
Todos os regimes de hegemonia política longa possuem um prazo de validade, que uma vez superado torna o ambiente tóxico e irrespirável. Na melhor das hipóteses cheiram a naftalina.
Os regimes podem manter-se ainda durante anos ou décadas, mas não passam de moribundos agarrados pateticamente ao poder. O futuro assusta-os. A sua única ambição é parar o relógio e congelar o tempo. Sabem que o fim está cada vez mais próximo. A cavalgada imparável do “tic-tac” do destino provoca-lhes um nervoso miudinho.
George Ball, que foi Subsecretário da Administração Kennedy, descreveu exemplarmente, após uma reunião com Salazar, a natureza decadente e arcaica do “salazarismo tardio”: “Portugal é governado por um triunvirato constituído por Vasco da Gama, o Infante D. Henrique e Salazar”.
O hegemónico regime socialista açoriano é um desses viajantes do tempo. Pertence a outra época e vive num quadro mental arcaico. Após mais de duas décadas de hegemonia incontestada, o regime feudalizou-se. Já não vivemos na época dourada do Império de Carlos, o “Magno” dos socialistas locais. Como escrevi em artigos anteriores, o poder socialista açoriano desintegrou-se em dezenas de baronatos locais.
Nestes autênticos reinos taifas, o dirigente dominante age como um verdadeiro régulo. Na sua área de jurisdição privativa – que pode ser uma zona geográfica do arquipélago, uma área da administração regional, uma empresa pública ou uma qualquer instituição colonizada da sociedade civil – o “Senhor da Guerra” local impõe sempre a sua vontade. Nada nem ninguém contesta as suas decisões, por mais imbecis, irresponsáveis e imorais que sejam.
O atual Presidente do Governo Regional é uma espécie de Lotário do Império. Possui o poder simbólico e de representação do regime, mas tem de dividir o poder real e efetivo com um grande número de belicosos potentados, de âmbito regional ou local.
Neste intricado e implodido sistema de poder, o primeiro nível de responsabilidade também pertence a um triunvirato: Vasco Cordeiro, Carlos César e Sérgio Ávila. A seguir pontificam diferentes potentados locais ou sectoriais, que possuem uma agenda política própria.
Vou dar um exemplo: o deputado André Bradford. Trata-se de um homem profundamente pessimista em relação à natureza e motivações intrínsecas dos políticos. Num artigo, publicado neste mesmo jornal em 1996, Bradford defendia que quando votamos “estamos, em larga medida, a promover pessoas que centram o mundo no seu umbigo e que buscam recompensas financeiras, emocionais e sociais que nunca tiveram”.
Num outro artigo, de outubro de 1996, o atual líder parlamentar do PS/Açores aprofundou um pouco mais o seu pensamento em relação ao sistema parlamentar. Referiu que “é por demais sabido que as únicas matérias que recolhem unanimidade nos parlamentos portugueses – Assembleia da República e assembleias legislativas regionais – são os votos de pesar e os aumentos de privilégios dos deputados, nomeadamente no que aos salários diz respeito”.
O homem que escreveu o que agora escrevem líderes da extrema-direita europeia como Nigel Farage, Geert Wilders, Marine Le Pen ou Heinz-Christian Strache é agora o líder parlamentar do PS/Açores.
Estou absoluta e honestamente convencido que André Bradford tem uma agenda própria: desestabilizar, isolar politicamente e provocar a queda da atual liderança do PS/Açores.
A sua liderança parlamentar – intransigente em relação a qualquer esforço de diálogo com a oposição – procura incessantemente o conflito e o confronto parlamentar violento. Talvez esteja apenas a projetar os velhos ideais da juventude. O mais provável, no entanto, é que tenha lido Maquiavel.














