Retalhos da nossa história – CXXXVIII Luz eléctrica na cidade da Horta

0
23

Foi na primeira década do século XX que o Faial conheceu, finalmente, os benefícios de dois empreendimentos decisivos e há muito desejados pela população: o abastecimento domiciliário de água à ilha e o fornecimento de luz eléctrica à cidade da Horta.

Este reclamado melhoramento deu-se na noite de 11 de Abril de 1910 no meio de “indescritível entusiasmo que reinava na imensa multidão que percorria todas as ruas e largos iluminados pela nova luz”[1]. Os dois diários que então se publicavam na Horta – O Telégrafo e O Fayalense – inserem destacadas reportagens desse memorável acontecimento que merece inscrição nos anais do município faialense. Semelhante registo é devido aos obreiros desse importante investimento, a começar pelo presidente e vereadores da Câmara Municipal da Horta e a acabar no competente e dinâmico engenheiro electricista João Raposo de Medeiros, realizador e adjudicatário, em 30 de Julho de 1908, daquele empreendimento por um período de trinta anos.

Uma acta da sessão ordinária da Câmara Municipal da Horta arquiva o que lá se passou na noite de 11 de Abril de 1908 quando, uma comissão de 259 cidadãos, “interpretando o sentir íntimo da grande maioria dos habitantes do concelho”, entregou ao presidente da edilidade Francisco Pereira Ribeiro Júnior, uma mensagem que era a “expressão de preito e de reconhecimento a todos os homens que, desde 1906, têm com V. Ex.ª tão devotada e proficuamente dirigido os negócios do município”.

Lideravam essa Comissão os cidadãos Manuel Joaquim da Silva Menezes Júnior, Visconde de Borges da Silva, comendador João Pacheco da Silva, Manuel Caetano de Sousa, Domingos Homem Garcia e António Gonçalves Viana da Silva, “que se apresentaram nos paços do concelho acompanhados por grande número de munícipes, tendo à frente duas filarmónicas [Artista Faialense e União Faialense] ” a fazerem entrega da dita mensagem que “servirá de marco a uma data de grande lustre na história desta ilha pelo incontestável melhoramento levado a efeito e que foi desde muito tempo o pensamento constante de algumas Câmaras cabendo a esta a glória de assim satisfazer os desejos da população que a elegeu”. A mensagem é do seguinte teor:

Solenizando o dia de hoje, a cidade da Horta implicitamente se confessa reconhecida para com aqueles que tanto se têm dedicado, num tenaz impulso de boa vontade, a satisfazer-lhe as suas mais sonhadas aspirações. Os benefícios de maior monta e de mais custosa consecução, os melhoramentos que as nossas crescentes necessidades públicas desde longa data tanto têm requerido hora a hora, e que representam em seu termo final a marcha progressiva dum povo, vemo-los, com supremo orgulho e intenso regozijo, para sempre realizados.

Desde a canalização de água potável para cidade e algumas freguesias rurais, indiscutivelmente o mais valioso e importante de todos os trabalhos levados a cabo pelo município; desde o largo incremento dado aos serviços de viação, reparando todos os caminhos, construindo outros, ligando por um troço de estrada concelhia a estrada litoral, desde outros diversos benefícios de não menos eficaz proveito, como a desratização por exemplo, que a par do saneamento da ilha foi um lucro para a agricultura, até este que hoje lança em festa os habitantes da Horta, deixa a vereação sob a mui digna presidência de V.Ex.ª atestado às gerações vindouras o glorioso grau de civismo que soube, a preço de extremado zelo, corresponder à confiança das vozes que a elegeram.

A cidade consagrou este dia para festejar a inauguração da iluminação pela energia eléctrica, como já poderia ter escolhido dias passados, festejando esses outros melhoramentos que todos nós estamos auferindo. Mas é porque nesta manifestação tão singela quanto espontânea, sintetiza toda a soma de contentamento que se tem guardado; porque é este melhoramento aquele de maior brilho que, pelo muito que aformoseia, mais impressiona e envaidece; porque é como que o valioso e galante remate da obra vasta tanto apetecida e finalizada; porque é a luz que deslumbra, a luz, símbolo do progresso, acendida como erguida facho de honra a saudar a grande conquista das nossas aspirações .[2]

 A Câmara da Horta, alvo destas merecidas homenagens pela vasta obra realizada, mais a mais num tempo em que escasseavam as receitas, havia sido eleita em 1906 e reeleita em 1908 e era formada pelos cidadãos: Francisco Pereira Ribeiro Júnior, presidente, Florêncio José Terra, vice-presidente, José Augusto de Sequeira, José Inácio de Cristo, João Pereira Gabriel, Alberto Silveira Leal, Manuel Agostinho Fernandes da Fonseca, Manuel Pereira do Amaral, Manuel Emílio Tomás da Silveira, vereadores efectivos, e pelos substitutos José Machado Teixeira, Manuel Peixoto Ávila, António de Carvalho Alua, José Ventura, Henrique Garcia Monteiro, Joaquim Cardoso Ayres Pinheiro, Manuel Machado da Conceição, Jacinto Alexandre da Silva e Manuel Joaquim Dias. Vários destes substitutos foram chamados à efectividade de funções no impedimento de alguns titulares, razão por que nos festejos da inauguração da luz eléctrica na cidade da Horta, a Câmara era assim constituída: presidente Francisco Pereira Ribeiro Júnior, vereadores José Inácio de Cristo, Alberto Silveira Leal, José Ventura, António Carvalho Alua, Henrique Garcia Monteiro e Manuel Peixoto de Ávila.

  Na opinião de António Baptista, director e proprietário de O Fayalense, “a estes homens de bem, de boa razão e de boa vontade, a esta Câmara modelar, deve a terra a realização destes importantes melhoramentos públicos – água potável e luz eléctrica”. Sendo um dos 259 subscritores da mensagem dirigida à Câmara, apelava ele para que “sejamos justos e reconhecidos para com os beneméritos da nossa terra”, honrando “a actual vereação, que é digna de todo o nosso louvor e toda a nossa gratidão, e estejamos prevenidos contra todas as surpresas políticas que possam travar a roda do progresso e obrigar-nos a voltar ao regime antigo da politiquice deprimente e da compadrice ruinosa”[3]. Tinha profundo cabimento este alerta de António Baptista, já que, nesse mesmo Abril de 1910, foi aberta falência à Caixa Económica Comercial Faialense e, pouco depois, à firma Silveira & Edwards C.ª devedora daquela. Este caso que veio afectar a vida económica de toda a ilha do Faial, estabelecendo-se a desconfiança e o pânico entre a população “andava desde há muito premeditado pelo caciquismo local contra o gerente daquela importante casa comercial a quem queriam inutilizar”[4]. Ora, esse sócio-gerente era simultaneamente o dinâmico e competente presidente da Câmara Municipal, Francisco Pereira Ribeiro Júnior! Os políticos regeneradores locais – liderados por dois poderosos médicos que como facultativos municipais discordavam das obrigações que lhes impunha a Câmara – alcandorados a cargos de poder (v.g. Governo Civil e Administração do Concelho) não hesitaram em recorrer ao Juiz da Comarca que, em descarada conivência com eles, não deu provimento às diligências desencadeadas para evitar aquelas duas falências. Como se recordava, em 16 de Março de 1911, no jornal lisboeta O Século houve “uma manifesta má vontade e facciosismo contra aqueles dois estabelecimentos que, naturalmente, na sua queda e num meio pequeno, originaram o pânico que ali se deu, obrigando as outras duas caixas a suspender pagamentos”. Estas súbitas e provocadas falências, aliadas a uma sindicância à Câmara decidida pelo governador civil e chefe dos regeneradores locais, Dr. António Emílio Severino de Avelar e que decorreu em Maio e Junho de 1910, implicaram a demissão do presidente da edilidade deliberada por sentença da Auditoria Administrativa da Horta de 27 de Agosto de 1910. Estava-se em vésperas da implantação da República e, também no Faial, a monarquia agonizava, tais eram as arbitrariedades, as vilanias e os actos de corrupção dos principais dirigentes. A propósito, dizia Manuel Joaquim da Silva Menezes Júnior – um dos promotores daquela mensagem de apreço à Câmara – em carta de 13 de Julho de 1910 dirigida ao seu amigo Marquês de Ávila: “no nosso pobre distrito, pouco ou nada se adiantará com o sistema do Dr. Avelar e amigos políticos, que há anos iniciaram a política mesquinha de perseguições, unicamente para satisfazerem os seus rancores e vinganças, apoiados por um juiz pouco escrupuloso, vergonha da classe (…)”[5]

Entretanto, dois meses após a inauguração da luz eléctrica, era constituída – a 11 de Junho de 1910 – a Empresa de Iluminação Eléctrica da Horta, sociedade por quotas com capitais locais e que desenvolveu a sua acção até finais dos anos sessenta do século XX, quando este serviço passou para a Câmara Municipal com a incumbência de alargar o fornecimento de energia eléctrica a toda a ilha, o que foi conseguido, não obstante os incomportáveis custos que essa atribuição trouxe à autarquia. Para superar o que se tornara uma insuportável asfixia financeira, foi criada em 1980 a EDA (Empresa de Electricidade dos Açores), ainda hoje existente. Daquele recuado ano de 1910, pouco mais ficou do que a memória …

 

 



[1] O Telégrafo, 12 Abril 1910, p.1

[2] Livro de Vereações n.º 57 da CMH, fls.20-v. a 22

[3] O Fayalense, 11 Abril 1910, p. 1

[4] CIt. in A Justiça, 3 Abril 1911, pp. 2 e 3

[5] ANTT/APAB, antiga caixa 4, n.º 12