Dos poucos títulos de Visconde atribuídos no século XIX a cidadãos residentes no Faial, o primeiro deles recaiu numa personalidade que, por ironia do destino, nascera na cidade de Lisboa em 4 de Setembro de 1814. Chamava-se Manuel Alves Guerra e fixara-se na Horta por volta de 1828, aqui sucedendo a seu irmão Rodrigo Alves Guerra na administração do Contrato do Tabaco, entregando-se intensamente à vida dos negócios que desenvolveu em larga escala e que lhe granjearam fortuna assinalável.
Ocupou, portanto, elevada posição no comércio, na política e na sociedade.
Integrou o Partido Histórico, chegando a líder distrital em meados de oitocentos, e esteve na génese da Associação Comercial da Horta em 26 de Setembro de 1881, sendo eleito presidente da primeira direcção que integrava negociantes de grande vulto: Walter Bensaúde, Herbert Dabney, Rodrigo Alves Guerra, Manuel José de Sequeira, Manuel Joaquim da Silva Menezes, António de Lacerda Bulcão Júnior (secretário) e José Caetano de Resende (tesoureiro). Foi agente do Crédito Predial Português, do Banco de Portugal, da companhia de seguros Fidelidade e presidente do Tribunal do Comércio.
Eram famosas, na Horta do século XIX, as recepções que dava no palacete de Sant’Ana que mandara construir e que ainda hoje é referência incontornável no património arquitectónico da capital faialense. Uma das festas mais distintas que lá promoveu foi o baile realizado a 9 de Novembro de 1858 em honra do Infante D. Luís, então Duque do Porto e futuro Rei de Portugal. Cativado pela hospitalidade que lhe fora proporcionada, o príncipe, que inesperadamente subiu ao trono em virtude da prematura morte do monarca seu irmão D. Pedro V, não demorou em distinguir Manuel Alves Guerra com o título de Barão de Sant’Ana (decreto de 11 de Julho de 1863) e depois com o de 1.º Visconde de Sant’Ana (decreto de 16 de Agosto de 1870). Estas e outras mercês significavam o elevado reconhecimento devido aos actos de filantropia por ele praticados no decurso das graves crises alimentícias que assolavam as populações das ilhas do Faial e do Pico. Refira-se, apenas como exemplo o facto que o escritor açoriano Augusto Ribeiro relatou no Almanaque dos Açores de 1873: “Estendera as suas cruentas garras o génio infernal da fome sobre milhares de criaturas, no Faial e Pico; nem milho, nem outro género de baixo preço havia exposto á venda ali! Os horrores da fome pungiam de desesperança e de desespero os aflitos corações!”. Mas como maná que chovesse do céu, chega ali uma galera com um carregamento de arroz, entrada para refrescar, e com destino à Inglaterra”. O Visconde de Sant’Ana propôs-se logo comprar todo o arroz. Todavia, “como a venda na Inglaterra podia produzir mais do que aquela feita no Faial” responsabilizou-se “perante o vice-cônsul inglês por qualquer diferença que pudesse haver se o carregamento fosse vendido na Inglaterra”, E, acrescenta, o articulista do Almanaque dos Açores, que “ainda não satisfeita a sua alma generosa e sensível, ofereceu para ser distribuído pelos necessitados o excedente havido na venda, importando em avultada quantia e o interesse que tirou de 100 sacas compradas” .
Largos anos depois deste episódio, e já no declinar da sua existência, deparamos com o Visconde de Sant’Ana, então governador civil substituto em exercício, a desenvolver intensa actividade solidária junto das populações do Faial e Pico vítimas do violento e devastador ciclone de 28 de Agosto de 1893.
Além de governador civil, o 1.º Visconde de Sant’Ana foi, durante anos, presidente da Junta Geral e membro do Conselho do Distrito. Por muito tempo exerceu também as funções consulares da Bélgica – com jurisdição em todas as ilhas exceto São Miguel – da Suécia e Noruega e do Brasil. Em recompensa dos serviços prestados recebeu várias condecorações, nomeadamente a medalha n.º 4 das Campanhas da Liberdade (fora Alferes do 1.º Batalhão de Voluntários), cavaleiro da Ordem de Cristo (1845), cavaleiro da Ordem de N.ª Sr.ª da Conceição de Vila Viçosa (1859), comendador da Ordem de Cristo (1861), oficial da Ordem de São Maurício e São Lázaro, de Itália, cavaleiro da Ordem de Leopoldo, da Bélgica, e cavaleiro de 1.ª classe da Real Ordem de Wasa, da Noruega.
Tendo nascido em Lisboa a 4 de Setembro de 1814, filho de Manuel Alves Guerra e de D. Maria do Carmo Guerra, viria a falecer, no estado de solteiro, no seu palacete de Sant’Ana, às 10 horas da manhã de 25 de Fevereiro de 1895, contando, portanto, 80 anos de idade. Segundo escreveu a imprensa faialense desse tempo, era “vulto respeitável” e um “homem importante que dava honra e crédito ao comércio da nossa praça” e que “gozou sempre toda a consideração e estima por parte de todos os que o conheceram” . Daí que “além de todas as outras demonstrações de sentimento que nesta tão triste e solene ocasião” lhe foram prestadas “comoveu-nos o vermos os honrados filhos do povo, de que se compõe uma irmandade do Espírito Santo, que tem seu Império na rua de Sant’Ana, irmandade de que s. ex.ª foi um dos fundadores, conduzirem à mão o féretro, desde a capela ardente, armada na residência de Sant’Ana, onde morava o ilustre titular, até à igreja da Ordem 3ª do Carmo, a cuja ordem o sr. Visconde pertencia, sendo um dos mais conspícuos benfeitores” . Além dos irmãos do Império de Sant’Ana e da filarmónica Artista Faialense, no préstito fúnebre e no ofício de corpo presente e de responso executado pela capela da Matriz, “viam-se pessoas de todas as classes sociais”, tendo, sucessivamente, pegado as alças do caixão António Luís de Sena, agente consular de Itália, João Álvaro da Silva, director da Alfândega, José Coelho de Andrade e Santos, delegado do Tesouro, José Rodrigues, vice-cônsul do Brasil, Manuel Araújo Brocas, comandante militar, conselheiro Manuel Francisco Medeiros, médico e político, Eduardo Laemert Bulcão, gerente da Casa Bensaúde, Dr. José Bressane Leite Perry, jurista e político, Guilherme Augusto de Mesquita Henriques e José Ventura, negociantes, e Florêncio Terra e Manuel Zerbone, professores liceais e escritores.
Não tendo filhos, legou, em testamento feito em 21 de Janeiro de 1895, a sua imensa fortuna a diversos familiares e a instituições de beneficência: aos sobrinhos Rodrigo Alves Guerra e Manuel Alves Guerra (2.º barão de Sant’Ana) deixou o palacete “com todas as suas dependências e reduto de setenta e sete ares de terreno plantado de arvoredo”, metade a cada um; outros sobrinhos e sobrinhas foram contemplados com valiosa importâncias em dinheiro, bem como rendas anuais em foros, impostos em prédios rústicos na cidade da Horta e várias freguesias rurais; também os Asilos da Mendicidade e da Infância Desvalida receberam 50$000 reis, cada um. Pedia, no início daquelas disposições testamentárias, que, “por sua alma e pela dos seus falecidos pais, irmãos e mais parentes” se celebrassem “vinte e cinco missas e que todos os anos no dia do aniversário da sua morte se mande rezar uma missa na ermida de Sant’Ana contígua à sua casa” .
A rua Visconde de Sant’Ana perpetua-o na toponímia da cidade da Horta. Essa distinção foi tomada pela Câmara Municipal, na sessão de 12 de Maio de 1880, e em reconhecimento da “eficaz cooperação que no ano de 1863, espontaneamente foi prestada pelo Exmo. Visconde de Sant’Ana, por ocasião das novas construções da rua de Sant’Ana e outras, oferecendo para coadjuvar as mesmas um donativo de cem mil reis e abonando generosamente as férias que se elevaram a seiscentos mil reis” .











