TAXISTAS E EU…

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Tenho andado em tanto táxi por esse mundo de Deus que nem imaginam a quilometragem que possa ter feito. Taxistas falando línguas diferentes mas com gestos semelhantes que nem só! Taxista é um ser plurifacetado. Ele sabe de tudo. Comenta, explica, dá dicas, tem olho de lince. Ele é o político, o médico, o juíz, o conselheiro, o fazedor de anedotas, o rico-pobre, o pobre-rico, o trabalhador incansável, o pensador, o lutador, o psicólogo, o actor, o cantor, o incompreendido … Todo o taxista é bom. Se o não fosse não teria sido taxista. É certo que há um taxista agressivo porque desesperou de ser bom. É que ser bom, cansa! E ele, por vezes cansam-se porque se apercebeu que o fulano que carrega na retaguarda não se converteu à sua bondade e aí o caldo entornou! Há o taxista que conta infelicidades: empregos perdidos, assaltos, roubos, atropelamentos por culpa doutros, falta de dinheiro, amores que bateram asas e voaram e, pior, derrotas do seu clube ou do seu partido. Há o supersticioso que vai logo falando na sexta feira, no dia treze e nas infelicidades sofridas. Aqui é necessário que ele se convença que nos converteu. Há o taxista silencioso, somente informa ser amigo pessoal duma qualquer figura pública. E apaga. Este é português, sempre. Há os penetras da solidão que falam de tudo e cantam nos intervalos, quais gondoleiros de Veneza. Os franceses entopem-nos com narrativas cheias de afluentes subafluentes, árvores geneológicas, retificações cronológicas. E o trombudo inglês que nos ignora completamente e se temos a petulância de lançar ao ar um monossílabo, ele vai prevenindo que seus ouvidos não suportam ruídos. E por aí, todos iguais, todos diferentes. Mas há o brasileiro que vai abrindo a porta, bem-humorado, cumprimentando: Dona, beleza, o tempo tá esquentando, gostoso! Deseja liga a tv para si “lá na terra dele quase todos os táxis tem. E arranca, não sem antes se informar qual o caminho a dona prefere seguir. Se não conhecemos as ruas, aí estamos tramados. Eles entendem que somos uns estrangeiros imbecis e fazem um tour como lhes dá na gana, enquanto falam pelos cotovelos. Todos amam Portugal, amam os portugueses e no fim da viagem amam enganar-nos, pedindo uma catrefada de reais com o taxímetro desligado. Aí, convém sair rápido, abrir berreiro, chamar o policial. Este chega, a passo de tartaruga, encontrando tudo em ordem e o taxista pedindo desculpa pelo engano. Quer esquecer a chateação da vida? Domina o inglês? Entre num táxi no Egipto e verá como tudo vira maravilha. E há o taxista teimoso. Em Paris, um deles, mal-encarado, recusou viajar com quatro pessoas e uma criança de um ano. Essa criança fazia toda a diferença. Mas, foi acrescentando, se lhe dessem mais uns euros anulava a diferença. Danou-se. Foi apanhar urtigas. Em Itália, português mal entra no táxi, chovem elogios aos portugueses, chovem docinhos e chovem reclamações pedigotadas contra a Santa Madona. Italianos são o povo mais simpático da Europa mas dão cá um cansaço que só Deus sabe. Em Lisboa já aprendi que não convém “jamais “contrariar um taxista. Pode ele contar-nos o óbvio e o incrível, chatear-nos até mais não, mas nosso dever é fingir submetermo-nos ao seu proselitismo. Há também os faisões, os retroactivos que perante uma ocorrência qualquer, atiram: Eu já sabia! Eu não disse! É sempre assim! Ou então de repente: não sei onde vamos parar! Este povo é uma …! Fazer o quê? Há pouco em Lisboa, entro num táxi e ele, o taxista, disse bom dia e apagou. De repente ele desabafa: minha senhora, se ouvir dizer que o filho da Dona Amélia se enforcou, fui eu.! E esta, hein? Na Horta, após uma chuvada, pego um táxi. Bom dia- diz ele. Cabeleireiro, não é verdade? Que cognome pode ter este homem? Taxista, o observador ou taxista o bruxo? Também na Horta viajei num táxi enquanto o taxista me falou sobre literatura e não à toa. Ele entendeu a minha admiração pois rematou a conversa com duas frases que guardei. “ A cultura não indica status social. É como educação. Educação não indica riqueza. Orgulho- me de ser culto e educado e sempre me dei bem. Nem lhe perguntei o nome. Mas eu orgulho-me também de um dia ter entrado naquele táxi. Obrigada, você conseguiu, sem saber, colocar um pouco de beleza onde havia uma chateação tremenda! Num dia em que eu havia acordado com humor de cão, você conseguiu acender a luzinha que me indicou o caminho da boa disposição!

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