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Retalhos da nossa história – CLXXV – Encontro na Horta de duas pioneiras da aviação

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Nos primórdios da aviação, a cidade da Horta, em especial a baía e o porto artificial, tornaram-se, gradualmente, no primeiro grande aeroporto internacional do arquipélago dos Açores. Em 1927, ou seja no mesmo ano em que o hidroavião “Santa Maria II” do herói italiano Francesco de Pinedo estava no Faial de 30 de Maio a 10 de Junho, desencadeando uma enorme propaganda desta ilha e das suas condições naturais para a aviação, outros acontecimentos iriam projectar ainda mais a cidade da Horta.

Foi em Outubro daquele ano que as primeiras duas mulheres aviadoras se encontraram e conviveram no Faial. Uma delas, miss Lilli Dillenz, austríaca de nascimento que, como passageira, aqui chegou a bordo do hidro alemão “Junkers D 1230” que, vindo de Lisboa, amarou na Horta a 14 de Outubro e que era tripulado pelo piloto-chefe Starke, piloto Loose, navegador e telegrafista Loewe e montador engenheiro Flittner. A outra mulher, que aqui aportou um dia depois, foi a aviadora americana Ruth Elder que, com o piloto George Halderman, haviam sido salvos pelo navio holandês “Barendrecht” que os recolhera após uma forçada amaragem já nos mares dos Açores. 

Tanto os alemães do “D 1230”, como os americanos do “American Girl”, foram alvo das maiores atenções, quer da multidão que os vitoriou, quer das autoridades que os distinguiram com especiais homenagens.

Os “grandes raides aéreos” mereciam natural destaque na comunicação social, não só da pequena imprensa regional, mas também dos repórteres e dos correspondentes dos principais jornais europeus e americanos. Além dos registos dos Serviços de Pilotagem da Horta, são os jornais faialenses que nos descrevem, às vezes com excessivo pormenor, aquelas jornadas épicas dos pioneiros da aviação. 

A chegada do “Junkers D 1230” que andava “em viagem de experiências e estudos para o estabelecimento de carreiras comerciais” fez que “muita gente acorresse à muralha da cortina da cidade para o ver entrar”. Avistado no canal entre Pico e São Jorge, “veio em direcção à Espalamaca, voou sobre a parte norte da cidade descrevendo uma graciosa curva e, baixando até cerca de uns 20 metros, foi passar sobre a rua Serpa Pinto e, continuando a descer, poisou na bacia da doca, indo parar próximo do ancoradouro da canhoneira ‘Beira’, amarrando depois no fundeadouro das embarcações de recreio”. Este minucioso relato acentua que “a descida e a amaragem do hidroplano foi um espectáculo dos mais belos, dos mais graciosos a que temos assistido”. Não obstante a chuva que caía, “viam-se milhares de pessoas, tendo as que se encontravam no Canto de D. Joana para o sul saudado os exímios aviadores com prolongadas salvas de palmas”1. 

Acolhidos festivamente pela multidão, pelas entidades oficiais e por súbditos alemães empregados na estação telegráfica do cabo submarino, os aviadores ficaram instalados na residência de Otto Schroeder, director da estação e cônsul da Alemanha no Faial.

Logo na manhã do dia imediato, entrava no ancoradouro exterior, sob a direcção do piloto Herculano, o vapor holandês ‘Barendrect’ que “veio trazer os náufragos de um hidroavião americano, sendo uma mulher e um homem”2. Este telegráfico registo dos serviços de pilotagem refere-se à chegada dos sobreviventes do avião estado-unidense “American Girl”, precisamente Ruth Elder e George Halderman. O aeroplano americano largara na noite de 11 de Outubro de 1927 de Nova Iorque para Paris, mas no dia seguinte os motores começaram a funcionar mal e a aquecerem demasiado pelo que os aviadores, vendo que não podiam prosseguir viagem, optaram por uma amaragem de emergência junto do cargueiro holandês ‘Barendrecht’ a 360 milhas da Terceira que os salvou e os transportou até à Horta, onde desembarcaram na manhã de 15 de Outubro. Ainda a bordo receberam os cumprimentos do governador civil e de outras autoridades, bem como de representantes e correspondentes de jornais nacionais e estrangeiros. Desembarcando em seguida, Ruth Elder e George Halderman foram recebidos no cais de Santa Cruz com uma prolongada salva de palmas, hospedando-se, durante a curta permanência na Horta na residência de Mr. Mackey, director geral da Western Union, que, ainda na noite de chegada “deu uma soirée dançante em honra de Miss Ruth” que, salienta um jornal, “é uma linda rapariga, de 23 anos de idade, tendo já ganho alguns concursos de beleza”3.

 A chegada, quase simultânea, destes aviadores alemães e americanos, constituiu, naquele tempo, um feito notável de que se ocuparam detalhadamente os jornais, de que é exemplo O Telégrafo que titula em toda a sua primeira página: “Honra e Glória aos Aviadores” cujas proezas são explicadas nos subtítulos “Europa-América: A viagem do Junkers D 1230 / Lisboa- Faial em 10 horas” e “América – Europa / O ‘American Girl’ perdeu-se: Miss Ruth Elder e o capitão Halderman foram salvos”4. 

As colónias estrangeiras dos cabos submarinos – nomeadamente a alemã DAT e a americana Western Union – ofereceram vários passeios e organizaram festas em honra destes aviadores, que foram registadas em filmes e fotografias que, três dias depois, determinaram que o transatlântico americano “President Wilson” viesse expressamente ao porto da Horta para os levar e, assim, os divulgar nos grandes meios de comunicação social. Mais a mais, essas imagens mostravam Miss Ruth Elder e Madame Lilli Dilenz, as primeiras mulheres que cruzaram o Atlântico pelo ar, uma da América para a Europa e a outra da Europa para a América, ambas jovens, bonitas e aventureiras que, alegremente confraternizaram, “dando vários passeios juntas e beijando-se por ocasião de se despedirem”5. A 18 de Outubro os aviadores americanos, Ruth Elder e George Halderman seguiram no vapor “Lima” para Lisboa e daí viajaram para Paris.

 Entretanto, os alemães do “Junkers 1230” permaneceram na Horta, aguardando ocasião oportuna para prosseguirem a sua viagem até aos Estados Unidos. Aquele hidro fez várias tentativas de descolagem, mas só conseguia levantar voo quando o “aliviavam” de gasolina, impossibilitando-o por este motivo de seguir viagem. Apesar da potência dos seus três motores o peso total do aparelho era demasiado para poder descolar. Tentou levantar voo, pela última vez, a 28 de Novembro de 1927, mas não o conseguiu “devido ao seu muito peso e a algumas avarias que sofrera”, apesar de “o tempo estar esplêndido”. Ficou, assim, definitivamente, cancelada a projectada viagem para a América e o “Junkers 1230” – bem como o “Heinkel 1220” que aqui chegara a 5 de Novembro e que capotara, inutilizando-se, quando levantava voo no canal na madrugada de 13 desse mesmo mês – foi desmontado e encaixotado regressou, sem glória, até à Alemanha. Os seus tripulantes – incluindo Lilli Dillenz – bem como os desmantelados “Junkers 1230” e “Heinkel 1220”, voltaram à Europa, a bordo do navio alemão “Havenstein”. 

Aproveitando a sua passagem por Ponta Delgada, o jornal “Correio dos Açores” entrevistou Lilli Dillenz que lhe confiou pretende ir para a América, via Paris, a fim de aprender a pilotar, regressando à Europa, na Primavera, pelo ar, num aparelho “Junkers”. Encantada com a hospitalidade dos portugueses, disse que estivera na Horta “quase louca de impaciência – a impaciência de partir, voar, atingir a América! Ah, foram dias que nunca esquecerei! Mas essa impaciência não me fará esquecer as coisas belas e cheias de ‘charme’ que vi no Faial”6 . Sabe-se que ela realizou o seu sonho, como o realizaram, na década de 30 do século XX, os países que procuraram estabelecer carreiras aéreas regulares comerciais transatlânticas, com escala pela excelente baía da Horta. 

 

1 A Democracia, 15 Outubro 1927

2 Livro n.º 13 de Registo de Serviço de Pilotagem da Horta, fl. 31

3 O Telégrafo, 17 Outubro 1927

4 Idem, Ibidem

5 A Democracia, 18 Outubro 1927

5Cit. O Telégrafo, 4 Janeiro 1928

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