Zona de desconforto

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Já me referi em crónica anterior à tão falada zona de conforto. Está na berra. As pessoas preocupam-se muito com a zona de conforto, mas não passam cartão à zona de desconforto. Habituaram-se. É de lamentar, porque esta é uma zona tramada, não tem como modificar e aí daquele que cai nela.
A meu ver uma zona de desconforto é a ilha. Nasci numa, passei longos anos nela, fui, vim, voltei milhentas vezes, fui deixando o meu coração horrorosamente mutilado pelos mais estranhos lugares onde consegui afogar a minha angustiada sede de conhecimentos.
Afinal o que é a ilha? Ilha é um pedacito de terra que, qual criança rebelde, fugiu à mãe, caiu no meio do mar e, atordoada, sentindo-se molhada, levantou a cabeça e, entendeu que afinal, um mal nunca vem só. Apesar de toda aquela água que a rodeava, outra água caia de cima, porem mais doce. Naturalmente vinha do céu. Era o castigo. Água por todos os lados. Um fartar vilanagem. Acomodou-se. E assim nasceu a ilha.
Afinal o que é a ilha? Ilha é uma casa sem teto. Ilha é uma prisão sem grades. Ilha é um poço sem fundo. Ilha é mar e fogo. Ilha são ventanias descontroladas. Ilha são estações destravadas. Ilha é um reles esqueleto duma solidão sem fim. Ilha é o acenar com um lenço em vez de partir. Ilha é zona de desconforto de quem lá caiu. Ilha é noite dentro de nós. Ilha é um emparedamento de ar. Ilha é um lixar de feridas que não curam. Ilha é a adolescente criatura que atingindo a maioridade, nunca adquiriu a maturidade suficiente para ser independente. Ilha, tenha a idade que tiver, tem forçosamente que continuar lá, no meio daquela montoeira de água salgada, feita papai e mamãe para ela.
Ilha não tem pontes. Não tem asas. Sozinha nada resolve. Não pode entrar ou sair quando lhe apetece. Ilha não pode nem lidar com outra ilha, sozinha. Nem opinar. Não tem comboio. Não tem autoestradas. Ilha é uma miniatura de um país. Ilha espera transporte marítimo ou aéreo, sendo este ultimo um bico de obra. Ilha é castigada por vulcões que a destroem e empurram muitos dos seus filhos para longe. Sem compaixão. Eles, por vezes voltam, mas a conversa já é outra, porque entre um vai e um vem, tomaram conhecimento e coragem! É uma visitinha. Chega, olha e desaparece.
Os habitantes da ilha nasceram da lava. Do pedregulho. São valentes. São trabalhadores. São simpáticos. Mas estão ali plantados. Não serão totalmente felizes. Olhando a vida inteira aquela água, sempre a mesma água, será tortura. É como ter dor de barriga e não encontrar um banheiro. É como ter um enferrujamento de inteligência.
Ilha é lugar ótimo para turistas. Apreciam a paisagem, deleitam-se com a comida, fazem amigos e regressam sem olhar para trás, carregando seus recuerdos, enquanto os amigos de ocasião, crédulos, ficam esperando improváveis regressos.
O filho da ilha tem um sentimento muito peculiar – confia, confia e confia. Confia sem desconfiar. E porquê? Porque julga os outros por ele. E ele é uma pessoa de confiança. É isso!
Leitor, você se visitar qualquer ilha, antes de abraçar as belezas, apreciar coisas e loisas, deleitar-se com a culinária regional, olhe em primeiro lugar, olhos nos olhos, qualquer habitante da ilha. Aí sim você estará a submeter-se à melhor avaliação daquele lugar porque os olhos que encontram os seus são uma verdadeira enciclopédia. São olhos carregados de sinceridade que aconselho seja levada na vossa bagagem, para mais tarde recordar em dias menos felizes, servindo como lenitivo de seus contratempos.
Falo com conhecimento de causa. Foi assim que armazenei pela vida fora amores, amizades, carinhos, lições de humildade, sinceridade, hospitalidade, respeito, bem querer, o saber dar sem esperar em troca, um nunca mais acabar.
Leitor, aproveite a ilha para boas férias. Vai caçar afetos. Caçar liberdade. Caçar calorias para a alma. Caçar ares puros de sinceridade e simplicidade. Caçar o amanhã e o depois. O habitante da ilha diferente. Talvez a solidão. O mar infinito, façam dele um ser especial. Um ser que é gente e gosta de gente. E isto é algo que quase já não existe, neste mundo conturbado onde nos movimentamos.
Ah! Eu pensando alto e o leitor de saco cheio! Falta pouco. Não há bela sem senão. Estive a falar na regra, esqueci a exceção. Nas ilhas também vagueiam pessoas de mau caráter. Possivelmente por defeitos de educação, traumas de infância, fatores endógenos ou outros que os fazem tornar diferentes, o que é pena. E mais não digo.

 

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