Início Artigos de opinião Costa Pereira RTP-Açores: Aprender com os erros

RTP-Açores: Aprender com os erros

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Assisti, na minha adolescência, ao nascimento da Televisão nos Açores. Acompanhei, como a grande maioria dos açorianos na altura, a epopeia do surgimento da RTP-Açores; vivi a magia das primeiras emissões; acompanhei religiosamente os grandes sucessos da programação, que esvaziavam as ruas da cidade ou aglomeravam espetadores nas montras das lojas com televisores em funcionamento; angustiei-me com o “fading” que nos impossibilitava ver a transmissão e nos deixava o vazio no serão familiar.

A RTP-Açores foi um importante instrumento na afirmação da nossa moderna Autonomia e na assunção da sua dimensão inovadora: a de ver os Açores como uma Região única, composta de nove ilhas, com idênticas aspirações e direito ao desenvolvimento integral e harmonioso.

Pela RTP-Açores das primeiras décadas, os açorianos das várias ilhas, muitos deles antes de costas voltadas, foram-se conhecendo e foram-se descobrindo. 

A RTP-Açores foi essencial nessa descoberta e nessa aprendizagem que fomos fazendo uns dos outros como povo.

A realidade, hoje, mudou muito. O desenvolvimento tecnológico, as comunicações quase instantâneas e a multiplicidade da oferta, colocaram a RTP-A num mundo concorrencial para o qual não estava preparada: as suas emissões e produções, expostas na vitrina impiedosa da comparação com outros canais, rapidamente mostraram, salvo algumas honrosas exceções, o anacronismo, o amadorismo e a falta de meios com que muito era feito.

Incapaz de concorrer com o que passou a entrar portas adentro, à RTP-A restava a fidelidade dos Açorianos, o seu único público-alvo.

Mas, erros sucessivos e perniciosas opções de gestão e de programação, associados a critérios editoriais e informativos errados, foram afastando muitos Açorianos da sua televisão. De amada, passou a odiada por alguns. De imprescindível passou a indiferente e dispensável a muitos.

Só isso explica que, quando recentemente se colocou a possibilidade da RTP-A passar a uma “janela” da programação nacional da RTP, não tivesse havido uma mobilização genuína e espontânea dos Açorianos contra essa medida. 

Este desamor ou, se quiserem, esta indiferença de muitos Açorianos para com a sua televisão pode ter variadas causas e explicações. Mas, uma delas, e seguramente determinante, tem a ver, em minha opinião, com a crescente imposição de uma filtragem artificial nos critérios informativos e de programação, ligada ao conceito de “notícia ou acontecimento de interesse regional” como condição para a cobertura noticiosa ou para uma “hierarquização” da dignidade informativa e de programação. Ora, como normalmente quem filtra e determina está fora da realidade da ilha em que o evento se realiza, o que mais se passou a ver na RTP-A foi eventos semelhantes e com a mesma dimensão real ou proporcional terem tratamento diferenciado de ilha para ilha.

A concretização desta orientação matou a afeição de muitos Açorianos pela sua televisão. Esqueceu-se que a Região assenta na realidade ilha e que ela é determinante na empatia e na ligação das populações. E muitas ilhas têm, por isso, fortes e contínuas razões de queixa e de desamor para com a RTP-Açores. 

Infelizmente, e em vez de se ter aprendido com os erros e de se dispor a emendar a mão, neste domínio, persiste nos Açores, em muitos profissionais e decisores, a mesma visão que os centralistas de Lisboa têm para com o resto do território continental.

Por isso, sinto que muito do debate que se vai fazendo sobre o futuro da RTP-A, exatamente porque esquece e omite esta dimensão da discussão, continuará a passar ao lado da grande maioria dos Açorianos. E, apesar da sua inegável importância, ele transformou-se, infelizmente, num entretenimento da luta político-partidária.

30.06.2014

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