A Primeira Guerra Mundial

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Assinala-se, este ano, o centenário do final da I Guerra Mundial. Com a independência da análise militar, diplomática, económica e política, o que mais me impressiona na Primeira Guerra Mundial é o horrível morticínio de milhões de soldados, obrigados a carregar, à velha maneira das batalhas napoleónicas, contra trincheiras defendidas por barragens, praticamente intransponíveis, de fogo de artilharia e de metralhadora.
Durante quatro longos anos, a Frente Ocidental transformou-se num horrível matadouro de jovens europeus (e de tropas imperiais de diversas proveniências), que lutaram e morreram, gratuitamente, para conquistarem alguns metros de trincheiras. Lendo as descrições das campanhas militares é difícil não ficar comovido perante o horrível destino de tantas vidas.
Muito do que somos hoje, na Europa e no resto do mundo, começou a desenhar-se no final da I Guerra Mundial. No final da guerra, os impérios russo e austro-húngaro tinham sido destruídos e a Alemanha consideravelmente amputada a Leste (no conjunto das duas guerras mundiais a Alemanha perdeu cerca de 180 mil km2, ou seja o equivalente a duas vezes o território do Estado português).
Uma parte significativa dos Estados que compõem atualmente a União Europeia não existiam em 1914. No Centro e Leste Europeu, os impérios alemão, austro-húngaro e russo integravam muitas das nações que se vieram a tornar independentes após o final do conflito. Por exemplo, a Polónia, repartida no século XVIII entre os austríacos, os russos e os prussianos, só foi restabelecida graças à derrota, em simultâneo, das três grandes potências do Centro e Leste europeu. Beneficiou, desta forma, de um autêntico póquer da História.
No Médio Oriente, as fronteiras desenhadas após a I Guerra Mundial, que resultaram do colapso do Império Otomano e das ambições coloniais da França e da Grã-Bretanha, ainda aí estão, provocando pesadelos permanentes nas chancelarias das grandes potências atuais. As atuais fronteiras – e a própria existência – de Estados como o Iraque, a Síria, o Líbano e a Jordânia resultaram da partilha dos despojos otomanos entre a Grã-Bretanha e a França.
A origem do conflito israelo-árabe começa com o compromisso britânico de viabilizar um Estado judeu na Palestina. O mesmo se pode dizer da decisão – que também remonta ao final da Grande Guerra – de não atribuir um Estado independente aos curdos.
As consequências geopolíticas da I Guerra Mundial persistem nos cenários internacionais mais instáveis da atualidade. É incrível observar como a II Guerra Mundial e o colapso do bloco soviético após o final da Guerra Fria não alteraram, de forma significativa, o mapa global que resultou da I Guerra Mundial.
Passados que estão quase 100 anos após o final do conflito, continua a ser debatida a questão da culpa. A quem deve ser atribuída a responsabilidade pelo início da guerra? Os historiadores continuam a debater com paixão esta questão. Para muitos, a Alemanha é a responsável juntamente com o seu aliado da época: o decrépito Império Austro-Húngaro. Para outros – e não só para os alemães – a Rússia e a França, a Grã-Bretanha e a belicosa Sérvia também têm grandes responsabilidades pelo início do conflito.
Estou absolutamente convencido que nenhum governo da época procurou, deliberadamente, um conflito militar generalizado entre as grandes potências. O que começou por ser uma crise localizada entre a Áustria-Hungria e a Sérvia transformou-se num conflito global, muito por força da intrincada rede de compromissos diplomáticos e militares existentes entre as grandes potências.
Os rigorosos e quase imparáveis planos de mobilização militar – acreditava-se que o atraso na mobilização e transporte de tropas poderia ser fatal para o desenlace das operações militares – retiraram aos governos qualquer espaço para recuar. Os que fizeram bluff acabaram por ter de ir a jogo porque “a parada já estava demasiado elevada”.
O regresso dos nacionalismos exacerbados em algumas zonas da Europa é pouco compreensível no quadro do que deveria ser a memória europeia em relação ao perigo que os mesmos representam para a paz. É fácil libertar a tremenda força tectónica dos nacionalismos. O que a Primeira Guerra Mundial prova é que as consequências que resultam da libertação dos velhos demónios de uma História europeia longa e sangrenta são, em grande parte, catastróficas e largamente imprevisíveis.

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