Em julho de 1917, a Escola Normal da Horta (1900-1926) diplomou 25 professores primários, sendo cinco do sexo masculino e 20 do feminino. As elevadas notas finais deste curso, que iam de 16 a 20 valores, mostram que, sobretudo na segunda década do século XX, a bitola classificativa era ali muito generosa, além de sugerirem que os novos docentes haviam sido alunos trabalhadores e aplicados. Esta dedução encontra demonstração no que eles fizeram em prol do ensino e da cultura das populações e das iniciativas que desenvolveram nas comunidades que serviram.
Foi isso que procurámos concretizar nas anteriores abordagens biográficas aqui publicadas. E, naturalmente, é esse também o objetivo do presente e dos próximos artigos.
José Inácio Garcia de Lemos Júnior, diplomado com 20 valores em 1917, tinha apenas 18 anos de idade, pois nascera em São Mateus da ilha do Pico, a 19 de junho de 1899. Era filho do professor José Inácio Garcia de Lemos e de D. Maria Zulmira Rai-mundo de Lemos; neto paterno de Manuel Garcia de Lemos, também professor e um dos fundadores, naquela freguesia, do “Gabinete de Leitura Camilo Castelo Branco” e materno de Raimundo Rodrigues, famoso baleeiro de São João. Deles herdou o gosto pelas letras e pelas várias manifestações culturais e iniciativas empresariais que desenvolveu com os talentos de que era dotado.
Depois da instrução primária, frequentou o Liceu da Horta, concluindo com distinção o curso geral, a que se juntaria três anos depois o diploma de 20 valores obtido na Escola Normal. Já então se ia afirmando o educador, o jornalista, o amador do teatro e da música. Logo após a formatura Garcia de Lemos Júnior iniciou verdadeiro e rápido peregrinar por várias escolas do Pico: Silveira, São Caetano, Santo António, Terra do Pão e, por fim, a 1 de outubro de 1921, São Mateus. Aqui se manteve como professor exigente, culto e proficiente até à aposentação voluntária em 26 de março de 1945. Além da docência, outras atividades o atraíram. Foi homem de vários negócios, desde o comércio à indústria de moagem e à de espadana, tendo ainda revitalizado, na década de 40 do século XX, a armação baleeira de São Mateus que uns anos antes vivera período áureo sob a direção e propriedade de seu avô materno Raimundo Rodrigues.
Seduzido pelo poder e, naturalmente, vendo nele o meio eficaz de incrementar o ansiado desenvolvimento da sua terra, o professor Garcia de Lemos Júnior exerceu por vários anos cargos políticos no município da Madalena. Curiosamente, iniciou as suas lides políticas ainda bastante novo e ao serviço do partido democrático republicano de Afonso Costa, um poderoso e esquerdista agrupamento político que, na ideologia e na prática, se colocava nos antípodas da salazarista União Nacional de que uns anos mais tarde seria presidente da Comissão Concelhia da Madalena. Assim, no ano de 1921, foi nomeado pelo governador do distrito, Dr. Gabriel Baptista de Simas, administrador do Concelho da Madalena, ao passo que seu pai – que desde 1919 era professor da Escola Normal – seria escolhido para idêntico cargo no concelho da Horta. Permaneceria pouco tempo no cargo, pela simples razão de que aqueles últimos anos da I República se caracterizavam por permanente instabilidade política, com os Ministérios em constante mutação, o que levava à queda dos governadores civis e das autoridades por eles nomeadas. Bem mais duradouras seriam as comissões de serviço que prestaria ao Estado Novo. Registam-se, como mais importantes, a presidência da comissão administrativa da Câmara Municipal da Madalena, de 8 de setembro de 1935 a 5 de Fevereiro de 1940 e a presidência da mesma Câmara Municipal de 9 de Junho de 1945 a 21 de Março de 1959 – até ao limite que a lei impunha. Na gestão dos interesses do Concelho da Madalena – cujas receitas eram extremamente modestas – o presidente José Inácio Garcia de Lemos Júnior deu sobejas provas de empenho, de argúcia e de competência, inventariando os principais problemas e porfiando pelos financiamentos que levassem à necessária realização. A imprensa da época cita, como mais significativos, a urbanização do centro da Madalena, a construção do edifício escolar, a abertura ou a melhoria de vias de comunicação, o abastecimento de água à vila e, a maior de todas as obras, que foi a electrificação da sede do concelho em 11 de Janeiro de 1953.
Esse acontecimento, a que a imprensa deu grande relevo, levou ao Pico, nas lanchas “Maria José” e “Calheta”, várias autoridades e diversos convidados, nomeadamente o governador civil, engenheiro Mascarenhas Gaivão, presidente da Junta Geral, Dr. Ribeiro Peixinho, director das Obras Públicas, engenheiro Ângelo Corbal e presidente da Câmara da Horta, Dr. Freitas Pimentel. Decorreu ele na tarde de domingo, e “as suas autoridades e duas filarmónicas, os madalenenses receberam ali com entusiásticas e duradoiras palmas o ilustre e mais alto representante do Governo de Salazar que inaugurou o maior melhoramento da Madalena desde a fundação do concelho – a electrificação”1.
Esse inesquecível domingo de 1953 só tem paralelo com a grande homenagem que anos antes a Câmara Municipal da Madalena promovera ao primeiro Presidente da República, Dr. Manuel de Arriaga. Foi a 2 de Agosto de 1936 que aquela edilidade, também presidida pelo professor Garcia de Lemos, numa pretensa revisão histórica – que documentalmente analisei neste espaço em 14 de maio de 1910 e que até hoje não vi contestada com honestidade e rigor 2 – fez uma grande festa à memória daquele estadista, envolvendo nela as principais entidades distritais e concelhias, bandas de música, testemunhos pretensamente fidedignos e muito povo e que consistiu na colocação, numa casa do lugar do Guindaste, freguesia da Candelária, de uma placa assinalando ter ali nascido o Dr. Manuel de Arriaga. Essa manobra política, rigorosamente preparada e laboriosamente encenada, teve, sem dúvida, a liderança do professor Garcia de Lemos Júnior e é reveladora de oportuna perspicácia, superior inteligência e invulgar dinamismo.
Aliás, já há muito revelara essas e outras qualidades assinaladas no seu percurso escolar e profissional, a que acresciam os seus dotes para o jornalismo – que praticou desde os 12 anos quando fundou o pequeno jornal “Cartão de Visita” e que cultivou pela vida fora como assíduo correspondente da imprensa faialense e do lisboeta “Diário de Notícias – para o teatro, integrando o grupo cénico de António Baptista e atuando em saraus músico-dramáticos do Salão Eden, então propriedade das primas D. Lídia Furtado e D. Silvina Furtado de Sousa, sendo aluno desta em Música e Piano. Cedo mostrou a sua aplicação quando, aos 14 anos, tocou harmónio na missa em honra do Senhor Bom Jesus, ou quando dirigiu a Tuna da Escola Normal. Foi em São Mateus, que nas celebrações religiosas ou nas distracções profanas deu largas aos seus conhecimentos culturais e artísticos, quer regendo a Capela ou tocando órgão, quer ensaiando e dirigindo a filarmónica “Lira Recreativa”. A organização e encenação de espectáculos mereceram-lhe igualmente dedicada atenção, já que bem sabia o valor do teatro na acção educativa, havendo registo de diversas exibições do “seu” Grupo Dramático até 1967.
Nunes da Rosa, o sacerdote e apreciado contista de “Pastorais do Mosteiro” e de “Gente das Ilhas” que privou com Garcia de Lemos Júnior descreveu-o assim: “Inteligente, estudioso e prático, dotado de uma forte envergadura de trabalho, ornada de vontade e persistência notáveis, é figura de destaque que muito honra o Concelho da Madalena e um dos seus melhores”.
Após prolongada doença, faleceu na sua residência em São Mateus em 27 de dezembro de 1968.Contava 69 anos de idade e deixou viúva a professora D. Maria da Conceição Ataíde de Oliveira, com quem casara em 30 de julho de 1920; era pai de D. Maria Zulmira Oliveira Garcia de Lemos esposa de Manuel Machado Soares de Melo Menezes Júnior, de D. Maria Alice de Oliveira Garcia de Lemos casada com Manuel Bettencourt Ferreira e de José Oliveira Garcia de Lemos casado com D. Cybele Ramos.












Muito interessante este artigo. É pena que o concelho ou a freguesia onde nasceu e tanto fez o tenham esquecido e nada tenham feito para o homenagear.