Pesadelo…

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Acordo, alta madrugada, enrolada num pesadelo daqueles! Tenho que saltar rápido da cama. Noite escancarada, janela aberta, agarro nos restos do pesadelo e lá está D. Lucília, olhos arregalados olhando aquela montoeira de algarismos que eu atirei para o papel meio à toa. Não sei se ela me olha simplesmente ou se confere as gafes escancaradas como sempre.

Tentando terminar o pesadelo daquele pedaço da noite, sento-me à secretária, papel na frente e busco o garimpo quotidiano de lembranças e imagens. Não aquelas. Outras, minhas, a sucata de muitas vidas que rebusco, preciso olhar, ver, tocar e perceber. Para chegar ao destino. Um destino próximo e incerto. Bom ou ruim? Só Deus sabe! 

Nada disto se passaria caso não fosse Verão. Não teria tido por certo, o tal pesadelo com D. Lucília. De Inverno o caso muda de figura. Gosto do frio de ossos, gosto de lãs, peles e luvas. Gosto de sopa quente, chá fumegante, lareira acesa. Gosto de vento, chuva, neve e trovoada. Ele, o inverno é aquilo que mais adoro. Tento abraçá-lo mas ele foge correndo. E eu tento partir junto no gelo da mesma viagem. Lembro dum poema de Frost que diz que o gelo acabará com o mundo. Não se terá ele enganado? Não será o calor?

Há coisas que não conseguimos varrer da nossa memória. Não há conta à quantidade de acontecimentos que existem entre mim e o passado. Por isso, eu continuo olhando insistentemente para ontem. Chego a confundir o amanhã com o hoje. E é assim que aparece D. Lucília, professora de matemática, com o indicador em riste: Maria Antonieta, ao quadro.

Levei tempo pensando que D Lucília me amava mas houve o dia em que entendi que ela me odiava e foi então que aquele dedão se transformou em arma de fogo. Eu ficava na aula encaixada entre outras marias, mas ela sempre na mira. Se a coisa corria bem (era difícil) eu era a Antonieta. Caso contrário tinha direito à Maria. Por que será que os meus pais usavam este método? Só era Maria Antonieta quando fazia asneira.

Bom, D. Lucília implicava comigo. Eu era má aluna, certo, mas quando ela jogava isso na minha frente, pior eu me tornava. Uma das coisas que me infernizaram a vida foram as raízes quadradas. Ela explicando e eu pensando num montão de raízes que conhecia sem que nenhuma fosse quadrada. Faz o exercício. Já! Sai da lua! E eu falando que não acreditava em raízes quadradas mas sim noutras com mais formas, até redondas como as batatas. Nesse dia ela explodiu: Tubérculos, tubérculos, Maria Antonieta. E assim para mim, elas, as raízes, se tornaram num montão de aranhas tecendo um campo de concentração.

Sempre achei que D. Lucília não era lá grande coisa a matemática. Ela chamava uma aluna ao quadro para fazer um exercício. E ficava na moita. No fim, se o resultado não condizia com a resposta que ela tinha no caderninho, mandava apagar tudo, dizendo que tinha sido um treino matemático. Errado. Mas explicação, era o tanas! 

Bastas vezes me ameaçou dizendo que no fim do ano não me safava, pensando que as outras notas eram boas porque eu encaixava tudo ràpidamente e isso era muito contingente (ela adorava falar contingente) porque de repente eu tinha um apagão e não havia a matemática para me salvar. E eu nas tintas! Ainda arranquei um 12 a matemática! Até hoje, desconheço o milagre.

O que sei é que se não fosse a raiz quadrada, a minha vida tinha sido outra! E os leitores não estariam neste momento tão entediados!

As outras professoras não me tornavam a vida difícil. Como já referi em crónica anterior, volto a repetir, a professora que me marcou para a vida, me ajudou a superar obstáculos, a ter gosto pela matéria, fazendo duma aluna medíocre, uma boa aluna, foi D. Ilda Machado Frayão. Foi a minha professora de inglês. Foi a amiga, a conselheira. Havia energia bonita nas suas palavras, uma convicção, uma dignidade sincera, tão sincera, que naquelas aulas aguardadas com ansiedade, sentia-me ao colo da mãe, lembrava a doçura daquela torta de chocolate no meio das festinhas de criança. A amizade e o carinho que sentia por ela não tinham prazo de validade. Eram feitos de sentimento, felicidade plural. Tudo ainda vivo. Cá. 

D. Ilda foi um marco na minha vida. Ela continua no meu coração. Cresci, segui o meu rumo, ela também, mas de quando em vez, eu pensava nela e a revia olhando os filhos. Faleceu cedo e eu, longe e já muito grande então sofri muito. Embora não estivéssemos em contato, considerei isso uma orfandade e pensei que o céu é um mar de insensatez! O adeus a alguém que gostamos nunca vem só. É acompanhado sempre por uma bagagem gigante. Anda aos bandos, assustado com a solidão que provoca.   

 

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