Rúben, por que partiste tão cedo?

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Rúben, fizeste a última viagem. Aquela viagem que todos teremos que fazer um dia. Sem data marcada, sem passaporte, sem cartão de embarque, sem tempo para  despedidas. Foste. Simples-mente. Como simplesmente viveste. Tu, que carregavas um mutirão de sabedoria, de bondade, de bem querer, de carinho, amor ao próximo. Nunca um pouco de vaidade. Nunca egoísmo. Nunca falta de tolerância. Nunca preguiça. Nunca decretando o certo e errado para os outros. Nunca a ausência e descaso. Sempre encontrando o caminho bom e dando-o a conhecer a quem andava perdido.

Não foi por teres partido que, quem bem te conheceu, continua tecendo elogios ao homem que em vida só praticou o bem, criou amigos muitos, que, penso, jamais o esquecerão.

Eu estava fora do país, quando a notícia chegou. Primeiro aquela sensação que ela, a notícia, não era verdadeira. O acreditar e o não acreditar. O saber e o não querer saber a verdade. Ideias desorganizadas. Final-mente a certeza. A dor de estar longe e não poder dizer o último adeus. Mas, à minha maneira eu disse e tu sorriste. Aquele sorriso bondoso que era próprio de ti. E que ninguém igualava. Único.

Conheci o Rúben nos bancos do Magistério Primário. A nossa amizade rapidamente se consolidou. De todos os colegas foi o escolhido. Para além de colega, foi o amigo, o confidente, o conselheiro, aquele que estava sempre lá, nas boas e más horas. Para rir. Para chorar. Para ouvir desabafos, confidências, com calma e paciência. Dando conselhos.

A vida profissional separou-nos por longos anos. Quando regressei à Horta, o mesmo Rúben, feliz, sorridente, braços abertos, pronto a auxiliar em qualquer momento. O porto seguro.

Curioso, parei agora para pensar que algumas asneiras fiz, sabendo que ele estava lá pronto a remediar. Ele não foi um amigo. Foi o amigo. O único. Foi uma certeza.

Obrigada Rúben, pela amizade, pelos conselhos, pelo tempo que me dispensaste, pelo carinho, pelo aturar as minhas loucuras, pela boa vontade, pelos teus livros que me ofereceste e que são parte de ti. Das tuas alegrias e dos teus sofrimentos. Obrigada pelo bom humor que me incutiste naqueles meus dias não. Obrigada por me teres dado a honra de primeira página nos jornais que dirigiste. Obrigada pela preocupação a quando as minhas idas ao Correio da Horta, com as velhas escadas, rangendo.

Neste momento, imagino quão sofrida estará a tua família, todos aqueles que tiveram o privilégio de fazer parte do teu núcleo familiar, quando nós, os outros, nos consideramos órfãos.

Resta a consolação de ter a certeza que estás num sítio bom,  aquele que mereceste. Apagou-se o sorriso, a alegria, o montão de ensinamentos que ainda tinhas para dar, os livros por terminar e muito mais que urdido já estaria.

Agora, para ti, como para nós, dia qualquer, o eterno descanso. Longe da maldade, da inveja, da malquerença, da vaidade, tanta coisa ruim, pululando neste mundo e que aí, onde repousas não te é permitido ver, caso contrário não haveria o tal eterno descanso.

Nós, por cá, quando a saudade apertar, quando o peito doer, imaginaremos que as nossas existências são frágeis e curtas, daremos graças a Deus por termos tido no nosso caminho um Rúben e esperaremos ter a capacidade de, pensando nele, tentar imitá-lo.

Rúben, por que partiste tão cedo? Não acredito que estejas morto, porque morto mesmo é aquele que não é lembrado e assim sendo estarás sempre bem vivo entre nós, aqueles que muito te quiseram. 

Rúben, com o coração doendo, o meu último adeus!

 

 

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