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Retalhos da nossa história – CXXXV Comandante João António Bettencourt

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Apesar de serem já vários os nossos homens do mar – marinheiros, caçadores de baleias, mestres de embarcações e comandantes de navios – que têm visto suas vidas e feitos razoavelmente estudados e divulgados, a maioria deles continuam completamente ignorados ou esquecidos.

É o caso do competente e destemido capitão João António Bettencourt, um faialense nascido na freguesia das Angústias a 12 de Dezembro de 1851, filho de José António de Bettencourt e de sua mulher Francisca Carlota do Coração de Jesus. Sendo o mais velho de sete irmãos, João António cedo começou a trabalhar pela vida. Tinha precisamente treze anos de idade quando, como tantos outros, embarcou como “rapaz de câmara”, foi marinheiro durante algum tempo, e, aproveitando as horas vagas das viagens entre os Açores e os Estados Unidos, lia e estudava, na ânsia de crescer e de alcançar as promoções que lhe permitiram ser, sucessivamente, contra-mestre, mestre e piloto. Como capitão, João António Bettencourt tornou-se “um homem muito bem conhecido, tendo primeiramente sido empregado pela firma de E. A. Adams & C.ª no serviço de paquetes à vela entre Boston e os Açores e, mais tarde, capitão das barcas Paladina, Sarmiente e Kennard”[1].

Depois de ter mostrado o quanto valia como homem e marinheiro, sendo capitão de navios à vela, é que lhe foi dado – assim o regista o conceituado e também esquecido escritor faialense Emerson Ferreira que se destacou como docente nos Estados Unidos – “o comando do Peninsular”, vapor adquirido na Inglaterra pela Empresa Insulana de Navegação e que em 1893 iniciaria as viagens transatlânticas ligando Lisboa a Nova Iorque com passagem pelos Açores e tendo como principal fonte de receita o transporte de emigrantes.

Construído e completado nos estaleiros de Joseph L. Thompson & Sons, de Sunderland, em 1877, o “Peninsular” foi comprado em segunda mão à “Blue Anchor Line”, onde tinha o nome de “Murrumbidgee”, e, vindo de Inglaterra chegou a Ponta Delgada em 28 de Fevereiro de 1893. Entretanto, a Empresa Insulana já publicitava, na imprensa faialense desde o começo do ano, o seu novo navio, “de 2 744 toneladas e grande marcha”, que estava “preparado com todas as comodidades que se podem exigir no mar e, confiado o seu comando ao valente capitão Bettencourt, nosso patrício, parece-nos que nada fica a desejar”[2]. Tinha o casco de aço e media 99,10 metros de comprimento por 12,20 metros de boca. A propulsão deste paquete era assegurada por uma máquina a vapor de tríplice expansão que desenvolvia 400 cv de potência. O número máximo de passageiros que podia transportar era de 730, sendo a sua tripulação de 60 a 70 homens.

A Empresa Insulana colocou o “Peninsular”, a par do “Vega” – este também comandado pelo faialense António Francisco da Rosa – na carreira Lisboa/Açores/Estados Unidos e em aberta concorrência com navios de outras companhias como o “Olinda”, o “D. Maria” e o “Oevenum”.

A primeira viagem do “Peninsular” ocorreu em Março de 1893, tendo excepcionalmente partido de São Miguel e não de Lisboa, e chegou ao Faial em 8 desse mês. Da Horta e de Santa Cruz das Flores levou para Nova Iorque 99 passageiros (40 do sexo masculino e 59 do feminino) que se juntaram aos 82 que trazia de Ponta Delgada e aos 30 de Angra.

 De Março de 1893 até Julho de 1899 temos registo de que o “Peninsular”, sempre sob o comando de João António de Bettencourt, efectuou 29 viagens da Europa para os Estados Unidos, tento transportado para Nova Iorque 5. 126 emigrantes legais, pois, se levou clandestinos, deles não restaram notícia. A quase totalidade destes passageiros embarcava nos portos de Ponta Delgada, Angra, Horta e Santa Cruz das Flores, o mesmo se verificando com os que seguiam no “Vega”, no “D. Maria”, no “Olinda” e no “Oevenum”[3]. Era, portanto, muito intensa a corrente emigratória destinada aos Estados Unidos, o que tornou ainda mais apetecível o mercado açoriano por parte de empresas de navegação estrangeiras. Esse facto terá determinado que a Insulana vendesse o “Vega”, mantendo apenas o “Peninsular” naquela carreira.

E foi no primeiro ano do século XX que este paquete sofreria um acidente que o deu como perdido, bem como todos os seus passageiros e tripulantes. Sucedeu isto – segundo a narrativa de uma testemunha presencial – na viagem que se iniciou em Lisboa a 29 de Janeiro de 1901, com chegada a São Miguel no primeiro dia de Fevereiro e saída para Nova Iorque no dia imediato. Conduzia 60 passageiros e tinha 54 tripulantes, “levando cem toneladas de carga diversa, 650 ditas de lastro (300 de areia e 350 de água nos seus respectivos tanques) e cerca de 400 toneladas de carvão para consumo”. Até ao dia 7 de Fevereiro “tudo correu bem”, mas o vento tempestuoso de noroeste e vagas alterosas que atingiram “a sua maior força no dia 8 pelas 4 da tarde, obrigaram-nos a reduzir a marcha a meia força”; quando, no dia 9, o tempo “ia melhorando, partiu-se o veio da hélice, ficando o navio completamente sem governo”, encontrando-se a “400 milhas distante de Halifax e 800 milhas de New York”; no dia 11 avistaram o vapor inglês “Pocahontas” que, devido ao mar alteroso, não conseguiu rebocar o “Peninsular” para as Bermudas que se encontravam a 560 milhas; e, assim, estiveram “debaixo de tempestade contínua mais sete dias sem ver navio algum”. No dia 19 avistaram o vapor espanhol “Francisca” que correspondendo ao pedido do comandante do “Peninsular”, os “rebocou 972 milhas chegando a São Miguel no dia 25 pelas 4 horas da tarde”. Estiveram 10 dias à deriva e, levados pela água e vento e “pela corrente do Gulf Stream” navegaram 651 milhas e, não obstante “os enormes balanços que o navio dava através das ondas, tornando a situação muito desagradável”, nunca correram risco de vida.  A notícia de que o “Peninsular” não tinha naufragado, como se temera, e de que os seus passageiros e tripulantes estavam todos bem, pôs fim aos receios e angústias e deu lugar a espontâneas e genuínas manifestações de alegria, devidamente registadas nos jornais da época. Na cidade da Horta, queimaram-se “girândolas de foguetes” e uma “verdadeira peregrinação”, acompanhada pelas filarmónicas Lira Angustiense, Lira Recreativa, União Musical e Artista Faialense foi a casa do comandante João António soltando “vivas entusiásticas a ele e a todos os seus”, percorrendo depois as ruas da cidade em entusiástica marcha “aux flambeaux”[4] .

Após as necessárias reparações, o “Peninsular” retomou em Março as viagens para os Estados Unidos, fundeando a 21 na baía da Horta. Essa chegada foi devidamente festejada, “atirando-se foguetes de vários pontos da cidade” e indo “a bordo as bandas União Musical e Lira Angustiense, bem como muitas pessoas de terra que foram cumprimentar o bravo comandante sr. João António Bettencourt”. Em terra a recepção foi entusiástica e, “pouco depois do desembarque toda a família Bettencourt e muitas pessoas das suas relações e amizade assistiram na igreja das Angústias a um Te-Deum de acção de graças pelo salvamento do “Peninsular”. Este, continuaria a viajar para a América do Norte, sobretudo com emigrantes até que, em Julho de 1908, a Empresa Insulana, vítima da concorrência das companhias estrangeiras e sem ter o subsídio do Estado que lhe garantia segurança nas ligações Lisboa/Madeira/Açores, o retirou daquele serviço, vendendo-o, em 1910, à Empresa Nacional de Navegação que o manteve em serviço até desmantelá-lo em 1923.

Entretanto, o prestigiado comandante João António Bettencourt falecera em 12 de Junho de 1904 na cidade de Ponta Delgada onde procurava cura para a pertinaz doença que o vitimou.

Para quem o conheceu e dele deixou testemunho, ficou o registo da sua “vida nobre e cheia de abnegação”, merecendo “muito mais de nós açorianos, muito mais do que uma mera menção do seu passamento; morte tão triste e intempestiva, quando os anos mais úteis da vida, enriquecida pela experiência, apenas começavam”. Ele era “ alma da generosidade desinteressada, da amizade sincera, e, de verdadeira caridade cristã”. Por isso, “os amigos verdadeiros que tanto aqui, como na América ele tinha, eram uma consequência necessária da amizade sincera de que ele mesmo era capaz (…) Durante os anos que comandou o ‘Peninsular’ mostrou-se mais de uma vez um herói no desempenho dos seus deveres, recebendo duas vezes comendação do governo dos Estados Unidos e provas inumeráveis de consideração e respeito em que o tinham os milhares de passageiros que com ele atravessaram o Atlântico”[5].

Na mesma linha estão as palavras do New York Journal quando recebeu a notícia telegráfica do falecimento deste “muito bem conhecido e respeitado comandante do vapor ‘Peninsular’, da carreira New York e Lisboa com escala pelos Açores. Capitão Bettencourt era um daqueles homens sinceros e francos, generosos e altruístas que podem contar os amigos pelo número daqueles que conhecem e com quem têm relações (…) Muitos hão-de sentir a morte deste homem porque muitos eram os amigos que tinha, tanto na Europa como aqui”[6].

Trasladado de Ponta Delgada para a Horta no vapor ‘Funchal’ da Empresa Insulana, o funeral do comandante Bettencourt realizou-se, “com numeroso acompanhamento”, da igreja das Angústias para o cemitério do Carmo, sendo “o caixão coberto de grinaldas” e tomando parte no préstito todo o pessoal da Casa Bensaúde & C:ª, oficialidade do ‘Funchal’ e filarmónica União Faialense”.

Casara, na igreja de São Baptista de Boston, com Eugénia Adelaide de Simas e era pai de Maria Bettencourt, Eugénia Bettencourt, João Bettencourt, Laura Bettencourt e Isabel Bettencourt.

 Ao contrário do que apelavam os seus amigos para que a memória de João António Bettencourt não fosse esquecida por ninguém do Faial que, “sinceramente, no homem, respeite, virtude, honra, coragem e generosidade”, e que, mesmo na hora da morte, fora homenageado pelo governo dos Estados Unidos através do cônsul geral em Lisboa que enviara “uma soberba coroa de ferro forjado para ser colocada no seu túmulo”[7], o certo é que a vida e os trabalhos deste distinto comandante da marinha portuguesa nem uma simples palavra de louvor mereceram da Câmara Municipal da terra onde nascera[8].

De facto, les morts vont vite!



[1]Boston Globe, 16 Junho 1904, cit. in  O Telégrafo 1 Julho 1904, p. 1

[2] O Açoriano, 1 e 8 Janeiro 1893, pp. 3 e 4

[3] AGCH, Livro nº 54, (provisório), fls. 8 a 195

[4] O Fayalense, 3 Março 1901, pp. 2 e 3

[5] J. Emerson Ferreira, O Telégrafo 30 Junho 1904, p. 1

[6] New York Journal, 15 Junho 1904, cit. in O Telégrafo 1 Julho 1904, p. 1

[7] O Telégrafo 6 Julho 1904, p.2. A coroa tinha a seguinte inscrição: “Humanidade e bravura/Homenagem do cônsul dos Estados Unidos em Lisboa em memória do capitão Bettencourt”

[8]  É isso que se constata da leitura das actas de Junho e Julho de 1904 constantes do respectivo Livro de Vereações da CMH. 





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