Vindo de Baltimore, amarou no ancoradouro exterior do porto da Horta, às 11 horas e 5 minutos de 27 de março de 1939, o “gigante quadrimotor” americano NC 18603 “Yankee Clipper”. Comandado pelo capitão Harold Gray, tinha mais 11 tripulantes: os pilotos A. E. Laporte, A. E. KalKwsky e J. W. Walker; os jovens aviadores Horace Brock e L. C. Lindsay; os engenheiros C. D. Wright, P. R. Comish e S. M. Kritser; os telegrafistas A. W. Beideman e R. P. Dathon e o despenseiro William Thaler.
O “Yankee Clipper”, que foi recebido por “alguns milhares de faialenses” trazia nove passageiros especiais que faziam a viagem como técnicos-observadores: Clarence M. Schildhauer, diretor dos serviços da Pan Am no Atlântico, Edmund E. Duff, diretor da Boeing Airplane Company, construtora do Clipper, Arthur B. Gayland, eng.º da Wright Aeronautical Corporation, fabricante dos grandes motores de 1.500 cavalos que equipavam aquele avião e, ainda seis representantes do governo americano.
Este voo tinha como fim principal permitir que o pessoal aeronáutico e dos serviços de apoio da Pan Am avaliasse as potencialidades das bases estabelecidas no ano anterior e os percursos escolhidos, examinasse as comunicações radiotelegráficas, os sistemas de informações meteorológicas e treinasse os empregados dos aeroportos na “forma de atender aos grandes barcos voadores”. Os aviadores e os passageiros, efusivamente saudados pela multidão ao desembarcarem no cais de Santa Cruz, “seguiram de automóvel para a messe da Western Union, onde se hospedaram”. Entretanto, o “Yankee Clipper” encostava à popa do rebocador tanque “Panair V-A” para o necessário abastecimento de 18 mil litros de combustível, fornecido pela firma António Pereira do Amaral & Filhos, agente na Horta da Vacum Oil. No dia imediato à chegada, aquele “luxuoso transatlântico do ar” foi visitado pelas autoridades e pelos jornalistas que se confessaram “maravilhados” pelo “espaço e conforto destinado aos passageiros”, aí predominando “o luxo e o bom gosto”1. O “gigantesco aparelho” dispunha “vários compartimentos para os passageiros, guarnecidos de fofos maples que podiam ser transformados em beliches”, um salão de jantar, “cozinha e copa e postos de socorros”. Além disso, possuía pequenas bancas para escrever, sala de fumo e todos os espaços tinham ventilação. Por baixo de cada maple encontrava-se “o competente colete de salvação” e possuía, “tanto para homens como para mulheres dois completos quartos de toilete”2.
O “Yankee Clipper” custara cerca de 700 mil dólares e havia sido batizado a 3 de março de 1939 por Eleanor Roosevelt, esposa do presidente dos Estados Unidos, era movido por quatro potentes motores de 1.500 cavalos cada e possuía um dispositivo que permitia verificá-los durante o voo. A envergadura das asas era de 46 metros, tinha 33 metros de comprimento e um raio de ação de 6.480 quilómetros. Além dos compartimentos reservados aos passageiros, dispunha de outros onde estavam instalados “os complicados serviços de navegação, comando radiotelegráfico, depósitos para carga e bagagens e acomodações para os tripulantes”3. Depois de permanecer três dias na baía da Horta, levantou voo às 7 horas e 20 minutos com destino a Lisboa, continuando assim a sua viagem preliminar que o levou da capital portuguesa até França (Marselha), Inglaterra (Southampton) e Irlanda (Faynes). Daqui, e pelo mesmo percurso, regressou aos Estados Unidos, tendo amarado na Horta a 14 de abril e, após o necessário reabastecimento, descolou no dia seguinte para Nova Iorque. Logo depois, um telegrama de Washington, dava conta de que o capitão Harold Gray, comandante do “Yankee Clipper”, fora recebido em audiência pelo presidente dos Estados Unidos para lhe entregar a miniatura de uma antiga caravela portuguesa oferta do sacerdote faialense João Pereira da Silva, “que há muitos anos se dedicava à construção de interessantes trabalhos em miolo de figueira” e a quem Franklin Roosevelt agradeceu através desta carta: Casa Branca, 25 de abril de 1939 / Meu querido Padre: Desejo que saiba como me sinto feliz por possuir este maravilhoso modelo de um velho barco português. É uma maravilha de habilidade e beleza, mais interessante ainda pelo facto – como me disseram – de haver sido feito de memória. Será um dos meus tesouros mais estimados (…)”4.
O sucesso deste voo preliminar do “Yankee Clipper” e a concessão dada pela repartição dos Correios dos Estados Unidos à Pan American para transporte de mala através do Atlântico Norte foram os últimos e decisivos passos para que os aviões desta companhia iniciassem as carreiras aéreas regulares entre os dois continentes com passagem pela Horta. Antevendo o que seria esse evento, o jornalista Manuel Greaves escrevia em O Telégrafo de 15 de maio de 1939 que a passagem, “via Faial, num dos próximos dias, da primeira mala aérea” merecia ser celebrada “como um grande sucesso mundial nos dois continentes do Atlântico-Norte”, pois “toda a correspondência que passa a bordo para a Europa, incluindo a que receber na Horta (cerca de 2.000 cartas) é chancelada com o dizer especial da Pan American Airways, memorando o notável acontecimento a que a imprensa mundial começou já a dar um interessante relevo”. O conceituado autor de “Aventu-ras de Baleeiros” acrescentava que o Atlântico Norte “que há meia dúzia de anos se julgava praticamente impossível de atravessar em carreira regular de mala e passageiros” seria vencido “pelo primeiro barco aéreo da frota da Pan Am”, à qual caberia a honra de inaugurar “o correio da América para Lisboa, sob as melhoras garantias de segurança facultadas pelos mais modernos sistemas de aviação”. Tudo isto era possível, acentuava Manuel Greaves, porque “neste ponto do oceano existem as baías de água mansa, necessárias para alimentar os seis mil cavalos de potência dos grandes motores dos Clippers, as quais darão o mar calmo, aonde for preciso escolher, para a operação de abastecimento de combustível”. Lembrava ele que há muito afirmava não haver “outros locais nos Açores propícios à manobra, o que, afinal, foi reconhecido pelos mais distintos técnicos que procederam aos seus estudos nesta ilha”. Não decorreria uma semana para que, finalmente, se iniciassem as carreiras regulares da Pan American entre o Novo e o Velho Mundo, transportando correio aéreo e passageiros.
1 O Telégrafo, 29 Março 1939
2 Correio da Horta, 30 Março 1939
3 O Telégrafo, 29 Março 1939
4 Correio da Horta, 17 Maio 1939











