Um país à deriva

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Por mais habituados que estejamos a enfrentar situações rocambolescas, o governo não cessa de nos presentear com cenas de teatro que nos deixam boquiabertos. O que escrevo neste momento estará completamente desatualizado em poucas horas, mas esse é um risco que se corre, tal é a velocidade das tropelias que se sucedem a cada instante. 

Bem sei que o país vive uma conjuntura fora do comum, mas a circunstância excecional não pode ser motivo para tanto descaramento. Um governo normal, entre as suas múltiplas funções, tem o dever de contribuir para uma certa acalmia dos cidadãos, criando-lhe um estado de espírito onde a segurança e a confiança prevaleçam. E esta atitude do governo ainda mais se justifica num momento de crise, como a que atravessamos. A prática governamental deve ser geradora de um clima que motive os cidadãos para enfrentar a onda de contrariedades e não uma prática que amplifica ainda mais a angústia e a incerteza.

Quando analisamos o comportamento deste governo constatamos que a estratégia do terror se impõe como coordenada dominante. As medidas que vão sendo anunciadas são atiradas para a opinião pública como autênticas granadas ofensivas. Ao pequeno-almoço ataca-se os reformados, ameaçando com a retroatividade dos cortes; ao almoço, o alvo são os trabalhadores que estão na mobilidade geral; a meio da tarde, a seta aponta ao coração dos professores; ao jantar estica-se a idade da reforma; à ceia, anuncia-se o aumento do horário de trabalho. Esta dose repete-se dia após dia, com cambiantes que causam insónias a qualquer cidadão.  

De forma atabalhoada e descoordenada, ministros e secretários correm dum lado para o outro, como baratas tontas, falando por falar, apregoando o que lhes vem à cabeça, na ânsia de mostrarem que estão vivos e preocupados em salvar o país.  

No conselho de ministros discutem-se medidas que são anunciadas pelo putativo chefe do governo, mas o eventual chefe de outro governo dentro do governo decide demarcar-se dessas decisões em conferência anunciada com toda a pompa e circunstância. Em pose majestática, Paulo Portas apareceu à frente das câmaras de televisão a traçar a barreira da sua tolerância face aos cortes que o seu primeiro-ministro havia anunciado. 

O amadorismo da rábula foi de tal ordem que ninguém aplaudiu o “verdadeiro artista”. Não acredito que tudo tenha sido combinado entre os dois, como referiram vários comentadores políticos, porque isso seria o máximo do despudor. No final de contas, depois de várias peripécias, a máscara caiu e a barreira acabou por ser derrubada. Os analistas esgrimem, agora, argumentos para mostrar quem saiu ou não vencedor.      

Nem a estratégia nem o resultado final dignificam os dirigentes deste país que anda à deriva. Passos Coelho revela-se cada vez mais incapaz para coordenar uma equipa governamental e essa inoperância já resvalou para o próprio PSD. Militantes com responsabilidade na estrutura partidária giram em roda livre disparando em todas as direções evidenciado o desnorte que grassa nas hostes social-democratas. Do lado de Paulo Portas o rótulo de lapa ou de adesivo começa a ser consensual. Colou-se ao PSD nesta conjuntura, mas já se prepara para outras colagens, ao ressuscitar a faceta democrata-cristã do seu partido, para lhe dar um ar mais progressista. Tornou-se numa espécie de cata-vento, com a credibilidade a descer, como mostram as sondagens. 

No meio de tudo isto, o país afunda-se, perante o silêncio e a complacência do Presidente da República. Pode haver quem não se espante com tanta insensatez, mas na minha perspetiva o cinismo e a incompetência nunca estiveram juntos em doses mortais tão concentradas.

 

 

 

 

 

 

 

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