Rosa Leal há 14 anos a juntar gerações

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DR/Rosa Leal

DR/Rosa Leal

O envelhecimento da população apresenta-se como uma realidade cada vez mais evidente nos dias de hoje. As mudanças verificadas na sociedade nos últimos anos, levam muitas vezes, a que os idosos acabem por ficar sozinhos e isolados.

Por outro lado, a falta de disponibilidade das famílias, aliada a dificuldades económicas, ou a problemas de saúde obriga-os a recorrer a instituições.

Embora a institucionalização não signifique uma quebra de laços com a família, a realidade é que infelizmente esta situação acontece com frequência.

Esta separação tem condicionado o convívio entre os idosos e as gerações mais novas. Hoje em dia muitas crianças não têm a oportunidade de conviver com os avós e assim ter um contato mais próximo com os mais velhos.

Esta realidade despertou a atenção da educadora Rosa Leal que há vários anos tem quebrado esta situação através dos vários projetos intergeracionais que tem promovido.

A Educadora de Infância nasceu no Lugar do Raminho, na ilha Terceira. Veio para o Faial em 1984 após tirar o curso na Escola do Magistério Primário e Infantil em 1980/83. Casou e teve duas filhas, com as quais mantém, “um laço de amor forte, terno e especial, com experiências de vida diferentes e unidas pelo coração…”, que também têm sido “intervenientes, em alguns dos projetos intergeracionais”, que desenvolveu. 

A Educadora, vê-se como “uma pessoa dinâmica”. Gosta de cantar e representar. A sua vocação “sempre teve como meta, trabalhar com crianças”. No entanto, a profissão de Educadora, na altura em que se formou, conta “era uma profissão desconhecida”, uma vez que o curso tinha aberto apenas há um ano na Terceira. “Um mundo para conhecer e descobrir, estava à minha espera…”, confessa.

Neste momento a Educadora encontra-se colocada no apoio, substituição e faz prolongamento de horário na EB1/JI da Vista Alegre. Nos 33 anos que conta de atividade profissional, sempre motivou “a família das crianças, a fazer parte e a estar presente na escola, valorizando os seus saberes”. Foi através desta educação participada que “abraçou projetos, parcerias e partilha de responsabilidades, partindo de um princípio fundamental, de que o sucesso educativo e a integração plena da criança na sociedade, só são possíveis com a colaboração de todos”, entende.

Segundo Rosa Leal “as crianças de hoje são muito complexas carregam todas as mudanças sociais, familiares e culturais. Por estes fatores, considera que “ser educadora hoje, é um desafio pessoal e profissional”.

A educadora sente-se “feliz” na sua profissão, mas por vezes, “já cansada”, admite.

Rosa Leal em simultâneo com a sua atividade profissional é também Coordenadora de Departamento e dinamiza projetos, trabalhando em equipa com as colegas e parceiros.

Apesar de algumas dificuldades a Educadora não baixa os braços e há vários anos que para além da sua profissão, da colaboração que presta na igreja, e em atividades de cariz voluntário, ainda tem tempo para realizar vários projetos intergeracionais envolvendo crianças e idosos.

Ao Tribuna das Ilhas a Educadora fala-nos deste seu gosto e dedicação a estes projetos que lhe enchem “o coração”.

 

Quando surgiu a necessidade e a oportunidade de desenvolver projetos ou atividades intergeracionais?

Em 2000/2002, fiz o complemento de formação (licenciatura) pela ESE de Leiria, na Terceira. A licenciatura foi uma aventura que a Secretaria da Educação propiciou a um grupo de docentes, do 1.º ciclo no Faial e educadores, na Terceira… Não foi fácil, conciliar a família, o trabalho, os estudos e as viagens, mas foi muito positiva, subi dois escalões, na carreira docente.

Neste percurso formativo, fui incentivada pelo Dr. Ricardo Vieira para a realização de um projeto de animação sociocultural/intergeracional, que foi concretizado na minha tese final. Ele referia que eu tinha perfil e que iria fazer um bom trabalho, unindo as várias gerações.

Também senti que hoje, apesar de vivermos num mundo de tecnologias, as grandes preocupações do Homem e da Sociedade, continuam a centrar-se à volta da sobrevivência, do amor, da liberdade, da justiça e da paz. É importante dotar os mais idosos de um Projeto de Vida, que se constrói para o Futuro, tendo em conta o Presente, alicerçado no Passado, bem como despertar e valorizar nas crianças, um conhecimento do passado dos seus familiares.

Desde 2002 que desenvolvo projetos intergeracionaise todos os intervenientes e parceiros, que tornam as vivências em aprendizagens educativas, ficam mais “ricos” pessoalmente.   

Que significam para si estes projetos? O que sente quando os desenvolve e vê crianças e idosos juntos?

Estes projetos intergeracionais representam para mim “vida”, onde todos são importantes, nas relações recíprocas, crianças, idosos, avós e parceiros, proporcionando apoio, solidariedade, amor, atenção e segurança.

Os projetos intergeracionais, promovem a amizade e a partilha, onde a transmissão dos saberes não é linear, possibilitando vivenciar diversos modos de pensar, de agir e de sentir. O meio local é amplamente divulgado pelas atividades promotoras dos projetos e, chegamos a S. Miguel, Pico, Terceira e ainda mais longe, no programa Atlântida da RTP Açores…

Para mim, estes projetos enchem-me o coração, pela riqueza afetiva que possuem, pelas estratégias e atividades que promovem, sempre numa aprendizagem ativa a e vivida. Sinto-me fascinada pelas gerações juntas, pois esta realidade contribuiu para a minha felicidade, porque a minha felicidade, depende dos outros…

Há quanto tempo promove estas atividades intergeracionais?

Eu já desenvolvo estas atividades intergeracionais há 14 anos, sendo até hoje pioneira nestes projetos. Há escolas nos Açores que realizam estes projetos, mas de forma esporádica. Os que eu desenvolvi, eram vividos durante todo o ano letivo, explorados em contexto de sala e fora desta.

Que importância no seu entender têm estes projetos para estas faixas etárias?

Estes projetos são eixos condutores da comunicação intergeracional envolvendo crianças e idosos, mediante diálogos e práticas de inserção cultural e lazer. O convívio entre gerações possibilita um maior conhecimento de todos os sujeitos envolvidos no processo, minimizando os preconceitos relacionados com os idosos e o enriquecimento mútuo. As relações intergeracionais têm que ser estimuladas, para que haja uma proximidade afetiva e de comunicação.

Com todas as mudanças verificadas na sociedade, as relações intergeracionais continuam a ser um meio de partilha de afetos, de valores e de aprendizagens vivas. As crianças sabem que é preciso haver respeito nas relações humanas, mas nesta faixa etária, Jardim-de-infância, é preciso vivenciar os valores, para que eles façam parte do “eu”… Estes projetos, para as faixas etárias envolvidas, são o caminho para serem mais felizes, numa partilha de saberes e experiências.

Fale-nos um pouco dos projetos que já desenvolveu nesta área…

Comecei com o Projeto de Animação Social “O Cantinho da Partilha 2002” foi um organismo vivo dentro da comunidade para a animação comunitária, criando espaços para a comunicação inter-pessoal, onde cada um foi protagonista. Valorizar o passado e conhecer o presente, pela partilha de experiências e saberes, foi o objetivo. Este Projeto foi pioneiro na ilha do Faial e criaram-se expetativas fora da rotina, no grupo de idosos e crianças. Esta experiência tornou-se ainda mais valiosa, quando abrangeu toda a família. Conseguiu-se criar sinergias entre pessoas, divulgou-se de forma eficaz a freguesia, na comunicação social, despertou-se ideias adormecidas no subconsciente  de cada idoso e criança.

O projeto “Aprender de mãos dadas” em 2006/07, foi outro dos projetos que realizamos com as crianças do Jardim de Infância/idosos do centro de convívio, da Praia do Almoxarife, com vista à partilha saberes e experiências de vida, num ambiente alegre e acolhedor.

No âmbito deste projeto, os idosos, ofereceram pelo Pão por Deus uma saquinha a cada criança com a sua letra bordada… prepararam um teatro “Natal da saudade” e um presépio vivo. No Carnaval participaram no desfile organizado pela Junta de freguesia na Sociedade Filarmónica Unânime Praiense: as empregadas e os turistas, com uma coreografia e fomos os vencedores, no nosso escalão.

O voto de Santo Cristo foi outra festividade religiosa, onde participamos e colaboramos na dinamização. O Convívio da Primavera realizado no lar de São Francisco, permitiu levar mais um pouco de alegria e de boa disposição, aqueles que por razões várias, tiveram de deixar a sua casa…

Mais uma vivência tradicional no nosso Projeto, a festa do Espirito Santo. Foi feito um altar na escola, e todos participaram na missa com coroação e almoçaram as sopas de Espírito Santo, na escola.“O Futuro e o passado de mãos dadas”, uma marcha com os pais e convidados, a feira “Viver culturas”, foram outras atividades realizadas.

Caixinha de Surpresas 2007/08 foi mais um projeto realizado com os idosos e crianças que teve como principal objetivo dar a conhecer as nossas vivências e experiências, aos centros de convívio de idosos da ilha do Faial. A mensagem explorada foi a diferença entre ser velho e idoso, e a transformação de atitudes e de vivências que isto implica.

O Clube dos Fantásticos realizado em 2009 com os avós, permitiu um intercâmbio com os alunos do 4º ano da Turma de PCA (Projeto Curricular Adaptado) e a sua Educadora, Conceição Godinho, da Escola Professor Maximino Fernandes Rocha, da Terra Chã. Estes alunos viviam num bairro social e apresentam muitas lacunas a vários níveis. O projeto quis mostrar que os avós fantásticos têm: um amor especial, histórias de vida, uma luta constante de ser, de vencer e que todos os avós fantásticos são queridos e fixes.  

Convívio Fantástico Intergeracional foi uma iniciativa do Projeto, em parceria com a APADIF e outras entidades colaboradoras, em que foram convidados os centros de convívio dos idosos de toda a ilha do Faial.

O almoço da Primavera foi uma atividade realizada para angariação de fundos, todos colaboraram na confeção do almoço e na passagem de modelos, da Moduz, onde pais, avós e filhos desfilaram na mesma passarela. Mais uma experiência nova, vivida por todos os fantásticos…A visita dos Terceirenses ao Faial decorreu de 25 a 29 de Maio. Preparamos um programa variado com a colaboração dos pais, avós e outras entidades,  que terminou com a deslocação de 36 “Fantásticos” à Terceira, numa longa viagem de barco… .

“Os Heróis” projeto realizado em 2009/2010 envolvendo os avós, pais e crianças e tinha por meta, uma viagem de avião a S. Miguel que foi concretizada.

 Destaco a atividade, “Uma tarde fixe na discoteca Eriklub 2012”, com idosos, crianças pais, avós e jovens das valências da APADIF e os projetos, “Sorrir de Mãos Dadas 2013” e mais recentemente “O Marinheiro Livreco, amigo da biblioteca.”

Atualmente está a desenvolver um projeto “O Marinheiro Livreco, amigo da biblioteca”, que irá levar às freguesias da ilha. Fale-nos desta atividade, o que pretende a quem se destina, como funciona?

No ano letivo transato frequentei a oficina de formação Competências de Literacia e Socio Emocionais e preparei uma atividade que percorreu as escolas da rede pública e a Casa de Infância de Santo António. A avaliação foi muito positiva. Este ano, a convite da Presidente do Executivo, faço parte da equipa da dinamização da Biblioteca Escolar onde estou a desenvolver este projeto que aborda a literacia da leitura. O objetivo é percorrer as escolas da rede pública, uma vez por período e explorar obras diferentes,com caráter lúdico abordando as convenções sobre o impresso (escrita), o conhecimento das letras, a consciência linguística e sintática. Relativamente aos idosos gostaria de convidá-los a visitar a biblioteca escolar e desenvolver atividade de literacia e de leitura, porque ir a todos os centros de convívio é difícil…

 

Em que medida a aprendizagem intergeracional se revela importante para estas gerações quer de idosos quer de crianças e para a sua vida futura?

Hoje é fundamental esta relação intergeracional. As crianças têm que ter modelos na sua educação, necessitam de afetos, de atenção e conviver com os mais idosos, porque aprende-se vivendo. Ao longo dos projetos cada um faz a sua construção pessoal, no seu saber e nas suas aptidões.

Fazem-se descobertas dos valores e éurgente fomentar relações de intergeracionalidade, para combater o isolamento social dos idosos e a promoção do envelhecimento saudável. As crianças e idosos desenvolvem  competências pessoais, sociais e relacionais, a promoção de estilos de vida saudáveis, a adoção de comportamentos de respeito pelo outro, pelo ambiente e pelo património cultural.

Que outros projetos pretende desenvolver no futuro já tem alguma ideia?

Ainda não tenho ideia definida em relação aos projetos futuros, a nível profissional. A nível pessoal, vou abraçar um grande projeto voluntário, da Liga Portuguesa contra o Cancro, com a minha filha Bruna, que abrangerá toda a ilha e será comunicado oportunamente

Outro sonho que tenho é poder reunir todos os projetos num livro, dedicado a todos os idosos e crianças para que a educação intergeracional não seja esquecida… Vamos sonhar…

O que é preciso para pôr de pé estes projetos? Com que apoios ou ajudas conta?

É preciso ser persistente, lutadora, ter espirito de equipa e acreditar que vamos conseguir atingir o objetivo. Os pais, os avós, as crianças e os idosos foram sempre grandes alicerces e amigos, que ainda hoje perduram e perdurarão… Também é importante salientar que todos os projetos dão muito trabalho e é preciso muito tempo extra… Estes projetos são únicos e exclusivos, porque eu é que faço os textos para os teatros, para as passagens de modelos e as letras para as canções, com criatividade e alguma sátira. Em relação aos apoios, sempre contamos com a parceria de várias instituições, câmaras municipais, centros de convívio, escolas, museus, direções e secretarias regionais, entre outros, quer a nível do Faial, da Terceira e de São Miguel.

De todas as atividades que já promoveu com estas duas gerações que balanço é possível fazer?

Um balanço muito positivo porque estes projetos realizados com as várias gerações são: vividos pelas crianças e pelos outros intervenientes; são espaços para comunicação inter-geracional e para relação pessoal e são vivos dentro da comunidade. Penso que as crianças, hoje adolescentes e jovens, que viveram estes projetos, ficaram marcados pela aprendizagem recíproca, pela proximidade, pela vivência dos valores e pela amizade.

Como é crescer hoje em dia?

Crescer hoje como pessoa, é muito complexo. As crianças deparam-se com muitas tecnologias e vivem por vezes num mundo ilusório. Precisam de estar abertas, atentas e abraçar os desafios, que as fazem crescer. Não podemos viver no comodismo, porque tudo está facilitado e não há necessidade do esforço. As crianças têm acesso a muita informação indiscriminadamente. É urgente fazerem-se escolhas, saber selecionar e viver a infância com alegria e capacidade de tomar decisões. Os pais devem ser os primeiros educadores responsáveis pelo crescimento…

E envelhecer?

Hoje o envelhecimento, é encarado com mais naturalidade. As pessoas idosas têm os mesmos direitos e deveres que os demais cidadãos portugueses, pelo que têm mais oportunidades de realização pessoal, através de uma participação ativa na sociedade. Sabe-se que as capacidades de adaptação dos idosos ao longo da vida, vão diminuindo, mas todos têm direito ao convívio familiar e comunitário, de modo a evitar o isolamento e a marginalização. A Ação Social tem um papel eficaz junto dos idosos, mas as famílias são um real potencial na área de prestação de cuidados. Envelhecer hoje é um desafio que visa prevenir situações conducentes à degradação e marginalização e existem respostas sociais como os centros de dia, os lares ou casas de acolhimento. Envelhecer hoje é tornar o idoso mais ativo, participativo e responsável.

 

Que outros projetos desenvolve ou desenvolveu nesta área da solidariedade social?

Abraço a Moçambique em colaboração com a Helpo com o objetivo de contribuir com umas gotinhas de água para as crianças de Moçambique. As crianças percorreram a freguesia e assim houve um Natal diferente na EB1/JI da Praia do Almoxarife: uma árvore de Natal feita com todos os caixotes, fruto dos donativos e da partilha, de todos os Praienses…

Sendo eu voluntária na cadeia da Horta, e sabendo da complexidade do sistema prisional, das dimensões das instalações e das condições específicas, não desisti e lutei contra a burocracia, por um curso Reativar. Procurei desenvolver este projeto, com vista ao aumento da eficácia do processo de reinserção social dos reclusos, envolvendo a sociedade civil e prevenindo a reincidência. Nas cadeia há pessoas, elas tem família, coração, sentimentos, sonhos,… Outras atividades a registar ainda neste âmbito, o  Abraço inter-ilhas – troca de correspondência, fotografias, poemas e documentos com os reclusos do estabelecimento prisional de Ponta Delgada. Fizeram-se novas amizadese partilha de experiências de vida. Alternativas foi uma exposição/concurso de molduras, na Câmara Municipal da Horta, onde contou com os votos dos munícipes. O Curso para a obtenção da cédula marítima, outra grande luta mas também uma grande vitória, que proporcionou a formação em contexto de trabalho, em parceria com a Secretaria Regional das Pescas e o Veredito, jornal semestral que proporcionou novos conhecimentos e saberes, para além de momentos de convívio e de partilha.

No Faial no seu entender a população está desperta para esta área mais fragilizada da sociedade que são as crianças, os idosos, entre outros?Eu penso que a população está mais desperta para esta realidade geracional, mas podem-se sempre melhorar-se os recursos e as estratégias. Era importante haver mais animadores e cuidadores no domicílio, a proporcionar momentos de bem-estar, lazer e de aprendizagem. A população olha para o idoso com uma consciência mais aberta, valoriza-o, como cidadão ativo e participativo. As crianças são vistas como um futuro incerto… Mas estas gerações completam-se, com sentimentos, valores e afetos. Acreditamos que a população vai colaborar e incentivar, para que a proximidade entre Gerações no Faial, seja uma realidade.

 

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