Retalhos da nossa história – CXXXIV | Governador João António Cochado Martins

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Nos dois anos do atribulado reinado de D. Manuel II, Portugal conheceu seis Ministérios, alguns tão curtos que nem tempo tiveram de mudar os seus representantes nos distritos. Foi o que sucedeu no da Horta que, em igual período, teve apenas quatro governadores civis: João Joaquim André de Freitas (14.3.1908-14.1.1909), Visconde de Leite Perry (14.1.1909-11.1.1910), João António Cochado Martins (11.1.1910-25.6.1910) e António Emílio Severino de Avelar (29.6.1910-5.10.1910). Destes quatro, apenas falta fazer a abordagem biográfica do capitão João António Cochado Martins, o penúltimo governador da Monarquia. Nomeado pelo Governo de Veiga Beirão, sendo ministro do Reino Francisco Felisberto Dias Costa, prestou juramento a 14 de Janeiro de 1910

[1].

Natural do Algarve, nasceu em Silves no dia 12 de Dezembro de 1862 e ingressou nas Forças Armadas em 1882. Assentou praça como voluntário no Regimento de Infantaria 15, tendo cursado a Escola do Exército. Oficial da arma de Infantaria, foi sucessivamente promovido a alferes em 1888; tenente, 1895; capitão, 1901; major, 1911; tenente-coronel, 1915 e coronel em 1917; passou à reserva em 1919 e atingiu a reforma em 1932.[2]

Feito governador pelo Ministério progressista de Veiga Beirão, veio substituir o Visconde de Leite Perry que, apesar de regenerador indefectível, estivera à frente do distrito em três Ministérios, designadamente no de Campos Henriques (regenerador), no de Sebastião Teles (progressista) e no de Wenceslau Lima (ex-regenerador). A instabilidade política era de tal ordem que, de crise em crise, de governo em governo, de prepotência em prepotência e de escândalo em escândalo, o poder central não tinha condições nem tempo para mudar as chefias distritais. Foi um pouco de tudo isto que se passou no distrito da Horta, onde desde André de Freitas pontificavam os poderosos políticos regeneradores liderados pelo conselheiro Severino de Avelar e apoiado pelo médico Manuel Francisco Neves e pelo genro Visconde de Leite Perry. Além disto, os progressistas locais, depois da morte, em 1906, do seu chefe conselheiro Miguel António da Silveira, estavam desorganizados e, tal como acontecia a nível central, também se digladiavam em facções e dissidências, que mais os enfraqueciam.

É neste quadro que se compreende a satisfação com que foi acolhida nas hostes progressistas a nomeação do capitão Cochado Martins, a qual contou com a prévia concordância do líder distrital Miguel da Silveira (filho e sucessor do falecido Conselheiro) que nessa ocasião se encontrava em Lisboa e que, por sinal, regressou ao Faial no mesmo vapor em que viajou o novo governador. Para os progressistas locais era, de acordo com O Fayalense de António Baptista, um sucesso que não só os libertaria das “garras” dos adversários como iria permitir a revitalização do próprio partido – pondo fim aos divisionismos estéreis – e a inscrição de novos e valiosos militantes. Estas circunstâncias reflectiram-se na imprensa local, com O Telégrafo, então mais próximo dos regeneradores a noticiar secamente a nomeação, a chegada e a posse de Cochado Martins, em contraste com o entusiasmo e o contentamento que, em edições sucessivas, estão patentes em O Fayalense.

Este diário, totalmente alinhado com os progressistas e em permanente combate com a liderança regeneradora, não poupou adjectivos nos elogios ao novo governador e aos respectivos correligionários. Assim, ao noticiar a sua chegada à Horta em 27 de Janeiro, O Fayalense qualifica-o de “ilustre oficial de infantaria” cuja nomeação “para tão alto e importante cargo” fora aceite “do melhor grado” pelo “nosso prezado amigo e simpático chefe do partido progressista do distrito, sr. Miguel da Silveira”. A recepção é pormenorizadamente descrita, sendo referido que, logo que o Funchal ancorou, seguiram para bordo, na galeota da alfândega, o secretário-geral Dr. Urbano Prudêncio da Silva e os membros da comissão executiva do partido progressista local, Visconde Borges da Silva, Francisco Pereira Ribeiro Jr., Jaime Soares de Melo, João Augusto Laranjo, Francisco Pamplona Corte Real e José Pereira Macedo. Após os cumprimentos de boas vindas, “acolhidos com extrema amabilidade” pelo governador, seguiu-se o desembarque no cais de Santa Cruz, “onde era aguardado por grande número de adeptos do mesmo partido que o saudaram afectuosamente, acompanhando-o depois em massa até à porta do Hotel-Fayal, onde sua ex.ª se hospedou.” Tomou posse no dia seguinte, estando presentes “muitos membros do partido progressista, pessoal da respectiva repartição e vários empregados públicos”[3] .

À semelhança do que se passava um pouco por todo o País, também nas ilhas do distrito da Horta era grande o descrédito dos partidos monárquicos, com especial relevo para os seus dirigentes. A prova de que era assim está nas lutas virulentas que consumiam as elites partidárias, muitas vezes expressa na imprensa local, que se traduziam em ataques pessoais e profissionais e que o escritor e intelectual João Emerson Ferreira lapidarmente retratou no artigo intitulado “O senhor governador civil”, inserto na primeira página de O Fayalense de 28 de Janeiro de 1910. Acreditava ele que “só a austera disciplina de um militar, que acima de tudo coloca a honra e o cumprimento do dever, pode dar um governador civil, ‘de facto’, em muitos distritos de Portugal, onde políticos para rendimento, sem vislumbre de patriotismo na melhor acepção da palavra, esquecendo dignidade e honra, só pensam em galopinagem à custa do tesouro público, em exigências indecorosas, em prostituir empregados pouco escrupulosos, em alcançar nomeações rendosas ou de autoridade, em impor a sua vontade com ameaças torpes”. Apesar da generalização, este diagnóstico assertivo tinha pleno cabimento no que se passava nas ilhas do distrito e era uma crítica duríssima aos últimos governadores civis. Feita, sublinhe-se, por “um independente”, que “nada queria das mãos do Governo, senão o bem do país, a felicidade dos nossos conterrâneos”.

É sabido que jamais foi alcançada essa visão utópica de um Portugal rico e feliz, antes aconteceu o que já há muito se previa e que se tornara inevitável com o assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, ou seja, sucessivas rebeliões e atentados que levariam à implantação da República em 5 de Outubro de 1910.

O governador Cochado Martins esteve à frente do distrito da Horta apenas quatro meses e não se lhe conhecem quaisquer feitos dignos de especial referência. Além do expediente corrente e das obrigações protocolares, escasseiam as notícias da sua actividade.

Deslocou-se duas vezes à ilha do Pico, uma, ao concelho da Madalena, para distribuir donativos aos familiares das vítimas do naufrágio do Amigo do Povo e outra, a São Roque. Manifestou interesse em instar junto do Governo para que fossem supridas algumas das muitas carências que dificultavam a vida das populações, nomeadamente a realização de obras urgentes no chamado porto da Madalena e imediata nomeação de um cabo-do-mar, bem como diligenciou para que fosse deferida a pretensão da Junta de Paróquia da Piedade de modo que o legadodo benemérito Manuel Matos de Sousa e Souto de “cento e cinco contos de reis insulanos” fosse aplicado numa “escola agrícola, com cursos práticos de ensino normal de vinhateiros, arboricultores e mestres de lavoura, escola em que também haveria cursos de línguas e contabilidade para os dois sexos”.[4]

Tal como tantos outros chefes do distrito da Horta, o governador Cochado Martins não deixou memória especial do seu mandato, sendo talvez a reorganização das hostes progressistas uma das mais marcantes acções que desenvolveu. Aliás, era essa uma das prioridades de que vinha incumbido e dela deu boa conta. Com efeito, em 31 de Março reuniu “no palácio do governo civil” os mais destacados membros do partido progressista local e os chefes dos progressistas dos três concelhos da ilha do Pico, João Bento de Lima (São Roque), padre Manuel José Lopes (Lajes) e padre Ferreira Porto (Madalena). Naturalmente estiveram presentes, além de Miguel da Silveira, “o simpático chefe do partido progressista do distrito”, os seguintes elementos: Visconde de Borges da Silva, Barão da Ribeirinha, José da Rosa Martins, João Augusto Laranjo, José Pereira Macedo, José Patrício Viana, Francisco Pamplona Corte Real, Dr. João Pereira de Lacerda Forjaz, Jaime Soares de Melo, José Garcia Duarte, Manuel Rocha de Almeida, Domingos Pereira Campos, José de Lacerda Azevedo e José Cristiano Tânger. Não puderam aceder ao convite do governador, por motivo justificado, o padre Tomás Garcia Luís, o médico dr. Alberto Goulart de Medeiros e o presidente da Câmara da Horta, Francisco Pereira Ribeiro Jr., reiterando este “a sua adesão ao partido progressista, com os protestos da sua dedicação”. A união leal e estável dos progressistas – anteriormente divididos em “velhos progressistas constantes”, em “progressistas dissidentes” e em “novos elementos conquistados pela promessa de uma administração séria e justiciosa”[5] – fora, finalmente, conseguida. Mas já era demasiado tarde para que nas eleições de Agosto os frutos pudessem ser colhidos.

De qualquer modo, foi positivo o papel partidário exercido pelo governador civil que, poucos dias após esta reunião progressista teve ensejo de participar – precisamente a 11 de Abril de 1910 – na inauguração da energia eléctrica da cidade da Horta, obra da Câmara Municipal da presidência de Francisco Pereira Ribeiro Jr.,um ex-regenerador e ex-franquista que já então, como se disse, militava no partido progressista.

Entretanto, a nível do País, não cessava a instabilidade social e política. Chamado a Lisboa em fins de Maio, o governador Cochado Martins não voltou à sede do distrito, já que em Junho tomava posse o Ministério regenerador de Teixeira de Sousa que nomearia o Dr. Severino de Avelar para o mais alto cargo distrital e que, como se sabe, seria o último governo da Monarquia.

Sabendo que a sua ida não tinha regresso, Cochado Martins fez publicar na imprensa local uma despedida cordial e foi homenageado com um jantar pelo agente do Banco de Portugal e ex-regenerador Manuel Joaquim da Silva Menezes.

João António Cochado Martins, que faleceu em Caldas de Monchique a 14 de Agosto de 1936, era coronel reformado e comendador da Ordem de São Bento de Aviz (1919), da Ordem de Cristo (1919) e fora também distinguido com a medalha de comportamento exemplar.

 

 



[1] ANTT, Ministério do Reino, Livro n.º 1927, Termo de Juramentos, s/ paginação

[2] Vd. Reis Leite, J. Guilherme – Martins, João António Cochado, in Enciclopédia Açoriana

[3] O Telégrafo, 28 Janeiro 1910, p. 2

[4] AGCH, Livro n.º 90 (provisório), fls. 8-v a 13

[5] O Fayalense, 1 de Abril de 1910, p. 1



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