A China e os Açores

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Quando uma potência como a China realiza, num tão curto espaço de tempo, várias visitas de altíssimo nível a um território como os Açores, a conclusão que se deve retirar é que os Açores interessam geopoliticamente à China. Têm enormes interesses em África e já perceberam que é difícil assegurar seja o que for numa região tão instável politicamente. Os Açores têm todas as condições para servirem de plataforma de projeção militar na África Ocidental e também de grande entreposto comercial no espaço atlântico.
No curto espaço de 20 anos, a China passará a ser o maior importador do petróleo do Médio Oriente e passará, também, a ser a potência que terá mais a perder com uma eventual destabilização da zona. Interessa-lhe, por isso, ter mecanismos de projeção de poder militar na zona. O problema é que não é fácil fazê-lo a partir do Índico. A Índia, potência rival, dificilmente tolerará a instalação de bases chinesas a oeste do seu território. O Corno de África é quase ingerível e a China também não tem a possibilidade de contar com um território como Diego Garcia. Neste contexto, os Açores representam uma hipótese sólida para construir uma plataforma de intervenção logística.
Por fim, é preciso ter em conta que os americanos possuem a jurisdição de territórios insulares do Pacífico muito próximos da costa chinesa, pelo que a China vê com muitos bons olhos a criação de um cenário simétrico junto da costa atlântica dos Estados Unidos.
Para muitos é difícil acreditar que a China se tenha transformado numa potência global, com vastos interesses geopolíticos (incluindo, como é óbvio, o poder militar) fora do Mar da China Meridional. Para os portugueses é ainda mais difícil olhar para a China como uma grande potência. Afinal, Portugal manteve, até há apenas 17 anos, a administração de uma parte do território chinês. Foi em Macau, hoje uma Região Administrativa Especial da República Popular da China, que Portugal fechou o seu ciclo imperial de quase 600 anos.
A História dá muitas voltas e hoje é a China que, de forma paulatina, procura instalar e a afirmar os seus interesses geopolíticos numa parte do território nacional que controla mais de 2/3 de uma gigantesca zona de jurisdição marítima, com cerca de 4 milhões de km² (algo equivalente a quase 50% do território continental chinês).
Durante séculos, a China representou o protótipo de potência “isolacionista”. Nada exterioriza melhor essa natureza que a “Grande Muralha da China”. No essencial, o poder imperial chinês preocupou-se, de forma quase ininterrupta, em manter o Império fisicamente separado do mundo exterior. Era uma atitude baseada num conceito de superioridade civilizacional em relação aos bárbaros que habitavam nas fonteiras do Império, mas que também se destinava a manter sob controlo a imensa população chinesa (assim resguardada de influências exteriores)
Tudo isto não impediu que a China mantivesse uma suserania muito teórica sobre alguns povos que habitavam na periferia imperial. É o caso da Coreia ou dos reinos vietnamitas. Além disso – durante um curto período de tempo, é certo – as expedições do Almirante Zheng He no Índico, realizadas entre 1405 e 1421, demonstraram que a China possuía, naquela época, a força naval e a superioridade tecnológica necessárias para alargar a sua influência política e domínio militar muito para além das fronteiras e da periferia imperial. O facto de não o ter feito não resultou de qualquer desastre ou incapacidade militar ou tecnológica. As grandes expedições navais chinesas do início do século XV – que chegaram à África Oriental – terminaram porque o poder imperial decidiu abandonar o projeto e voltar a fechar o país.
Esse isolamento autoinfligido atrasou, do ponto de vista económico e militar, o país e colocou-o à mercê das grandes potências industriais da Europa do século XIX (e também de um Japão rapidamente industrializado). No início do século XIX, Napoleão deixou, a propósito da China, o seguinte aviso: “Deixem a China dormir, porque, quando ela acordar, o mundo inteiro tremerá!”. A verdade é que a China, após alguns séculos de decadência, readquiriu o seu milenar estatuto de “grande potência”. Estatuto que já detinha na época do Império Romano.
Esta nova China abandonou o seu secular isolamento. Aprendeu a lição de que tem de competir, do ponto de vista económico e geopolítico, neste novo mundo globalizado pela tecnologia e pelo comércio. Ainda assim age com a autocontenção que resulta de uma experiência histórica de milénios. Ao contrário das instáveis e imprevisíveis potências novas, a China atual recuperou um grande sentido da História, algo que lhe permite planificar – de uma forma caracteristicamente confucionista – a sua política externa à luz de “um tempo longo”.
Nesta perspetiva, os chineses olham para os Açores como a periferia de uma país pobre e arruinado, com uma das maiores dívidas externas do mundo. Portugal reúne todas as condições históricas para ser “colonizado” por poderes externos fortes. A China é um desses poderes.

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