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Retalhos da nossa história CCLXVI – Rua Serpa Pinto lembra indignação da Horta contra a Inglaterra

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A pretensão portuguesa de fixar, no final do século XIX, novas fronteiras no Império africano ficou conhecida por “Mapa Cor-de-Rosa” e visava a ligação terrestre de Angola a Moçambique, integrando assim no território português vastos domínios pertencentes a agressivos potentados indígenas, também cobiçados pela Inglaterra, então a maior potência mundial. 

Os historiadores discutem ainda hoje o que, na verdade, pretenderia o governo português com o “Mapa Cor-de-Rosa”. Seria para construir um grande império de costa a costa – uma espécie de um “Brasil africano” – ou seria o pretexto para Portugal se libertar da tutela inglesa que desde as invasões napoleónicas se tornara, por vezes, asfixiante?
Seja como for, a pretensão portuguesa chocava com os desejos britânicos de ligar o Cairo (Egipto) ao Cabo (África do Sul). E como a diplomacia não resolveu o contencioso entre os dois países, o governo inglês fez, a 11 de Janeiro de 1890, um ultimato exigindo que o governo português “desse instruções telegráficas imediatas” para que as forças lusitanas comandadas pelo major Serpa Pinto retirassem “imediatamente” do território correspondente ao actual Malawi. O Conselho de Estado, presidido pelo rei D. Carlos, acabou por ceder, tentando assim evitar “uma ruptura iminente de relações com a Grã- Bretanha e todas as consequências que dela poderiam talvez derivar-se”.
A crise do ultimato provocou no País uma generalizada onda de indignação que, embora com algum atraso, também se manifestou na cidade da Horta.
Para se perceber até que ponto ia essa indignação popular contra a Inglaterra, atente-se nesta proposta que o vereador Silva Greaves apresentou na reunião de 13 de Fevereiro de 1890 da Câmara Municipal da Horta: “Tendo o país na maior conta os relevantes serviços prestados à causa da civilização africana pelo major Serpa Pinto e como protesto solene contra o procedimento brutal da Inglaterra que abusando do direito da força, desprezou a força do direito que Portugal tem ao vale do Chire e territórios circunjacentes, proponho que para perpetuar o patriotismo daquele benemérito da pátria se fique denominando Serpa Pinto a rua do mercado, desta cidade.” A Câmara, “identificada com esta proposta plenamente a aprovou, resolvendo mandar vir uma lápide com o nome do ilustre explorador para ser colocada no lugar competente”1.

A reforçar a posição da edilidade e, em perfeita sintonia com as manifestações que percorreram todo o país, assumindo o carácter de luto nacional, verifica-se na acta da sessão imediata, ou seja a de 20 de Fevereiro, que foi presente à Câmara uma “Representação” assinada por 96 cidadãos “pedindo para que a rua do mercado desta cidade passe a denominar-se Rua Serpa Pinto, como preito aos sentimentos patrióticos com que o ilustre africanista tem pugnado pela causa da justiça e tem sabido desafrontar a pátria, mantendo o direito que ela tem às possessões da África Oriental”. A Câmara acolhe com entusiasmo “esta patriótica demonstração dos seus munícipes para com o valente oficial do exército português” e não deixa de assinalar a sintonia desta posição com a deliberação que tomara na sessão anterior sobre a proposta do vereador Silva Greaves. Isso, porém, não a inibe de “apreciar o sentimento dos signatários com ela identificados”. E porque “esta uniformidade de sentir é ainda um novo penhor do muito apreço em que este Concelho tem os actos de bravura e patriotismo do valente e brioso oficial, resolve que na acta da presente sessão sejam transcritos na íntegra a representação e todas as assinaturas que a firmaram”. A petição tem a data de 17 de Fevereiro de 1890 e os 96 cidadãos que a subscrevem são, sobretudo, políticos, comerciantes, proprietários, professores, jornalistas e funcionários que condenam o acto de “selvagem prepotência com que a Inglaterra quer assenhorear-se de domínios nossos na África” e enaltecem o valor e a heroicidade de Serpa Pinto que “não dobrou a cerviz ante o colossal leopardo britânico”. Pedem, por isso à Câmara que a rua do mercado “fique doravante denominada “Rua Serpa Pinto”2.
Esta onda de indignação que alastrou de forma vibrante por todo o País, manifestou-se entre nós, não só na toponímia, mas também em veementes artigos e notas publicados nos jornais, em bazares e em subscrições locais destinadas a “incorporar-se na grande subscrição nacional para defesa do país”3. Foi generalizada a aversão contra a Inglaterra.
A atestar o sentimento de protesto de toda a Nação, ainda hoje, ali está na baixa da cidade da Horta, a Rua Serpa Pinto em demonstração de que os nossos antepassados também viveram esse momento único que levou Henrique Lopes de Mendonça e Keil do Amaral a escrever e compor A Portuguesa que, 20 anos mais tarde, passaria a ser o nosso hino nacional, quando a desacreditada monarquia foi substituído pelo regime republicano.

(O autor escreve segundo
 a antiga ortografia)

 

1 B.P.A.R.H. Livro de Vereações n.º 44, fl. 63
2 Idem, Ibidem, fl. 65
2 Além da realização de um Bazar, organizaram-se subscrições públicas que tiveram larga adesão e que se mantiveram por alguns meses, a avaliar pelas várias informações dos semanários locais “O Fayalense “, “O Atlântico” e “O Açoriano”. 

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