Vasco Cordeiro cambaleia

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A figura do “Presidente dos Açores” possui um enorme prestígio e carisma junto da população açoriana. É uma espécie de ungido bíblico de Deus nas Terras do Divino Espírito Santo. O seu tremendo poder de representação simbólica da terra e do povo açoriano dá-lhe uma natureza inerentemente suprapartidária.
Já tive a oportunidade de testemunhar, de forma presencial, o tremendo magnetismo que a simples presença do Presidente do Governo da Região Autónoma dos Açores provoca junto dos emigrantes açorianos. A imediata identificação de todos os açorianos com o “Presidente” é algo que nunca esquecerei. Os açorianos têm a capacidade única de ver e seguir o intangível, eternizando os mitos e o sobrenatural.
Fazer, neste caldo cultural e político, oposição e ganhar eleições “a algo mais que um homem” constitui um enorme desafio. Um desafio nunca superado desde 1976. Com efeito, nunca um Presidente do Governo Regional em funções foi derrotado no âmbito das eleições para o Parlamento dos Açores. Mota Amaral e Carlos César ganharam todas as eleições regionais que disputaram.
O mito do presidente dos Açores eleitoralmente imbatível surge num contexto institucional e legal deliberadamente equívoco. Na verdade, não existe nenhuma candidatura formal a Presidente do Governo Regional dos Açores e muito menos uma eleição formal do Presidente do Governo Regional. Vasco Cordeiro e Carlos César candidataram-se e foram eleitos deputados pelo círculo eleitoral da ilha de São Miguel. No caso de Mota Amaral, nem isso.
O regime político açoriano é teoricamente parlamentar. Na prática, o regime é eminentemente presidencialista. Um presidencialismo exercido por um Presidente do Governo Regional que não é eleito diretamente nas urnas para exercer esse cargo. O que se sobrepõe a todas as lógicas estatutárias e constitucionais – no plano das competências dos órgãos de governo próprio da Região e da forma de eleição ou nomeação dos membros que os integram – é a dimensão simbólica da escolha eleitoral interiorizada e realizada pelos eleitores. Uma parte significativa dos eleitores escolhe e vota um Presidente para os Açores, embora não seja essa a opção que consta nos boletins de voto.
A força do regime presidencialista que vigora de facto nos Açores – e que gerou maiorias absolutas do partido governamental em 10 das 11 eleições regionais já realizadas nos Açores – reside na dimensão simbólica e no prestígio inerente à figura do “Presidente dos Açores”. A sua dimensão e peso político superam claramente – em condições normais – os registos do partido governamental. Ele é, por assim dizer, o Sansão do sistema.
Se essa é a principal fortaleza do regime, não será também a sua principal vulnerabilidade? Na minha opinião, a fortaleza do regime socialista está atualmente extremamente dependente dos níveis de popularidade do atual Presidente do Governo Regional. Na verdade, mais dependente do que nunca. O Partido Socialista está claramente desgastado após mais de duas décadas no poder. O Presidente do Governo Regional representa o seu maior trunfo eleitoral. A sua aprovação junto do eleitorado supera, certamente, os valores alcançados pelo partido. Sempre foi assim.
Mas pode deixar de ser assim. Pela primeira vez é visível um desgaste crescente e já muito significativo da imagem do atual Presidente do Governo Regional. A melhor imagem que me surge para descrever este cenário é a de um guerreiro que combate sem armadura numa batalha da Idade Média. Está desprotegido. Os restantes membros do Governo Regional estão muito longe de constituírem uma guarda pretoriana. Pelo contrário, constituem uma fonte de problemas. Não têm, em geral, a preparação política adequada e acumulam um enorme conjunto de fracassos.
O Vice-Presidente do Governo Regional está tremendamente desgastado. O seu eterno discurso vitorioso já não passa junto da opinião pública. Tem muito pouco a ver com aquilo que as pessoas percecionam no dia a dia. Mais que isso: é visto pela população como uma influência ardilosa e maléfica junto do Presidente do Governo Regional. Uma espécie de Rasputine do regime.
O próprio Presidente do Governo Regional tem contribuído ativamente para o seu progressivo desgaste. Alterna, quase aleatoriamente, momentos de melancolia governativa com uma presença destemperada junto das primeiras linhas de combate. Não acerta nos tempos políticos e não consegue inverter a situação nos pontos mais débeis da sua governação. Nem sequer consegue remodelar o seu governo. Transporta cadáveres aos ombros em vez de libertar galgos. Vasco Cordeiro está, visivelmente, vulnerável.
De vez em quando a História acelera. Os gigantes são derrubados e os deuses são arrancados dos altares. Estes são tempos de ventos fortes e selvagens. Também chegarão aqui. Chegam no exato momento em que o gigante do nosso sistema político cambaleia.

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