Sem hesitações!

0
9

As notícias sobre a RTP muito se têm assemelhado – não fosse a falta de mais atores e atrizes para animar o enredo – a uma novela de baixa qualidade e pouco pensamento. A mudança de opinião (ou decisão), neste caso tornada pública por quem manda, chegou a ser quase diária, imprudente, irrefletida, irresponsável e recheada de chavões.

É bem verdade que o que distingue as pessoas na política (sim, porque defendo que não há políticos; há pessoas a desempenhar funções políticas, o que é profundamente diferente!) não é o chavão nem a responsabilidade, nem a reflexão e nem a prudência. Todas estas características pareceram estar a anos-luz de alguns protagonistas da política e, muito especialmente dos ministros que constituíram o elenco do assunto que comentamos hoje: o que se tem e não tem decidido quanto ao futuro da RTP.

A última saída encontrada pelo Conselho de Ministros é fatal: mandatar Miguel Relvas para reestruturar a RTP. O próprio já fez declarações quanto ao emagrecimento, quanto à dureza, quanto à saída de trabalhadores… e irá dizer muito mais, se a tal for instado pela comunicação social.

Apetece-me repetir o que, há uma semana, o antigo Presidente da República Ramalho Eanes dizia (a propósito dos cortes nas reformas): “até me podem cortar mais, mas mostrem-me resultados positivos”. Pois… o que temos acompanhado sobre o pensamento político de um serviço público de televisão, tem sido muito pobre e sem visão de futuro. Uns parecem querer livrar-se a todo o custo de um incómodo (RTP) para não terem de olhar de frente a prova da sua incapacidade de decisão; outros parecem ter muitas ideias, muitos modelos escritos e pensados, mas quanto a substância real… foi o que se viu: adiar, uma vez mais, o assunto, para não provocar melindres internos na fragilizada coligação.

Assim a RTP Mãe e a RTP Açores continuam com as mesmas interrogações que tinham há um ano ou dois – ou muitos mais, se quisermos ir a fundo num assunto em que nenhum governo mergulhou, por falta de coragem ou de entendimento.

A RTP Açores, mesmo com todo o progresso e com todos os canais que nos chegam a casa, não é um canal qualquer. É o único que (ainda?) retrata a nossa identidade. É o único que dá notícia dos livros dos nossos autores e das exposições de artes plásticas. É o único que mostra as nossas ilhas quando o céu está azul, o mar é um espelho e a notícia é que estamos bem, graças a Deus (agora nem tanto, mas estivemos e voltaremos a estar). É o único que leva a procissão do Senhor Bom Jesus e de Nossa Senhora das Angústias a nossas casas. É o único que chama a atenção para a estrada por reparar onde passa todos os dias o Ti Manel. É o único que fala das necessidades das nossas crianças e dos nossos idosos. É o único que alerta o nosso governo para as dificuldades das famílias e das pequenas empresas. É o único que dá a palavra ao nosso povo.

A RTP Açores é, por estas razões e mais um grande número de outras, que nem caberiam neste jornal, a ponte que une Santa Maria ao Corvo, os ativos ao entretenimento repousante, os aposentados à informação sobre assuntos da sua terra e do mundo, o desporto da nossa ilha ao desporto nacional, as organizações solidárias a quem delas necessita, os cidadãos aos seus representantes eleitos.

A RTP Açores é a nossa Autonomia. Espero que assim seja vista, respeitada e estimulada a servir o público a quem se destina. E que na sua defesa estejamos todos nós, de cabeça erguida e sem hesitações.

alziraserpasilva@gmail.com


O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO