A evolução da paisagem

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As pessoas evoluem ao longo da sua vida. Assim como as pessoas, também as paisagens evoluem e algumas mesmo à escala temporal humana como é o caso do Vulcão dos Capelinhos. No período em que este vulcão faz sessenta anos vale a pena olhar para o pedaço de terra que foi acrescentado ao Faial como um fenómeno geológico, mas também como um caso de estudo. De facto, este foi um dos vulcões mais bem estudados, havendo observações desde que surgiu até ao seu apaziguamento. A análise destas observações dá-nos valiosas pistas sobre os fenómenos de eclosão da vida em ambientes primordiais insulares. O modo como determinados animais e plantas conseguiram povoar uma paisagem de cinzas e lava pode dar-nos indicações tanto sobre os fenómenos que ocorreram no passado, aquando do surgimento das ilhas, como daqueles que podem ocorrer no futuro. 

Nos anos sessenta e setenta do século passado, após o apaziguamento do vulcão, não foram as espécies endémicas pioneiras, mas sim algumas espécies consideradas invasoras que ganharam terreno e permitiram a estabilização das cinzas. Também por estímulo humano, em vez da urze (Erica azorica) ou da faia (Morella faya), surgiram em primeiro lugar a cana (Arundo donax) e o chorão (Carpobrotus edulis). Nos últimos anos esta zona tem sido alvo de importantes ações no âmbito da conservação da natureza promovidas pelo Parque Natural do Faial que permitiram que a urze (Erica azorica) e o bracel (Festuca petraea) se instalasse nos locais mais inóspitos e que, em locais mais abrigados, começasse a surgir a faia (Morella faya).
No entanto, os fenómenos naturais mais importantes deste vulcão são a erosão e a abrasão, ou seja, a desconstrução do vulcão. Por se encontrar tenuemente ligado a terra firme e muito exposto à abrasão (erosão marinha) e erosão eólica e hídrica, as cinzas têm desaparecido rapidamente. As pessoas de setenta e oitenta anos que se lembram de como ele era no início têm a perceção clara deste fenómeno. Atualmente podem observar-se profundas ravinas presentes ao longo da estrada de ligação ao Porto Comprido resultantes da atuação inclemente da natureza sobre a natureza. Se nada se fizer em contrário, a erosão pode conduzir a que parte da área de ilha ganha pelo vulcão se perca ao longo das próximas gerações. Este fenómeno pode ser contrariado usando técnicas de engenharia verde ao longo das ravinas causadas pela erosão hídrica, por exemplo. Estas técnicas são úteis para criar bacias de retenção de água e sedimentos e para meandrizar as linhas de água criando-se deste modo diversos percursos por onde ela possa correr e infiltrar-se e, com isto, atenuar a torrencialidade.
Uma outra questão que se coloca no Vulcão dos Capelinhos com cada vez mais premência é a da sua capacidade para sustentar carga humana. Quem se tenha deslocado a este local em lazer durante os meses de verão facilmente constatou o elevado número de turistas. Se alguns se dedicam a visitar o Centro de Interpretação e a percorrer os trilhos estabelecidos, usufruindo das vistas nos miradouros adequados, outros há, mais afoitos, que sobem ao vulcão, percorrem áreas fora dos trilhos e tentam atingir locais que podem ser perigosos, como determinadas zonas mais escarpadas do Costado da Nau. Estes comportamentos, se multiplicados por dezenas ou centenas de visitantes, degradam a paisagem e algumas das marcas visíveis dessa degradação são os trilhos informais que estão a surgir aleatoriamente. Há que estar atento a esta realidade, como tem feito o Parque Natural do Faial, e cada um de nós deve intervir civicamente quando confrontado com comportamentos que contribuem para a degradação do nosso património natural.
É, então, importante estabelecer técnicas de prevenção da erosão, para além das plantações de flora endémica e de outras ações de conservação da natureza que já estão a ocorrer no local, e também estabelecer e divulgar regras para o comportamento humano adequado nesta sensível área. Tudo isto para que o vulcão dos Capelinhos, que é um vulcão que tem uma escala temporal humana, se possa perpetuar por muitas mais gerações. Os nossos descendentes merecem ter a oportunidade de o conhecer! 

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