
O Bloco de Esquerda sempre defendeu que empresas apoiadas por dinheiros públicos e que apresentem lucros, devem ser obrigadas a ter 75% dos/as trabalhadores/as do seu quadro de pessoal, com contratos sem termo e devem estar impedidas de efetuar despedimentos. Mas estas propostas, que são do mais elementar bom senso para a dignificação de quem trabalha e para a estabilidade das famílias, não são aceites pelo Governo Regional, nem pela maioria socialista que o apoia.
É natural, pois este governo e seus antecessores nunca esconderam as suas preferências. Por isso, os Açores têm desigualdades sociais brutais.
Mas a situação que se está a passar com os/as trabalhadores/as da Cofaco, na Madalena do Pico, elevou esta lógica para níveis desumanos. Estes/as trabalha-dores/as assistem, com o coração nas mãos, aodesmantelamento da empresa no Pico.
Maquinaria, portas de frigoríficos, ventiladores, entre outros equipamentos, são retirados da empresa e enviados para fora da ilha, por via marítima.
A administração da empresa nada diz aos/às trabalhadores/as sobre quais as verdadeiras intenções deste processo e, na comunicação social, surgem notícias díspares: umas dizem que a fábrica vai parar para obras, durante dois meses, outras referem um período de nove meses, outras referem ainda que a fábrica vai ser reestruturada para produtos Gourmet, e por aí adiante. Nada de concreto.
Recorde-se que várias destas trabalhadoras já sofreram, na pele, o mesmo processo, na ilha do Faial, quando em 2010, a Cofaco fechou a fábrica da Horta e deslocalizou a produção para a Madalena do Pico. Cresce hoje, no seio das trabalhadoras, o temor da deslocalização total da empresa para São Miguel.
E este temor tem uma razão de ser. Basta lembrar que a fábrica de Rabo Peixe foi recentemente alvo de um investimento de cerca de 12,5 milhões de euros, incluindo cerca de 8 milhões de fundos públicos, que se juntam a outros muitos milhões de apoios públicos, recebidos ao longo de anos.
A Cofaco não é uma empresa qualquer. Estamos a falar da empresa que é líder nacional do sector, que factura mais de 80 milhões de euros por ano e cujos lucros têm aumentado, todos os anos.
É preciso não esquecer que trabalham quase 200 pessoas, na Cofaco da Madalena do Pico. Se se concretizar esta deslocalização, estamos a falar de um profunda quebra na economia da ilha e do Triângulo. Estamos a falar de mais um importante golpe, na coesão social e territorial da nossa Região.
Os/as trabalhadores/as estão perple-xos/as, não sabem do seu futuro e ninguém é capaz de dizer, preto no branco, o que se vai passar.
Se do doutor Álvaro Sobrinho (dono desta empresa e ex-presidente do BES-Angola!) atitudes deste tipo são expectáveis, já o silêncio do Governo Regional não pode ser tolerado. O mesmo governo, tão pródigo na concessão de apoios, nada tem a dizer a estes/as trabalhadores/as?
Não tem o Governo Regional a obrigação, política e moral, de os/as esclarecer ou, no mínimo, exigir ao doutor Álvaro Sobrinho, ou a quem o representa, uma palavra de verdade e clareza a quem para ele trabalha? É claro que tem! Mas, então, porque não o faz?
Não venham os senhores governantes com a desculpa de que não podem imiscuir-se nas questões internas de uma empresa, quando o que poderá estar em causa é o posto de trabalho de centenas de pessoas e um abalo profundo na economia de uma ilha.
Ou será que não convém levantar ondas por causa das eleições autárquicas?
Mais uma vez, tudo indica que o Governo Regional escolheu um lado e – sem que cause estranheza – é sempre o mesmo!













