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“A mulher é o único receptáculo que ainda nos resta, onde vazar o nosso idealismo.” – Goethe

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Remexendo entre velhos papeis encontrei as notas biográficas, que recolhi na altura da sua morte, de uma mulher que admiro bastante e cuja história e percurso pessoal não me parecem suficientemente conhecidos e assim decidi reordenar essas notas e partilhar convosco. De seu nome completo RUTH MANUELA ROSENBERG PFLÜGER LARA nasceu em Lisboa a 17 de Setembro de 1936, filha de Lotte e Hermann Pflüger, alemães presos e perseguidos pelo regime (fugidos ao terror) nazi de Hitler, ela por ser  judia e ele por ser considerado comunista refugiaram-se em Lisboa onde se fixaram, vivendo de lições particulares de língua e literatura alemãs. Os Pflüger mantiveram durante toda a vida ligações com a esquerda portuguesa, educando os seus dois filhos nos mesmos princípios.  Assim, desde muito jovem, ainda estudante do secundário, Ruth Lara envolveu-se em actividades cívicas e políticas de oposição ao regime, tendo estado ligada ao MUD-Juvenil entre 1950 e 1953. Também cantava no Côro de Lopes Graça. Foi no âmbito dessas atividades que conheceu o homem a quem se ligaria por toda a vida, Lúcio Lara, estudante angolano em Lisboa, já  com intensa actividade política clandestina no movimento pela independência das colónias portuguesas, ao lado de Agostinho Neto e outros. Ruth e Lúcio casaram em Julho de 1955 e no ano seguinte nasceu o seu primeiro filho, Paulo. Entretanto, a repressão apertava o círculo sobre os angolanos e em Março de 1959 Lúcio Lara, em concordância com a palavra de ordem dos angolanos de não se deixarem apanhar pela PIDE e prosseguirem a luta fora de Portugal, tomou a decisão da fuga. Ruth e o filho iriam com ele. Como em outras circunstâncias aconteceu ao longo da sua peregrinação por vários países, contaram com o pleno apoio moral e financeiro do casal  Pflüger, que lhes proporcionou o primeiro asilo entre os parentes na Alemanha. Como se demonstra nos documentos publicados e comentados em livro por Lúcio Lara, Ruth Lara esteve ao seu lado, colaborando de diversas formas nas actividades do grupo que, primeiro na Europa, depois em África, passou do Movimento Anti-Colonial (MAC) à constituição formal do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), cujo primeiro Comité Diretor se instalou em Conacry. Para se juntar ao marido, Ruth Lara para ali seguiu com o filho em 1960, de França via Marrocos, numa aventurosa  viagem de barco.  Residiu em Conacry até 1963, trabalhando como professora (vantagens de ser também francófona, pois estudara no Liceu Francês em Lisboa) e colaborando estreitamente com o grupo que incluiu Hugo de Menezes (e sua esposa Salette), Mário de Andrade, Amílcar Cabral, Viriato da Cruz (e sua esposa Eugénia), o médico Eduardo dos Santos e sua esposa Judith (Mariazinha), o Dr. Américo Boavida e sua esposa Conceição, Gentil Viana, Marcelino dos Santos e muitos outros. No entanto, devido à  indefinição do papel que a organização nacionalista dava aos não angolanos e porque nunca Ruth Lara gostou de situações mal definidas, entendeu devolver o seu cartão de membro do MPLA em 1962, sem por isso deixar de dar o máximo de colaboração que as suas capacidades lhe permitiam.

Em 1963, já com mais uma filha (Wanda, nascida em Conacry),                    partiu para Léopoldville de novo ao encontro do marido, pois a direcção do MPLA transferira-se entretanto para o Congo-Léopoldville, mais próximo da fronteira angolana e da frente de luta armada já desencadeada. Porém, como é sabido, expulso o MPLA de Léopoldville/Kinshasa, acabaram por ter de partir outra vez, para a vizinha República do Congo-Brazzaville, onde nasceu o terceiro filho do casal Lara, Bruno. Mais uma vez a actividade profissional de Ruth, enquanto professora de Matemática no Liceu Mafua-Virgile de Brazzaville, serviu não só para o sustento da família como para apoiar em sua casa um sem número de camaradas de luta, que conheceram a sua hospitalidade desinteressada e amiga. Nesse período, a família cresce com “filhos adotivos”: José da Silva, Júnior Cadete, Jean-Michel Mabeko-Tali, tal como mais tarde, já em Angola, se tornarão também seus “filhos” José Katuya (“Vantagem”), Catarina (“Valia”) e Paulo Samba. Entretanto, Ruth continuou a                           colaborar com as atividades do MPLA, quer como tradutora quer, por exemplo, na elaboração, com Guida Chipenda, do primeiro manual de alfabetização no período 1964-65. Embora sofresse com as longas ausências de um marido combatente, partilhava inteiramente as razões desse combate e educou os filhos na admiração e fidelidade às ideias da luta pela libertação de Angola e por uma sociedade mais justa. Em 1974, com a queda do regime em Portugal e o fim da guerra colonial, Ruth Lara partiu logo que pôde para Luanda,onde assiste à (porque queria estar lá, com o filho mais velho, assistindo) à recepção entusiástica feita à primeira delegação do MPLA chefiada por seu marido, em Novembro desse ano. Em 1975, com Agostinho Neto também já em Luanda, Ruth é mobilizada para diversas tarefas no MPLA. Pouco depois da Independência de Angola é-lhe concedida, por mérito e participação na luta pela liberdade do Povo Angolano, a cidadania angolana.

Ruth Lara, notável no seu espírito de organização, na sua integridade e na entrega militante aos ideais que defendia, trabalhou em diversos Departamentos do MPLA ligados à educação política, até ser nomeada por Agostinho Neto, em Janeiro de 1979, Diretora do Departamento de Quadros, estrutura do Partido que na época geria, entre outras coisas, o envio de estudantes para outros países. Ali se manteve até 1982, quando uma crise interna do MPLA (conhecida como a “crise da peça e do quadro”) levou à demissão e suspensão temporária, em 1983, de um grande número de militantes dos departamentos de actividade educativa e ideológica. A peça, que abordava entre outros temas, os devaneios amorosos dos atual Presidente José Eduardo dos Santos, levou ao afastamento do ministro da Educação, Ambrósio Lukoki e o biógrafo de Agostinho Neto, Costa Andrade (Ndunduma) foi preso pela Segurança de Estado. Embora posteriormente reintegrada como militante, Ruth Lara não voltou a exercer funções partidárias. Optou profissionalmente pela actividade de tradutora e por uma vida mais dedicada à família e aos amigos. Entretanto, durante anos, empenhou-se a fundo na organização dos milhares de documentos do acervo pessoal do marido, que hoje constituem um repositório valiosíssimo da história do MPLA e de Angola. Foi graças ao seu trabalho minucioso e rigoroso e à sua preocupação com a salvaguarda para os jovens do património documental que atesta o duro percurso que levou à independência de Angola, que pôde surgir o primeiro volume de documentos, que já conheceu duas edições angolanas (1997 e 1998), com o título “Um amplo movimento… Itinerário do MPLA através de documentos e anotações de Lúcio Lara”, e uma edição portuguesa, da Dom Quixote, em 2000, intitulada “Documentos e comentários para a História do MPLA”. Antes de a doença a impedir totalmente de trabalhar no computador, estava quase pronto o segundo volume de documentos, entretanto já publicado.

O carácter e a coerência desta mulher podem ser ilustrados na sua atitude face à proposta de atribuição de medalha “Guerrilheiro de 1ª classe”, alta distinção em 1990 concedida, entre outras medalhas, aos que tinham lutado pela independência de Angola. Embora sensibilizada e reconhecendo que dera ao longo da sua vida muito apoio a essa luta, ela respondeu que, em consciência, não se podia “sentir bem com uma medalha igual à de camaradas que deram a sua vida, ou que a arriscaram, que se engajaram como combatentes, o que eu nunca fui, não  porque me tivesse recusado a tal, mas porque nessa época isso não me foi permitido.” E porque não havia uma medalha “para os que apoiaram o MPLA e os seus combatentes”, não quis ela, “por respeito aos que tombaram em combate”, receber a de “guerrilheira” que lhe queriam atribuir.

Ruth Lara, sucumbiu a um cancro no dia 25 de Outubro de 2000, não foi guerrilheira, mas foi, de certeza, ao contrário do que a sua modéstia lhe fez crer, uma grande combatente.

 

* Notas biográficas elaboradas com o apoio dos filhos de Ruth e Lúcio Lara.

 

 

 

 

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