisco das Neves Jr. e mercê da sua íntima amizade com o seu colega de profissão e de lides jornalísticas Constantino Magno do Amaral Jr. viu-se envolvido na complexa luta política daquele tempo. Como se sabe, a chamada Revolução Nacional, apesar de triunfante em 28 de maio de 1926, tardava em consolidar-se. Na Horta, capital do distrito, continuavam a digladiar-se duas irreconciliáveis correntes partidárias – os “democratas” do Dr. Manuel José da Silva e os “regionalistas” do Dr. Neves, que, não obstante as respetivas convições, procuravam manter-se em atividade política e, através dos seus membros mais destacados, ocupar os principais postos de governação.
Foi assim que, em 1930, tanto os “democratas” como os “regionalistas” aderiram em massa à União Nacional, então uma simples e mal definida organização cívica, levando para o seu interior a luta pelo poder. Este, disputavam-no junto dos militares e dos governadores civis e tinham como porta-vozes os dois jornais locais. O do partido do Dr. Neves era o “Correio da Horta” surgido a 4 de dezembro de 1930, dirigido inicialmente pelo escritor Osório Goulart e pelo advogado Dr. Raposo de Oliveira e tendo o professor Constantino Amaral na chefia da redação, o que forçou “O Telégrafo” a passar-se para o campo adverso. Posicionado ao lado do poder, a vida do “Correio da Horta” parecia facilitada, Depressa, porém, a realidade dos factos se encarregou de contrariar este vaticínio. Para tanto bastou a mudança de governador civil. Para o lugar do comendador Fernando da Costa – que chefiou o distrito de 16 de agosto de 1927 a 8 de julho de 1931 – veio o Dr. Augusto Pais de Almeida e Silva que, desde que chegou à Horta em 27 de agosto até ao termo do seu atribulado e conflituoso mandato em 1933 não cessou de enviar constantes ofícios e telegramas ao ministro do Interior que mostram bem como, desde a primeira hora, entrou em choque com os homens fortes do Dr. Neves, em especial com este e com o Dr. Raposo de Oliveira, que era o máximo dirigente distrital da União Nacional e que, como anterior governador substituto, fora o pretendente derrotado ao cargo que o Dr. Pais Almeida viera ocupar. Foi um período negro de lutas constantes de que os dois jornais faialenses nos fornecem exemplos nada edificantes. Refém dos oficiais da Guarnição Militar e de oposicionistas do Dr. Neves com tribuna livre em “O Telégrafo”, havia que silenciar o “Correio da Horta”. E, para o que agora nos interessa, este periódico foi suspenso por três vezes em 1932, sendo numa delas habilidosamente substituído pelo “Jornal da Horta”, trissemanário que tinha como director e proprietário o corajoso professor Manuel de Ávila Coelho e como editor Alberto de Azevedo Lima. Desapa-recia, temporariamente o “Correio da Horta” e toda a sua equipa já então dirigida por Constantino Amaral, professor e inspetor escolar.
Seria, porém, no diário “O Telégrafo” que, a partir da década de cinquenta do séc. XX o professor Ávila Coelho revelaria em plenitude a sua veia humorística nas apreciadas e dominicais “Gazetilhas da Semana”, sempre subscritas por “Frei Pedro” e que duraram até 6 de junho de 1971. Ao longo de 17 anos produziu mais de 700 gazetilhas, “ansiosamente esperadas pelos seus assinantes, algumas circunstanciais, mas outras de carácter duradouro, que mantêm toda a sua actualidade e que documentam as virtudes e os defeitos do nosso Povo”1.
Poeta satírico, amador musical, jornalista de forte personalidade e cidadão empenhado na vida desportiva e autárquica da freguesia das Angústias, o professor Ávila Coelho foi também investigador, com dois interessantes e valiosos trabalhos publicados no Boletim do Núcleo Cultural da Horta: “A freguesia de Nossa Senhora da Piedade na ilha do Pico” e “Vocabulário Regional das Ilhas do Faial e Pico”2. Tendo falecido a 12 de outubro de 1979, está perpetuado na toponímia da cidade da Horta numa rua da freguesia das Angústias com a seguinte lápide: Prof. Manuel Ávila Coelho / Jornalista e Historiador.











