Início Artigos de opinião Alzira Silva A Grandeza da Simplicidade

A Grandeza da Simplicidade

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Em 2 de março de 1944 nascia Daniel de Sá para partir sessenta e nove anos depois, deixando um murmúrio de espanto e de pesar à sua passagem. 

Não tinha o bairrismo atávico de se considerar homem de uma só ilha. S. Miguel era a ilha do seu nascimento, Santa Maria a da sua juventude. A Maia era a sua casa, o abrigo familiar onde se cultivava e criava e se descobria em amplas generosidades repartidas com os amigos. 

Daniel de Sá era um dos raros homens doutos que conheci; a visão dos vários ângulos de que só os grandes desfrutam era natural nele bem como a palavra assertiva e a sentença conclusiva. Era comum ouvi-lo ou lê-lo a desfazer teimas entre os amigos e a resolver polémicas entre os intelectuais. Quando as dúvidas pairavam, era o Daniel quem as resolvia, com o seu excecional conhecimento pluridisciplinar; quando o tom se toldava, era o Daniel quem era chamado a encerrar as altercações, desfazendo dúvidas e repondo a serenidade no grupo. Sempre com elegância e urbanidade, sempre na mais absoluta reverência à justiça e às razões que assistiam a cada um. 

A sua voz era, assim, sempre respeitada porque reconhecida a autoridade da sua erudição e da sua estatura moral e ética. Porém, Daniel nunca se impunha pela elevação da voz ou pela atitude sobranceira. Sabedoria, humildade e simplicidade são os conceitos que melhor o definem. E mais uma vez, eram naturais em si, tão naturais como a sua necessidade de conhecer, de dar, de servir.

Estas qualidades acompanharam Daniel de Sá como Professor, como Mestre e como Deputado à Assembleia Legislativa. Era um socialista na mais pura aceção do socialismo democrático. Numa altura em que os exemplos na política parecem esbatidos, é saudável lembrar os princípios e os valores que o nortearam e a tantos dos que ainda estão entre nós e dos que já partiram. 

Daniel de Sá foi um conselheiro dedicado, discreto e leal, honrando com a sua amizade e a sua opinião clara e corajosa todos os que delas precisavam, na política e na vida. 

Esteve comigo em dois momentos que garantiram a minha eterna gratidão. Na primeira intervenção que escrevi como Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e que nunca cheguei a apresentar. Daniel de Sá foi o único ser humano fora da minha hierarquia a conhecê-la; com ele conversei livremente sobre cada vocábulo – e não poderia tê-lo feito com outro alguém, porque só ele dominava a palavra e o conhecimento político desprendido para uma análise pura. 

Da segunda vez que esteve comigo, foi numa pesquisa urgente acerca de poetas açorianos. Pedi socorro aos meus amigos das letras mais chegados, experientes e conhecedores: o Daniel foi o único que resolveu o assunto em vinte e quatro horas, com a eficiência e a generosidade que lhe eram características, oferecendo graciosamente o seu trabalho, desta vez à Assembleia, embora tivesse sido eu a peticionária. 

Não partiu apenas o vulto das letras que todos conhecem – e se não conhecem, não deixem de conhecer. Só o título “E Deus teve medo de ser homem” revela – entre os outros, também inspirados – a sua arte na escrita. Partiu, sobretudo, e sou apenas uma pequena voz entre muitas, o ser humano distinto, o amigo solidário, o testemunho de fé na humanidade.

Quem é assim, fica entre nós enquanto permanecermos. E o seu silêncio é, desde ontem, um rasto de luz. 

 

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