ANGÚSTIA…

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E  tudo começa num daqueles desagradáveis dias em que acordamos sem saber que rumo dar à vida. E pensamos em mil coisas  feitas e muitas mil que ficaram por fazer. E surge-nos a angústia da vida que se perdeu. Porque nós não a soubemos viver. Ela passou por nós numa correria desenfreada, acenou-nos um convite e seguiu em frente. Rápido. Muito rápido. Não mais olhou para trás. Sem complacência. 

E nós ficámos parados na fila. Esperando segundo convite. Que jamais viria. E ficámos reclamando dela. Da vida. Lamentando falta de oportunidades. Carpindo mágoas. Tecendo teses sociológicas sobre ela. Atirando ao ar nossos pontos de exclamação. Avolumando os nossos medos. Transformando-os em infeções psicológicas. Confundindo os nossos processos mentais, os nossos pensamentos, com sentimentos de culpa. Raciocinando desequilibradamente àcerca da vida, provocando ideias intoxicantes. Avaliando os outros por linhagens e diplomas, esquecendo realizações feitas e tamanhos de ideias. 

E ficamos bem acordados. Olhos bem abertos com a certeza que a nossa mesquinhice nos tornou perdedores. Não vencedores. A vida correndo, já vai bem em frente. E nós sem termos procurado o seu lado ensolarado, nos quedámos. Esperando. E sentimos a sensação de impotência. Ela já vai longe. Implacável. Passou, lançou um apelo e seguiu. Só nos resta agarrar os últimos pedaços. Bem esfarrapados. Porque ela arrastou na sua correria louca o melhor que tinha para oferecer. E nós não aceitámos. Estávamos  demasiado ocupados. Assemelhando-nos  a uma espécie louca, escondendo-nos atrás de rostos, rostos e rostos.

E vem a angústia do tempo perdido. Afinal quando terá passado ela? A vida. Passou cedo. Muito cedo. Começou a passar desde aquele primeiro choro ao nascer. E não mais parou. Ela esteve sempre lá. Acompanhou o bébé . Risos e lágrimas. Veio a escola. Cinco vezes nove. Regra de três. Logaritmos. Raíz quadrada. Camões. Vasco da Gama. Psicologia. Primeiro emprego. Desamores. Amores. Alegrias. Frustrações. Incompreensões. E muitas festas. E o baile fez-se sem você. Pais compreensivos. Pais tiranos. Amigos que ficaram. Amigos que viraram a curva do caminho, braço no ar. Um último adeus e nós sempre na esperança da volta, sofrendo, sofrendo muito. Amores que fizeram malas e partiram. Passeios. Viagens. Trabalhos. Risos. Lágrimas. 

E nós não entendemos que tudo isto era a vida. E ficou a angústia da saudade. A angústia de ter chegado atrasado. A angústia da festa que acabou antes de começar. Angústia da separação antes do encontro. A angústia da doença quando há saúde. Angústia do curso que se não fez. Angústia de ter empurrado um dia para que chegasse um outro. A angústia de não ter amado com um coração saudável. E com educação. A angústia de não termos sido felizes no limitado  espaço de vida física de que dispúnhamos.

E ela, a vida, partiu. Foi partindo. Enquanto nós, género de replicantes, nos negámos o direito de a seguir. Escondidos em nossa carapaça não soubemos recolher as pequenas delicadezas da vida. E esquecemos de soprar ventura e entusiasmo naquilo que fizemos. Porque naquelas rimas da vida, apenas soubémos procurar o sujeito e o predicado, esquecendo a peripécia de vislumbrar mundos, gentes, afetos, feitos. Porque continuámos  desfilando nomes, números à toa, sem distinguirmos grandezas e misérias. Olvidámos a dor dos pobres e aceitámos o fausto dos ricos.

E nos braços pendidos da hipérbole não soubémos colocar o deslumbramento que a vida oferece, o ensejo de ir sempre mais além. Sempre em frente. Até ao fim. E sobrou o arrependimento, a dor no peito, a angústia sempre e sempre a angústia. 

Obs :Esta crónica foi desencantada com algum custo lá dos escaninhos da velha secretária. Não obrigação. Vontade de atender o pedido dum amigo doente que muito prezo. Aos leitores, um pedido de desculpas pelo atrevimento de repetir algo escrito há muito.