Retalhos da nossa história – CLXXXV – Os voos da Pan American pela baía da Horta (conclusão)

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O ano de 1939 marcou o início das carreiras aéreas regulares da Pan American Airways dos Estados Unidos para a Europa utilizando a ilha do Faial – e frequentemente as Bermudas – para as imprescindíveis escalas de reabastecimento de combustíveis, descanso e mudança das tripulações, já que as viagens transatlânticas eram bem mais demoradas do que hoje. 

Durante sete anos, por sinal coincidentes com o desenrolar da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Pan American serviu-se com regularidade da baía da Horta nos seus voos voos bissemanais de Nova Iorque para Lisboa. Para tanto teve de contratar com o Governo de Portugal as condições desse uso e de montar na capital faialense os imprescindíveis serviços de apoio, quer no porto quer em terra, de que se destacam: a colocação de boias para amarração das aeronaves e das suas lanchas Panair V-A (com tanque de combustíveis para os Clippers) e Panair IV-A (para transporte de passageiros e tripulantes), a construção do passadiço e da ponte-cais (junto ao ‘cais velho’ para desembarque e embarque dos viajantes) e o estabelecimento de escritórios, depósito de equipamentos (na antiga “Relva”, em frente ao forte de Santa Cruz), refeitório e alojamento na messe da companhia telegráfica americana Western Union. 

O funcionamento desta base da Pan Am implicou a vinda para a Horta de pessoal técnico e dirigente devidamente especializado e levou também à crescente contratação de faialenses para seus empregados. Os americanos que ao serviço da Pan Am viveram alguns anos no Faial tinham de requerer autorização de residência ao governador do distrito, que, invariavelmente, as concedia através dos chamados “títulos de residência”, os quais eram devolvidos aquando da partida do respetivo titular. Na interessante exposição montada na “Casa Manuel de Arriaga” e que de maio a setembro deste ano assinalou o 75.º aniversário da Pan Am no Faial, notamos que em 1941 estavam na Horta os seguintes funcionários daquela companhia:

– Albert William Anderson, diretor da Pan Am, natural de Rhode Island, solteiro, de 25 anos; Verne Roland Fulner, adjunto do diretor, da Carolina do Sul, solteiro; William Horace Marshal, adjunto do diretor, do Texas, casado, de 23 anos; William Andrew Barton, gerente do aeroporto da Horta, do Texas, solteiro, de 23 anos; Harold Norman Egger, do Texas, observador marítimo, solteiro, de 24 anos; John Deming Potter, de Chicago, engenheiro eletricista, casado, de 26 anos; Winton Edmund Modin, radiotelegrafista, solteiro, de 25 anos; Allen Eugene Cole, de Nova Iorque, meteorologista, solteiro, de 26 anos; Francis Patrick Salleger, mecânico da aviação, solteiro, de 30 anos. Por estes elementos verificamos que eram altamente qualificados, bastante jovens e quase todos solteiros. 

Na falta de outros “títulos de residência” e sabendo que houve frequente rotação dos seus funcionários, podemos deduzir que ao longo dos anos outros quadros técnicos e administrativos da Pan Am prestaram serviço no “aeroporto” do Faial, vivendo e convivendo não só com a população local, mas também com os funcionários das companhias telegráficas estrangeiras, com os milhares de militares portugueses nela estacionados e com os tripulantes dos muitos navios de guerra aliados que passaram na base naval da Horta, então “o porto melhor protegido e mais usado de Portugal”1. Não obstante a devastação provocada pelo conflito mundial – também com nefastas consequências económicas e sociais em Portugal – certamente que, na ilha do Faial, uma boa parte da população pôde usufruir de um nível de vida bastante aceitável.

Nos anos em que a Pan Am esteve no Faial houve inúmeros factos e acontecimentos merecedores de serem recordados. Apenas alguns:

• Os Clippers passaram na Horta 1306 vezes, nas suas viagens de e para os Estados Unidos; os anos de 1940 e 1941, com 329 e 361 “toques”, respectivamente, foram os de maior movimento, ao passo que o de menor frequência foi o de 1943, com apenas 962.

• O primeiro avião a passar na Horta foi o Yankee Clipper que aqui amarou a 27 de março de 1939, trazendo a bordo, além do comandante Harold Gray e mais 11 tripulantes, nove técnicos-observadores que vinham avaliar o comportamento da aeronave e as condições da baía da Horta como ponto de escala para as suas viagens bissemanais.  

• Coube ao mesmo Yankee Clipper, desta vez sob o comando do capitão Arthur La Porte, iniciar as viagens comerciais entre os Estados Unidos e a Europa, tendo amarado na Horta a 21 de maio de 1939, inaugurando o serviço postal aéreo que, em 28 de Junho seria completado com o transporte regular de passageiros pelo Dixie Clipper, sob os comandos de Ronald Sullivan. 

•  O sucesso da Pan Am foi bastante rápido, pois no dia 18 de dezembro de 1939 completava a 100.ª travessia aérea do Atlântico com a chegada a Port Washington do “American Clipper”, havendo já transportado, na linha que passava pelo Faial, 1.800 passageiros e milhões de cartas, postais e encomendas. 

• Com a chegada do inverno de 1939 a Pan Am teve de defrontar-se com as primeiras grandes dificuldades da sua escala na Horta. Foi o que sucedeu com os 34 passageiros transportados da Europa para os Estados Unidos nos aviões “Dixie Clipper” e “Atantic Clipper” chegados de Lisboa a 23 de dezembro e que, devido às péssimas condições atmosféricas, tiveram de passar no Faial as festas de Natal e Ano Novo de 1939/1940. A longa permanência de 11 dias fez com que três deles – a Condessa Jane Gradenigo, o Visconde Pedro Domecq e o magnata do petróleo Max Thornburg – reunidos na taberna de António Faria idealizassem, no meio do tédio e da boémia, o jornal de uma só página “The Horta Swell” de que saíram seis números, impressos na gráfica de “O Telégrafo”. Não obstante as tentativas feitas, aqueles dois aviões só conseguiram sair da Horta a 3 de janeiro, mas 25 dos seus passageiros optaram por ficar e seguir, no dia 8 de janeiro de 1940, no transatlântico italiano “Rex” expressamente contratado pela Pan Am para fazer tal serviço. “The Horta Sweel”, além de sarcástico e efémero jornal de parede, foi, durante largos anos do século XX, uma “confraria” de significativo grupo de faialenses entusiastas amigos de Baco e do convívio.

• Um bilhete de passagem Horta/Lisboa custava inicialmente 106 dólares, o que impedia a utilização dos serviços da Pan Am pela generalidade dos açorianos. Daí a razão por que, a partir de 1941, esta companhia tenha promovido sucessivas tarifas bastante mais apelativas, chegando o preço das “passagens especiais para o Verão” a ser de 45 dólares – 1.139$00 (ida ou volta) e 81 dólares – 2.050$00, nos dois sentidos3. Tais medidas tiveram resultados imediatos, saldando-se num grande aumento de passageiros embarcados e desembarcados no “aeroporto” da Horta.

• Os dois primeiros faialenses a viajarem num avião da Pan Am terão sido o conceituado médico e político Dr. Manuel Francisco das Neves Jr. com sua esposa Maria Rodrigues Neves4, que a 3 de Março de 1940 seguiram para Lisboa no “Yankee Clipper”. Posteriormente muitos foram os que utilizaram os Clippers nas suas idas à capital portuguesa, nomeadamente governadores civis, médicos, empresários, políticos, militares, arquitectos ou estudantes universitários.

• Vários milhares foram os passageiros em trânsito que tiveram ocasião de visitar a cidade da Horta. Entre tantos banqueiros, homens de negócios, diplomatas, políticos, advogado e artistas, destacam-se alguns dos mais famosos: Arquiduque Otto de Habsburgo; Joseph Kennedy, embaixador dos USA em Londres (pai do presidente John Kennedy); actor Tyrone Power; Imperatriz Zita e princesa Elisabeth; Clement Attlee, chefe do Partido Trabalhista e futuro primeiro ministro do Reino Unido; René Clair, actor e cineasta francês; Dorothy Mackail, actriz; Alexander Kerensky, político russo, Eric von Stroheim, actor e realizador de cinema; condessa Jane Gradenigo; Max Thornburg, magnata do petróleo; Pedro Domecq, empresário espanhol; Paul van Zeeland, chefe do governo belga; Alma de Seyfried, pianista inglesa e Wendel Wilkies, líder do Partido Republicano dos Estados Unidos.

• O tempo de permanência da base da Pan Am no Faial coincidiu com o decurso da Segunda Guerra Mundial. Os avanços tecnológicos por ela desencadeados e a construção pelos ingleses e americanos dos aeroportos das Lajes e de Santa Maria apressaram o fim do chamado “aeroporto” da Horta. Os hidroaviões foram sucessivamente destronados por aviões de rodas até que a 20 de novembro de 1945 se realizou a última viagem de uma aeronave daquela companhia americana. Fê-la o “American Clipper” que vindo da Bermudas amarou pelas 7 horas e 40 minutos do dia 17 e, passados três dias saiu para Lisboa às 11horas e 25 minutos. 

• Em dezembro de 1945 o diretor da Pan Am no Faial, Mr. Charles M. Bounds tornou público o termo das operações daquela companhia, agradeceu à imprensa do Faial “as finezas dispensadas” e reiterou “ao povo desta Ilha que a Pan American se sente sensibilizada pela forma carinhosa porque foram tratados todos os que por ela trabalharam durante o tempo que os seus aviões escalaram este porto”5. 

• Era o fim de uma era de intenso movimento de navios e aviões no porto da Horta, com a Pan Am a fazer escala no moderno aeroporto de Santa Maria na sua carreira diária entre Nova Iorque, Lisboa e Marselha utilizando potentes quadrimotores de transporte de carga e passageiros.

Por força dos avanços tecnológicos, o Faial deixou de ser o entreposto indispensável na ligação entre o Velho e o Novo Mundo mas o seu nome ficou – e está – indelevelmente ligado à história da aviação. 

1 Telo, António José, A importância estratégica do porto da Horta do século XIX ao XXI, in “O Tempo dos Cabos Submarinos”, p.33, Horta 2011

2 Estes e outros dados podem ser obtidos em “O Faial na História da Aviação”, de Carlos M. Ramos da Silveira, in “Arquivo Açoriano/ Enciclopédia das Ilhas dos Açores”, vol.16.º, 1972. Também relacionado com esta temática, o mesmo autor publicou: “The Horta Swell /uma história por contar, 1995 e, em parceria com Fernando Faria, “Apontamentos para a História da Aviação nos Açores”, 1986.

3 Correio da Horta, 11 Maio 1944 

4 Idem, 4 março 1940

5 O Telégrafo 22 Dezembro 1945