A quem servir a carapuça…

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Recep Tayyip Erdoğan, depois de ter sido Primeiro-Ministro da Turquia entre Março de 2003 e Agosto de 2014, tornou-se Presidente a partir de 2014, sempre eleito democraticamente.
Neste ano de 2016, desde Julho, a pretexto de contrariar as forças antidemocráticas do país que então teriam planeado um golpe de Estado para o depor, Erdoğan desencadeia assumidamente um processo de “limpeza” dos seus supostos opositores. Altas patentes do exército, juízes, reitores e depois os professores mais categorizados, jornalistas, empresários, etc., foram sendo sucessivamente afastados, das suas posições, das suas funções, dos seus locais de emprego, das suas casas, muitos tendo sido detidos e sobre os quais pouco ou nada se sabe.
Na verdade, tratou-se (prolongando-se) de uma bem conhecida e mal consentida estratégia política de purga da massa crítica pensante, constituída por cidadãos não só com uma instrução superior e capacidade de pensarem por si mesmos, mas também (e por isso mesmo) de espírito independente. Decapitadas as cabeças pensantes e livres, sobram alguns seguidistas, essenciais para o regime, e uma massa facilmente manipulável. Os seguidistas são mercenários do líder que servem, vendendo o que for preciso em troca da satisfação dos seus interesses pessoais; são apátridas, sem causas próprias. A massa é heterogénea mas actua como uma força única e poderosa aglomerada por emoções intensas, despertas e alimentadas pelo agitar de esperanças ou receios, ambos invariavelmente falsos. De facto, tanto os seguidistas quanto as massas são manipuláveis: os primeiros, consciente e voluntariamente; os segundos, inconsciente e involuntariamente.
Mas só os seguidistas têm futuro junto ao líder. Estes alcançam agora posições a que jamais ascenderiam pelos seus méritos e ficam ainda mais enterrados na subserviência ao chefe; simultaneamente, assim guindados a funções para as quais não têm competências, exercem-nas como poderes que abatem sobre os demais como única via para se afirmarem na ausência de outras aptidões. O poder dos incompetentes é sempre tirano. E assim as ovelhas se convertem em cães de fila.
Se este cruel cenário, vivido e revivido ao longo da história da humanidade, é já trágico, o drama adensa-se quando nos consciencializamos que os Erdoğans deste mundo secam tudo o que os rodeia, esvaziam o horizonte de alternativa, através do que se perpetuam no poder. E a democracia que os elegeu caricatura-se em ditadura…
Também nas nossas democracias pululam os Erdoğans. Também nas nossas instituições, hoje todas com uma estrutura e gestão supostamente democrática, se agigantam os Erdoğans, na hegemonia do líder, anquilosado no poder, depois de silenciadas as vozes pensantes, a pretexto do controle financeiro, da optimização dos recursos, da renovação dos quadros, etc., etc. E neste deserto, mesmo quando parte da massa começa a despertar do seu entorpecimento, não encontra um novo líder. Ameaça instalar-se o reino da inércia em que asfixiamos.
Aos nossos Erdoğans se pode fazer saber que esta estratégia, sendo eficaz, é como tudo na vida, e durando mais ou menos tempo, acabará por caducar.
A quem servir a carapuça…

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