Retalhos da nossa história – CLXXXIII – Os voos da Pan American pela baía da Horta (3)

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Procedente de Port Washigton amarou na baía da Horta na madrugada de 21 de maio de 1939 o avião “Yankee Clipper” da Pan American Airways que transportava, pela primeira vez, mala de correio para o continente europeu. Aquela data marca o início das carreiras aéreas regulares entre os Estados Unidos e a Europa e, simbolicamente, recorda que no mesmo dia do ano de 1927 o célebre aviador Charles Lindberg chegara a Paris e que 20 anos antes – precisamente a 17 de maio de 1919 – a capital faialense havia sido protagonista da primeira travessia aérea do Atlântico realizada pelo capitão Albert Read.

A viagem do “Yankee Clipper” inaugurava o serviço postal aéreo que, em 28 de junho, seria completado com o transporte regular de passageiros pelo “Dixie Clipper”. De meados de 1939 até finais de 1945 foram centenas as viagens realizadas pelos aviões da Pan American ligando os Estados Unidos e a Europa, utilizando a Horta como indispensável ponto de escala.

 Voltando àquele notável acontecimento de maio de 1939, os dois diários faialenses exultavam com a chegada do avião da Pan American. O “Correio da Horta” do dia 22 titulava, comedidamente, que o “Yankee Clipper passou ontem com o primeiro correio”, ao passo que O Telégrafo não continha a sua exuberância: “O Faial e a Aviação/ O Yankee Clipper iniciou brilhantemente a condução do primeiro correio aéreo com escala pelo aeroporto da Horta onde a sua tripulação foi festivamente recebida”. Depois de uma viagem que durou 13 horas e 30 minutos, o avião da Pan American amarou nas tranquilas águas da baía da Horta na madrugada de domingo, 21 de maio de 1939, “quando o ronco dos potentes motores acordou os seus habitantes que acorreram ao cais de Santa Cruz para prestar uma carinhosa receção aos distintos pilotos do grande barco voador”. Trazia 17 pessoas, destacando-se o seu comandante A. E. La Porte e o piloto C. A. Larbar, bem como o coronel J. Carrol Cone, superintendente dos serviços da Pan American Airways no Atlântico Norte. O dia estava magnífico, associando-se a Natureza “ao nosso contentamento com uma manhã de maravilha, em que o Pico se mostrou com a imponência dos grandes dias. O nosso porto apresentava daí a instantes um ar festivo, vendo-se todas as embarcações embandeiradas, formando em seguida um longo cortejo, conduzindo muito povo e duas filarmónicas que circundaram o “Yankee Clipper” num abraço amigo”. No cais de Santa Cruz, “uma estrondosa salva de palmas recebeu os tripulantes do luxuoso transatlântico do ar”, a que se seguiu uma breve cerimónia de boas vindas em que falaram Moisés Benarús, representante da Associação Comercial da Horta e antigo vice-cônsul americano no Faial, tendo-lhe agradecido o superintendente da Pan American. Foi uma “manifestação simples mas bem sincera e entusiástica com que os faialenses marcaram um dos acontecimentos mais importantes para a vida do nosso aeroporto, ao qual está destinado um longo futuro”1.

Logo após a amaragem e o desembarque da tripulação e da carga, o “Yankee Clipper” foi reabastecido com 5 mil e 800 litros de combustível numa operação que demorou apenas 39 minutos. Além dos oficiais e do coronel Cone que visitaram a estação local da Pan Am e algumas companhias telegráficas, foram desembarcados vários volumes com 16 mil cartas para serem seladas e carimbadas na estação dos correios da Horta, serviço que foi concluído em apenas três horas e meia. Estes “mesmos volumes foram desembarcados em Lisboa, a fim de serem também selado com novas estampilhas, consoante o destino das cartas, e carimbadas igualmente. “Para a selagem das 16 mil cartas desembarcadas, a delegação local da Pan Am adquiriu na Horta e nas estações postais do Pico cerca de 32 mil selos de diversas taxas, no montante de 40 contos. O “Yankee Clipper” conduzia a bordo o grosso da mala que, junto à que desembarcou, perfazia cerca de 1 milhão e 300 mil cartas, no valor aproximado de 15 mil contos”. Na Horta recebeu quatro sacos com cerca de 2 mil cartas destinadas a Lisboa, França, Inglaterra e Irlanda. Estes números impressionam pela sua grandeza e traduzem, igualmente, o enorme significado filatélico desta viagem. 

O sucesso do primeiro “correio aéreo transatlântico” muito ficou a dever à ilha do Faial. Além da descrição do acontecimento, a imprensa da época assinala o dia 21 de maio de 1939 como uma “data de relevo histórico”. É, aliás, com este título que o apreciado e frontal Rui Barbo (pseudónimo do farmacêutico Domingos Garcia) se pronuncia sobre as “festivas manifestações” após a chegada do Yankee Clipper, esse “grande transatlântico do ar, portador da primeira mala aérea”. Houve, segundo ele, “sincero e entusiástico regozijo”, até porque não surtiram efeito as “mesquinhas campanhas” que haviam procurado desviar do Faial para outras paragens açorianas a base da Pan American, “em nova edição de outras urdidas quando da escolha desta ilha (…) para amarração de cabos” [submarinos], fazendo dela o “mais importante centro telegráfico do Mundo”. É que esses estratagemas, acrescentava ele, muito usados “cá por casa”, “não pegam no espírito dos estrangeiros, gente que sabe o que quer e fundamenta sempre as suas resoluções ‘apenas’ nas observações diretas, vendo, portanto, pelos seus próprios olhos”. Porque, de facto assim é, “e ainda porque tais processos não conseguem anular as condições especiais prodigalizadas pela Natureza e melhoradas pelo Homem, condições sem iguais nem semelhantes nos Açores, tais como baías várias, de bom abrigo natural, e, principalmente, a amplidão e segurança da baía da Horta, é que escolhida foi esta para o reabastecimento dos transatlânticos do ar”2. 

Como, poucos dias antes escrevera Manuel Greaves, o que até há pouco se julgava praticamente impossível, começou a ser realidade a 21 de maio, tendo prosseguido ao longo de 1939 e dos anos seguintes com centenas de voos dos Boeing B- 314 da Pan American –os simbólicos e famosos Clippers – a transportarem correio e passageiros nas suas carreiras regulares no Atlântico Norte. Indicam-se os nomes e as matrículas dos que foram utilizados nessas viagens, a começar pelo “Yankee Clipper”(NC 18603) seguindo-se-lhe os que se foram tornando familiares aos faialenses: o “Atlantic Clipper” (NC 18604), o “Dixie Clipper”(NC 18605), o “American Clipper”(NC 18606), o “California Clipper”(NC 18602), o “Pacific Clipper” (NC 18609 A), o “Anzac Clipper”(NC 18611 A) e o Capetown Clipper (NC 18612 A)”.

 

1 O Telégrafo, 23 maio 1939 

2 Idem, 31 maio 1939